08/06/2026
Cura-te, filha.
Cura-te das histórias que te ensinaram a ser pequena.
Das vozes que disseram “não é hora”.
Das mãos que te moldaram antes que você soubesse o próprio formato.
Cura-te do silêncio que você engoliu para caber.
Da pressa de ser forte.
Da culpa por sentir demais.
Cura-te, mulher.
Cura-te das promessas que fez para sobreviver
e que agora já não servem para viver.
Cura-te do amor que doeu
e da ideia de que amar precisa doer.
Cura-te do medo de decepcionar.
Do vício de agradar.
Da fome de aprovação.
Volta.
Volta pro teu ventre.
Pra tua respiração antiga.
Pra essa sabedoria que mora nos ossos
e sussurra quando o mundo grita.
Cura-te antes que o corpo grite o que a alma já sabe.
Cura-te antes que o cansaço vire destino.
Cura-te não para ser perfeita
mas para ser inteira.
Inteira na tua luz.
Inteira na tua sombra.
Inteira na tua história que ninguém mais pode viver por você.
Filha, lembra:
As mulheres que vieram antes de ti
atravessaram desertos para que você pudesse florescer.
Honra-as vivendo.
Honra-as escolhendo.
Honra-as ficando de pé.
Cura-te.
Porque quando você se cura,
não é só você que desperta
é a linhagem inteira que respira.
Cura te filha.
Poema de Maria Sabina