16/06/2026
As grandes mesas e o elevador social
Não sei se é uma prática provinciana local ou se o problema é de âmbito nacional, mas, em Portugal, há uma fúria desenfreada por pertencer a círculos exclusivos, aquilo a que eu chamo as grandes mesas, onde se tem o destino dos homens e se tomam as grandes decisões. É o princípio do pequeno comité. É a lógica do elevador social. É a ideia de que existe um pequeno escol de eleitos que sabe as coisas. E são assuntos da maior importância e solenidade.
É-me dito que nestas mesas se debate quem serão os ministros; os grandes cargos da Nação são decididos nestas mesas, as políticas do país, as grandes obras, a ração que cada um tem direito a receber. Não é a ração do pão ou da manteiga. É a ração da dignidade pública. Existe quase uma tendência visceral de seita nestes circuitos exclusivos, altamente secretos, onde circulam os segredos da pátria. E eu conheço pessoas que me trazem estes segredos à boca pequena somente para ilustrar: "Eu estive lá e a sopa era uma vichyssoise."
Reparem que esta neura é nacional. Até na Covilhã existem estes círculos. E tenho relatos disso. Talvez seja do Minho ao Algarve. Quem sabe? É um mito nacional dos pequenos círculos de privilegiados, abençoados com a verve do esclarecimento. E come-se muito bem nestas grandes mesas.
Agora também sei que existe quase sempre um ressentimento oculto nestes mitos nacionais. Um desses mitos é o elevador social. Não sei se já perceberam que o elevador social está avariado. Ou atrofiado. Ou, se calhar, é mesmo uma mentirinha inconsequente. Porque as leis do poder são muito simples: tem poder quem está perto do centro do poder. É assim aqui e na Indochina. Quem tem acesso tem poder. E a razão é prosaica. O poder está nas mãos de pessoas, e quem está por perto pode facilmente cheirar o fedor das meias ou das inseguranças. O poder, na proximidade, perde a aura. Torna-se humano. E o ser humano tem milhões de defeitos. Um deles é perder a aura de intocável.
É por esta razão que o elevador social é uma mentira. Não existe nenhum elevador social; o que existe é a capacidade de se aproximar do poder, conhecer as suas fraquezas ou vulnerabilidades e saber aproveitar-se disso. Nada mais. Já é assim desde os tempos dos gregos e dos romanos. Aliás, uma das críticas que conhecemos a Péricles são as piadas que os humoristas fizeram sobre a sua mulher, Aspásia. O humor ataca onde dói mais. E Aspásia era um excelente alvo: uma estrangeira culta a viver em Atenas! Muito se perdeu dos aedos gregos, mas não as piadas que os humoristas fizeram sobre esta mulher.
É por isso que quem presta um olhar clínico à realidade nacional vê o óbvio. Há mil e uma maneiras de manietar o poder do Estado de forma invisível e quase misteriosa. Nota-se nos podcasts que existem "inside jokes" ou, como diria o gajo de Alfama (personagem dos Gatos Fedorentos), "eles falam entre si, a coisa não passa cá para fora". Ou melhor, passa, mas é preciso estar atento. Aliás, o próprio RAP, num podcast com o Daniel Oliveira, confessa que lhe tentaram fazer um assassinato de carácter. E teve de se pôr a jeito; caso contrário, era encostado na prateleira do esquecimento.
Isto para dizer o quê? Somos um país de mitos, onde se amansam as massas para estas f**arem ordeiras. Grande parte do jogo do poder é feito nos bastidores. E ninguém gosta de falar nisso. A maior parte das pessoas agita-se de acordo com a tutela dos senhores da opinião. E, neste sentido, não somos um país livre. É por isso que escrevi que é fácil, neste país, manipular as pessoas para estas defenderem posições que vão contra os seus interesses ou contra os interesses do país.