19/09/2026
UMA REFLEXÃO SOBRE A ENTREVISTA DA PROFESSORA DO “PIM, PIM, PIM”
Acompanhei a entrevista conduzida pelo jornalista Mário à professora Isabel, conhecida pelo seu famoso “Pim, Pim, Pim, professora está a chegar”, no Telejornal.
Antes de qualquer reflexão, quero começar por parabenizar a professora pelo reconhecimento que tem conquistado a nível nacional, fruto da visibilidade que alcançou depois de o seu bordão e as suas actividades lúdicas viralizarem nas redes sociais. Sem retirar qualquer mérito às suas conquistas, a entrevista despertou em mim algumas reflexões, tanto sobre os aspectos positivos quanto sobre algumas limitações que merecem ser analisadas com serenidade.
Segundo a própria professora, a actividade “Pim, Pim, Pim” surgiu inicialmente como uma brincadeira. Só depois de perceber a sua repercussão e o impacto que produzia nas crianças é que começou a compreender o seu potencial enquanto recurso para a aprendizagem. Aqui está um primeiro ponto interessante: a actividade não nasceu propriamente de uma estratégia didáctica previamente estruturada e seleccionada com uma intencionalidade pedagógica definida. Nasceu da espontaneidade, da criatividade e da observação da realidade da sala de aula, e posteriormente revelou potencial educativo.
Outro aspecto que me chamou atenção foi quando a professora referiu que realizou uma formação pedagógica num plano de férias, tendo essa formação constituído a sua principal preparação para leccionar no Ensino Primário.
Por outro lado, a professora também revelou que realiza palestras para outros professores sobre a utilização de actividades lúdicas em sala de aula e que pretende desenvolver um projecto de capacitação de professores para trabalharem com crianças com Necessidades Educativas Especiais (NEE).
É precisamente aqui que considero importante fazer uma distinção.
Ao acompanhar as suas intervenções, é possível perceber algumas limitações no domínio de determinadas matérias educacionais. E isso não deve ser visto necessariamente como uma desvalorização da professora. É natural que alguém que não tenha uma formação superior sólida em Pedagogia apresente limitações próprias de quem ainda está em processo de construção do seu conhecimento científico na área.
Mas há algo que me chamou ainda mais atenção: a determinação, a criatividade e, sobretudo, a ousadia.
E é aqui que está o verdadeiro centro da minha reflexão.
Enquanto muitos profissionais formados na área da Educação permanecem à espera da oportunidade perfeita, existem pessoas que, mesmo não tendo inicialmente todas as ferramentas académicas necessárias, conseguem identificar uma oportunidade, avançar, experimentar, criar e conquistar visibilidade.
A professora Isabel está a aproveitar uma oportunidade que surgiu no seu caminho. E isso é algo que devemos observar com atenção. O mundo profissional não é feito apenas de diplomas. A formação é fundamental, mas a formação, por si só, não garante iniciativa, criatividade, comunicação, capacidade de execução ou coragem para transformar uma ideia em realidade.
Muitos dos profissionais formados em Pedagogia possuem conhecimento científico, mas nem todos conseguem transformar esse conhecimento em práticas que despertem a atenção das pessoas. Ao mesmo tempo, a ousadia sem conhecimento científico também possui limites. É precisamente da combinação entre formação, experiência, criatividade e ousadia que podem surgir resultados ainda mais consistentes.
Por isso, em vez de simplesmente criticarmos a professora por não possuir uma formação inicial superior em Educação, talvez devêssemos olhar para aquilo que ela já conseguiu construir e pensar no que poderá acontecer se, daqui para frente, ela decidir investir seriamente na sua formação superior e no aprofundamento dos seus conhecimentos pedagógicos. Ela ainda tem tempo. Pode formar-se, especializar-se, aprender mais sobre Didáctica, Psicologia da Educação, Educação Especial, desenvolvimento infantil e outras áreas fundamentais para aquilo que já está a fazer. E, se fizer isso, poderá transformar uma iniciativa que nasceu de uma simples brincadeira num trabalho cada vez mais estruturado do ponto de vista pedagógico.
Esta reflexão não é para diminuir a professora. É exactamente o contrário. É para mostrar que, muitas vezes, aquilo que falta a algumas pessoas formadas na área não é necessariamente conhecimento, é ousadia para transformar o conhecimento em oportunidade. A professora encontrou uma oportunidade e está a aproveitá-la.
Que a sua próxima conquista seja também a busca pelo conhecimento científico que poderá ajudá-la a aperfeiçoar aquilo que já começou.
Formação abre portas. Ousadia faz-nos entrar. Conhecimento e experiência ajudam-nos a permanecer.
Venceslau Singoyombe
"O Pedagogo da Nova Angola"