06/06/2026
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1) Os trentinos eram imigrantes austríacos ou italianos?
Sem dúvida, imigrantes austríacos. Eram imigrantes austríacos porque filhos, netos, bisnetos, trinetos de austríacos. Os imigrantes “trentinos” não eram imigrantes italianos – e não por causa de questões “partidárias”. Eram imigrantes austríacos e nem se definiam "trentinos", mas Tiroleses.
Sua terra natal esteve unida à Áustria de 1363 até 1918, ou seja, durante bons 555 anos - por mais tempo do que a idade do Brasil...
Em 1867, o Império da Áustria se uniu ao Reino da Hungria. Não formaram um único país e, por isso, os imigrantes não eram “austro-húngaros”, mas austríacos.
Somente após o final da Primeira Guerra Mundial, em 1918, a parte sul do Tirol foi anexada pela Itália como conquista de guerra e somente em 1923 foi criada a Província de Trento.
2) Os trentinos sempre falaram o idioma italiano. Como podem ser imigrantes austríacos?
Assim como este texto está em português, mas não estamos em Portugal. A Áustria de cem anos atrás tinha dez idiomas oficiais, entre eles o italiano, que era ensinado nas escolas da região trentina do Tirol. A Suíça atual tem quatro idiomas oficiais (alemão, francês, italiano e romanche).
O cantão suíço de Ticino tem como língua oficial o italiano - deveria ser da Itália por isso? Claro que não.
O Tirol é uma região histórica da Europa que sempre foi trilíngue, ou seja, ali se fala o alemão, o italiano e o ladino. E o Tirol pertenceu unido à Áustria por quase 600 anos. Trento teve mais tempo ligada à Áustria que toda a idade do Brasil...
Todo imigrante tirolês que chegou ao Brasil até 1918 entrou com passaporte austríaco. E se ele era da região de Trento, seu passaporte era escrito em alemão e italiano, línguas oficiais do Império da Áustria.
3) Por que se diz que eles saíram da Itália?
Porque no século 19 a “península Itália” não era sinônimo de “país Itália”, muito menos de "nacionalidade italiana". Era uma expressão geográf**a, assim como Península Ibérica, que identif**a Portugal e Espanha. Por isso era costume dizer que os imigrantes eram do Tirol Italiano, ou seja, a parte de língua italiana do Tirol, uma província do Império Austríaco.
O país Itália é recente, fundado a partir do reino de Savóia que anexou (com guerras) outros reinos e fundou o Reino da Itália em 1861. Poucos sabem que a grande causa da imigração foi a crise ocasionada quando o Vêneto foi anexado à Itália em 1866, pois o Reino da Itália fez um embargo contra os produtos austríacos, gerando uma crise que se agravou com crise na Bolsa de Valores de Viena, gerando muita pobreza na Áustria.
O embargo começou em 1866 e se passaram apenas 9 anos até a grande imigração de 1875, tempo suficiente para a nova administração italiana falir o Vêneto e a Lombardia e impor um verdadeiro boicote aos produtos tiroleses, gerando pobreza na fragilizada economia do pós-guerra. E deu no que deu: milhares de vênetos, lombardos e tiroleses emigraram para a América.
4 ) Os imigrantes trentinos se sentiam austríacos?
Sim e há muitos documentos e relatos da época que comprovam esse fato. No decorrer dos séculos, a região de Trento jamais se rebelou contra o governo de Viena e suas histórias se entrelaçam.
Por exemplo: o bispo que batizou o imperador Francisco José de Habsburgo (esposo da famosa imperatriz Sissi e muito respeitado pelos imigrantes) era de Trento. O pai da legislação austríaca foi Carlo de Martini, um tirolês de língua italiana.
E vale lembrar que, apesar da difícil condição no campo, os imigrantes tiroleses eram alfabetizados. Isso por causa da política escolar austríaca de 1700, quando a Imperatriz Maria Teresa implantou a escola obrigatória no Sacro Império (do qual a Áustria era parte integrante). Na região trentina do Tirol, o ensino era feito em língua italiana, um dos idiomas oficiais do império.
Praticamente não havia imigrantes tiroleses analfabetos. Essa diferença educacional f**ava ainda mais evidente quando se comparava a realidade dos imigrantes trentinos (tiroleses de língua italiana) e dos imigrantes italianos: enquanto os trentinos eram alfabetizados, mais de 70% dos imigrantes italianos era infelizmente analfabeta.
Existem muitos relatos, registros e publicações que retratam o patriotismo austríaco dos imigrantes tiroleses no Brasil, até com casos de exageros. Existem relatos de “brigas” e “confusões” entre colonos tiroleses e italianos durante os anos da Primeira Guerra Mundial (1914 - 1918). Naturalmente, o bom convívio prevaleceu entre os imigrantes (com casamentos, inclusive), mas os tiroleses jamais renegaram suas origens e sua pátria austríaca, onde o idioma italiano era oficial.
5) Mas os imigrantes trentinos não tinham costumes italianos?
Eles eram tiroleses de língua italiana e, obviamente, tinham costumes e tradições dos Alpes que podemos ver tanto na cultura austríaca, como na italiana. Existem costumes semelhantes (quando não idênticos) aos seus vizinhos italianos do Vêneto e da Lombardia, bem como costumes idênticos aos do Sul da Alemanha.
A cultura do Tirol Italiano é uma "mistura" de elementos do Norte da Itália e do Sul da Alemanha e por quê? Qual o país que f**a entre a Alemanha e a Itália? A Áustria!
Os pratos mais típicos de Trento também são típicos na Áustria, como os Canederli (Knödel), Polenta e cràuti (Plenten mit Sauerkraut), Strangolapretti (Spinatnockerl) e o famoso vinho Teroldego (Tiroler Gold).
As danças típicas de Trento NÃO são as tarantelas (guarde bem isso!), mas as valsas, polcas e a pàiris (Bairsich), assim como na Áustria e demais regiões alpinas. Os trajes típicos são os mesmos usados na Áustria e Baviera (Alemanha).
A região de Trento sempre foi chamada "Tirol Italiano", por causa da língua e hábitos. Assim são as regiões de fronteira; basta pensar na Suíça, onde existem 4 idiomas oficiais.
6) Então os trentinos não fazem parte da imigração italiana?
No máximo, poderiam ser incluídos no contexto dos imigrantes de LÍNGUA italiana, mas eram imigrantes austríacos.
E basta ver os números oficiais da imigração italiana para que seja tirada qualquer dúvida.
Trento não está nas estatísticas oficiais da Itália porque a região de Trento era território da Áustria.
http://it.wikipedia.org/wiki/Emigrazione_italiana #/media/File:%C3%89migration_italienne_par_r%C3%A9gions_1876-1915.jpg
7) Mas a Áustria demonstra interesse pelo assunto?
Existem vários estudos austríacos sobre o assunto, embora pouco conhecidos no Brasil ou, por vezes, ignorados.
http://www.lateinamerika-studien.at/content/geschichtepolitik/brasilien/brasilien-21.html
8.) E se nós quisermos comemorar a imigração de trentinos como italiana?
Como queiram. Talvez por desconhecimento? Talvez haja confusão por conta dos estereótipos? Talvez seja mais "fácil" (ou conveniente) colocar todos os imigrantes de língua italiana num mesmo “balaio”?
Estamos apresentando dados históricos e culturais que se comprovam com documentos e pesquisas sérias. Por isso, podemos dizer, sem medo de errar, que os trentinos não eram imigrantes italianos.
9) Mas e a questão da cidadania italiana?
Trata-se de uma lei especial (379/2000), aprovada na República Italiana e com período de vigência de dez anos (finalizado em 2010). A lei permitiu a solicitação da cidadania italiana aos descendentes de imigrantes austríacos saídos de regiões que foram anexadas pela Itália após a Primeira Guerra Mundial.
Temos aí uma realidade peculiar: austro-brasileiros com nacionalidade italiana. Por que não?
É claro que a dupla nacionalidade tem seu valor, PORÉM um documento não é suficientemente capaz de modif**ar a história, cancelar a cultura e as tradições dos imigrantes, muito menos "mudar" a nacionalidade dos imigrantes austríacos. É preciso ter bom senso.
10) Mas hoje Trento está na Itália. O que dizer sobre isso?
Trento sempre esteve onde está, muito antes do país Itália existir! ;-)
Já se perguntou porque Trento é a capital de uma província autônoma e parte integrante de uma região autônoma?
..um pouco de história:
A região de Trento foi austríaca por quase 600 anos. Não quis se separar da Áustria em 1848 quando na Itália havia guerras contra a Áustria, não colaborou com Garibaldi em 1866, nunca se revoltou contra Viena. A região de Trento só passou para a Itália após a Primeira Guerra Mundial, pois o Império Austríaco perdeu o conflito e foi dissolvido.
Mais de 60.000 (sessenta mil) trentinos combateram no exército austríaco na Primeira Guerra, dos quais 12.000 (doze mil) voluntários contra a Itália quando esta declarou guerra à Áustria.
Isso demonstra que a população se sentia profundamente austríaca. Muitos jornais brasileiros da época traziam anúncios sobre colonos tiroleses (trentinos) que enviavam dinheiro para ajudar o exército austríaco.
Se Trento quisesse fazer parte da Itália, não teria guerreado até o final, impedindo o exército italiano de invadir Trento. Todavia, vale lembrar que pouco mais de 300 (trezentos) trentinos optaram por combater no exército italiano, dentre eles o deputado austríaco Cesare Battisti, do partido socialista, considerado um herói nacional na Itália. Em 1915, Battisti se alistou no exército italiano e combateu contra seus compatriotas trentinos do exército austríaco; acabou sendo capturado pelo pelotão do tenente Bruno Franceschini e foi levado a Trento, julgado e condenado ao enforcamento por traição. Sua figura ainda é muito "usada" para afirmar que a população trentina nunca se sentiu austríaca, mas realmente a situação não é tão simples assim.
Os recentes estudos demonstraram que Battisti era espião e foi pago para fazer o que fez, de modo que não se tratava apenas de sua convicção política. Após a sua morte, sua figura acabou sendo instrumentalizada para manter narrativas políticas. Battisti foi um jornalista talentoso e amigo pessoal de Benito Mussolini, que poucos anos depois da Primeira Guerra se tornou o ditador fascista que levou a Itália para mais uma sangrenta guerra (Segunda Guerra Mundial).
O fascismo criou cicatrizes profundas no território tirolês, dividindo a opinião pública e criando conflitos entre os tiroleses de língua alemã e italiana (dividir para comandar).
Um decreto fascista de 8 de agosto de 1923 proibiu o uso do nome "Tirol" para a região, com multas altíssima e prisão prevista. O antigo Tirol foi dividido em duas províncias, batizadas com novos nomes. A província de Trento passou a ser chamada de Trentino e a província de Bolzano passou a ser chamada de Alto Adige. Para se ter uma ideia, essas palavras "Trentino" e "Alto Adige" só começaram a ser conhecidas no Brasil em meados da década de 1970, pois os descendentes sempre diziam que seus avós e bisavós vieram do Tirol.
O fascismo proibiu os idiomas alemão e ladino, línguas maternas de muitas famílias da região. Sobrenomes foram trocados, principalmente os de origem germânica. Quase todos os nomes de ruas e praças foram mudados, quase todos os brasões, afrescos, símbolos, bandeiras e monumentos austríacos foram eliminados, para que o secular passado da região fosse "apagado". Os professores e funcionários públicos eram demitidos e substituídos por italianos vindos de outras regiões, para que as novas gerações fossem reeducadas sem algum sentimento austríaco.
Dizer-se tirolês durante o regime fascista era considerado um crime.
Se Trento se sentisse tão italiana, tudo isso não teria sido necessário...
Após a Segunda Guerra Mundial e com a queda do regime fascista, a região de Trento e Bolzano continuou com problemas políticos. De todas as regiões da Itália, Trento foi a que mais votou pelo fim da monarquia italiana e pela implementação da República.
A maioria das famílias pediu a restituição dos sobrenomes antigos, muitos funcionários puderam voltar aos seus antigos cargos, mas muitas coisas simplesmente não voltaram mais ao que eram...
O tirolês Alcide Degasperi, nascido austríaco em 1881, foi deputado do Império Austríaco durante a juventude e se tornou presidente da Itália. Assim como ele, outros políticos tiroleses que nasceram austríacos se tornaram membros da política da nova República Italiana.
Degasperi, que falava fluentemente o alemão, atuou diretamente naquele que ficou conhecido como "Acordo Degasperi-Gruber", um tratado internacional assinado em 5 de setembro de 1946 em Paris, entre Itália e Áustria, que permitiu que o Tirol do Sul permanecesse parte da Itália, assegurando porém a sua autonomia e a utilização da língua alemã e língua italiana como oficiais.
Apesar do acordo e dos esforços, os resultados não saíram como esperado. Os nacionalistas italianos continuavam dificultando as coisas, ao passo que muitos tiroleses não estavam satisfeitos com o acordo.
Boa parte da população regional exigia o retorno à Áustria ou a autonomia administrativa integral. Na província de Bolzano (com maioria da população de língua alemã), teve início um movimento que fazia atentados a bomba nas torres de transmissão de energia, para chamar a atenção do mundo para o problema tirolês. Recentes estudos austro-italianos demonstraram que o serviço secreto italiano também provocou atentados que ocasionaram em vítimas, na tentativa de desmoralizar o movimento separatista. Era a época da Guerra Fria, com muitas tensões políticas no mundo. Havia o medo de um possível auxílio russo no movimento separatista tirolês. Sobre isso, vale a pena assistir aos filmes da série "Verkaufte Heimat" ("Patria svenduta", ou seja "Pátria vendida"), disponíveis no YouTube.
Em Trento, teve início o maior movimento popular da história da região, a ASAR (Associazione Studi Autonomisti Regionali) que exigia o retorno do nome "Tirol" e a autonomia integral para toda a parte do Tirol que passou para a Itália. Dentro da ASAR, criou-se o Movimento Separatista Trentino-Tirolese, que teve muitos de seus líderes presos. Degasperi era do partido Democracia Cristã e não permitiu que a ASAR se tornasse o partido que governaria a província de Trento. Os interesses políticos falaram mais alto e a população pagou o preço...
Os autonomistas e os separatistas sofriam constantes perseguições, inclusive com casos de tortura.
O mesmo aconteceu em Bolzano, onde os combatentes pela liberdade foram presos, torturados e muitos deles mortos sob tortura. Alguns fugiram pelas montanhas para a Áustria e nunca mais receberam a anistia. Os atentados a bomba contra as torres de energia continuaram e o caso foi parar na ONU, com a República da Áustria exigindo uma solução imediata do governo italiano.
Atualmente, as províncias de Trento e Bolzano (Tirol Meridional ou Südtirol/ Sudtirolo) formam uma Região Autônoma na Itália, cuja autonomia é tutelada desde 1946 pela República Austríaca e a autonomia é garantida por meio de um acordo internacional assinado na ONU.
Há cerca 30 anos as províncias colaboram diretamente com o governo do Tirol austríaco, formando a EUREGIO TIROL, entidade que possui um escritório comum em Bruxelas, na sede da União Europeia (Europaregion/Euregio Tirol).
Talvez você não saiba, mas até hoje os jornais locais de Trento e Bolzano publicam semanalmente notícias e artigos onde são tratados não só a autonomia, mas até mesmo a polêmica questão separatista.
Achou interessante?
Para saber mais:
https://tiroleses.com.br/2026/02/25/a-cultura-trentina/