08/08/2026
Treze anos. O tempo não leva tudo.
Minha mãe morreu há 13 anos. É muito tempo. Tempo suficiente para a vida mudar de direção muitas vezes, para existirem recomeços, escolhas, viagens, perdas e novas histórias que ela não chegou a conhecer. Às vezes penso nas coisas que gostaria de ter contado a ela, nos lugares que conheci, nas escolhas que fiz, nos recomeços que vivi e em tantos caminhos que a vida abriu depois daquele dia. E, inevitavelmente, penso no que ela teria dito.
Talvez seja essa uma das coisas mais estranhas sobre o tempo: ele nos ensina a continuar, mas não necessariamente a esquecer. A vida segue, as circunstâncias mudam, nós mudamos com elas, mas certas presenças permanecem de maneiras que já não dependem da presença fÃsica.
Minha mãe continua nas frases que repito, nos conselhos que dou e, sobretudo, naquelas frases que ela criava ou repetia tantas vezes que acabaram ficando gravadas em mim. Há momentos em que estou conversando com alguém e percebo, quase sem querer, o quanto aquela frase, aquele conselho ou aquela maneira de enxergar uma situação carrega algo dela. Hoje, muitas vezes sem perceber, repasso a outras pessoas ensinamentos que um dia recebi dela.
O tempo também mudou a maneira como me lembro dela. No começo, eu lembrava do último dia. Depois, dos últimos anos. Hoje, prefiro lembrar de uma vida inteira. Porque uma pessoa não se resume ao dia em que morreu. Ela permanece naquilo que ensinou, nos valores que transmitiu, nas histórias que deixou e nas pessoas que ajudou a formar.
Minha mãe não pôde acompanhar muitas das histórias que vieram depois daquele dia. Não viu os caminhos que percorri, os lugares que conheci ou os recomeços que a vida me exigiu. Mas existe algo dela em muitas dessas coisas: naquilo que aprendi, naquilo que escolhi preservar e, principalmente, naquilo que ainda ensino.
Talvez seja essa uma das formas de transformar uma perda em algo que continua tendo sentido: não negar a ausência, mas permitir que aquilo que recebemos de alguém continue produzindo significado depois que essa pessoa já não está aqui. O tempo passa, a vida muda, as pessoas partem, mas aquilo que realmente nos formou pode continuar atravessando conversas, escolhas e histórias.
Treze anos depois, a saudade continua. Mas ela já não existe apenas como dor. Existe também como gratidão por tudo aquilo que recebi, por tudo aquilo que permaneceu e por tudo que, de alguma maneira, ainda consigo transmitir.
Mãe, eu gostaria que você tivesse conhecido muitos dos caminhos que vieram depois daquele dia. Gostaria de ter contado algumas histórias, ouvido sua opinião e descoberto o que você teria pensado sobre tantas coisas. A vida, porém, não nos deu esse tempo.
O que ela nos deu foi uma história que continua. E quando uma de suas frases volta à minha voz, quando repasso a alguém uma frase ou um conselho que um dia recebi dela ou reconheço em uma escolha minha algum valor que ela ajudou a construir, sinto que uma pequena parte dessa história segue adiante.
Treze anos depois, entendo que o tempo não leva tudo.