25/10/2026
O que me inquieta na imagem do “guarda da esquina” é a possibilidade de o autoritarismo se espalhar pelas relações mais comuns.
Um cidadão se identifica com quem governa e passa a agir como se essa identificação lhe desse autoridade sobre os demais. Decide quem merece falar, quem deve se calar e quem precisa ser “colocado no seu lugar”.
A ameaça, a humilhação e a agressão podem então ser apresentadas como defesa da ordem ou de uma causa. Quando autoridades incentivam essas práticas, protegem seus autores ou toleram sua repetição, ajudam a transformar o medo em instrumento de controle.
Quem sofre a violência passa a temer também a falta de proteção. Quem observa pode começar a medir cada palavra.
Esse é um dos efeitos mais profundos da intimidação: fazer as pessoas restringirem a própria liberdade para evitar uma punição informal.
Por isso, defender a liberdade exige coerência. Exige rejeitar a violência inclusive quando ela beneficia ideias ou grupos com os quais concordamos.
Minha convicção política não me dá autoridade sobre a dignidade de ninguém.
Nota histórica: a frase sobre o “guarda da esquina” é atribuída a Pedro Aleixo, no contexto das discussões sobre o AI-5, em 1968. Sua redação varia entre os relatos.