19/11/2021
REALIDADE NAS PENEIRAS
Viver é falta de ocupação. Existimos, porque não temos mais nada para fazer. O solo prendeu a respiração quando ouviu pisadas de manadas com chinelas. Lá vinha a senhora coberta de preocupação a pedalar o chão. Os seus pés eram os únicos filhos que a ajudavam na descoberta de novos caminhos. Pedras ao redor botando esperança, não havia tesouro nenhum, apenas poeira a transpirar. A senhora andava e empurrava obrigatoriamente o seu corpo à moagem. Os braços somente baloiçavam porque estavam completamente avariados. Cabelo privado de ver o dia, pulsos repletos de paixões arcaicas e dedos fabricados para fabrico.
De repente um jovem trava o corpo da senhora:
Senhora, discurpa, onde vais com toda essa pressa?
Vou disfarelar a relidade e depois penerá-la...
Porquê?
Por ela ser muito peluda.
Depois de tais declarações, a senhora colocou a sua sombra a caminho.
(Tirado do livro Seios Perdidos de António Mateus)