07/09/2026
Desejo mimético
Penso que li isto em Schopenhauer, embora já não tenha a certeza. A memória não é o meu forte, nem a astúcia. Mas a ideia era mais ou menos esta: a grande maioria das pessoas sofre por coisas supérfluas. Sofre por coisas de que não precisa.
Nas querelas da vida, dou por mim a reconhecer isso. Eu próprio ocupo o meu tempo, a minha paciência e os meus nervos com coisas absolutamente inúteis ou fúteis. Sei que a futilidade também é uma arte. E a arte faz parte da vida. A vida não é feita apenas de Necessidade. Os gregos sabiam-no bem: a Necessidade é uma musa imperiosa, mas não é a única.
Ainda assim, sou forçado a perguntar-me o que preciso, afinal, para ser feliz.
Não digo que seja necessário ser feliz. Talvez esteja apenas a dar um passo em frente — ou acima — na pirâmide de Maslow. Depois de resolvidas algumas necessidades, o que é que realmente procuramos? O que preciso eu para estar bem?
Felizmente, tenho um superpoder: não sofro por validação.
Já sofri. Já tive necessidade de pertencer, de ser reconhecido, de fazer parte das cortes, das tribos, dos pequenos clubes exclusivos e até dos pequenos comités. Já procurei o olhar dos outros e a confirmação de que também tinha lugar à mesa.
Mas isso parece ser água passada. Já não move estes moinhos.
E vou ser sincero: geralmente preciso da companhia de um livro. Ando quase sempre com livros na mochila. Preciso de escrever — e escrevo diariamente. Preciso de algum cinema ou de uma série de vez em quando. E preciso, sobretudo, de estar sempre a estudar ou a aprender qualquer coisa. Neste momento, estudo Fenomenologia.
Talvez seja precisamente para tentar compreender a minha própria desordem que, no outro dia, entrei na Bertrand e pedi Ser e Tempo, de Martin Heidegger, e perguntei pelos livros menos conhecidos de Camilo Castelo Branco. Ser e Tempo é, de facto, a obra maior de Heidegger e foi publicada em 1927.
Saí de lá com O Príncipe, de Maquiavel, e com um dos livros que deram origem a Game of Thrones.
É um grande salto entre a vontade e o desfecho.
Mas, pensando bem, talvez seja precisamente esse o ponto. Não preciso necessariamente dos livros que procuro. Preciso de livros que me façam companhia.
Na realidade, o que preciso para estar bem é estar ocupado entre a escrita e a leitura. Preciso desse movimento contínuo entre aprender, pensar, escrever e voltar a aprender. É esse estímulo que me mantém desperto e, de alguma maneira, reconciliado comigo e com o mundo.
Talvez isto também seja uma forma de desejo. Mas não me parece um desejo mimético.
Não quero necessariamente aquilo que os outros querem. Não quero ser aquilo que os outros são. Não procuro nos outros uma autorização para desejar.
Tenho uma rotina que escolhi — ou, pelo menos, que fui escolhendo — e que me satisfaz. Talvez a felicidade seja menos uma questão de conquistar alguma coisa do que de descobrir aquilo de que não precisamos para estar bem.
E o leitor: o que o faz feliz?