05/05/2026
Tina Bunga, Jeff Brown e a música que quase passou despercebida 
Descobri, há dias, uma belíssima peça musical de Tina Bunga, com a participação do grande Jeff Brown. O que nela se escuta não é apenas uma canção. É uma delicada arquitectura sonora, na qual as tradições bakongo e umbundu se encontram, se reconhecem e, sem abdicarem da sua dignidade original, entram no tempo moderno com rara elegância.
E, no entanto, dois meses após a sua publicação, a obra permanece quase invisível. Poucas visualizações. Pouco rumor. Pouca atenção. Estamos perante uma dessas injustiças discretas que dizem muito sobre o estado do nosso gosto colectivo.
Dói constatar como, em Angola, tanta mediocridade ruidosa ocupa palcos, antenas e plataformas, enquanto obras de verdadeira substância permanecem abandonadas à margem, como se a qualidade fosse um incómodo e a vulgaridade tivesse recebido, por decreto invisível, direito permanente de passagem.
Há por aí vozes sem arte, gestos sem imaginação, produtos musicais que roçam o obsceno, o banal e o redundante e que, ainda assim, circulam com a p***a dos grandes acontecimentos. Alguém lhes abre portas. Alguém lhes oferece microfones. Alguém, com estranha diligência, insiste em apresentar ao mundo aquilo que, no fundo, não passa de ruído sem valor.
Poder-se-ia perguntar, com alguma melancolia, se certos guardiões da música popular angolana não terão desenvolvido uma espécie de desdém por tudo quanto cheira a autenticidade: o rural, a tradição, a história, a Angola do interior, essa Angola profunda que não precisa de autorização para existir.
Na sua ansiedade de parecerem sofisticados, de se sentarem à mesa global e de ainda se reflectirem nos olhos dos antigos senhores, muitos parecem ter perdido o amor-próprio cultural. E, quando se perde esse amor-próprio, começa-se a desconfiar precisamente daquilo que nos dignifica.
Por isso se abafam vozes densas, sonoridades antigas, ritmos com raiz, memórias que vêm de longe. Não porque lhes falte valor, mas porque obrigam certos espíritos domesticados a lembrar-se de onde vêm.
A sua missão, no fundo, já não é elevar aquilo que nos honra. É alimentar a ilusão de pertença a uma mesa onde talvez nunca tenham sido verdadeiramente convidados. E assim, julgando-se cosmopolitas, acabam apenas por tocar o batuque de uma submissão que escolheram transformar em mestria cultural e mental.
Enquanto isso, uma jóia musical como esta, feita de memória, fusão e inteligência artística, permanece quase esquecida. E é precisamente essa negligência que mais entristece: não a existência da mediocridade, que sempre existiu, mas o abandono daquilo que merecia ser celebrado.
Texto de: Sousa Jamba
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