25/08/2026
Tenho recebido teses e dissertações em que mestrandos e doutorandos, especialmente da área do Direito, por falta de domínio de metodologia científica (às vezes os próprios programas de Pós-graduação na área não ofertam essa disciplina ou tampouco há prática aplicada à pesquisa) e de questões empíricas de pesquisa, simplesmente ignoram etapas fundamentais para a produção do conhecimento científico na Pós-Graduação Stricto Sensu (ou seja, não é o caso de Mestrado Profissional). Recentemente, por exemplo, recebi uma tese em que um doutorando (de universidade federal, inclusive) utilizou trechos do discurso de entrevistados para compor as análises da pesquisa (e foi, obviamente, criticado pela banca de qualificação), e não mencionou adequadamente a submissão ao Comitê de Ética e ainda classificou os participantes como “especialistas” (risos), como se o conhecimento científico surgisse da fala dessas pessoas e não da posição epistemológica e analítica assumida pelo próprio pesquisador. Em uma pesquisa empírica, o entrevistado não produz ciência pelo simples fato de "falar". Nesse estágio, os dados, ainda, estão brutos. Não por acaso, comumente, realiza-se a lapidação destes, por meio da transcrição. Posteriormente, após uma seleção, realizam-se as análises com base em algum método científico.
Isso também revela uma lacuna de formação evidente na área do Direito. O problema é que esse campo, em sua tradição acadêmica, não se constituiu como uma ciência em si empírica, mas sobre uma base estritamente filosófica e dogmática. O jurista aprende a interpretar normas, conceitos e autores; e não a pensar como um cientista. Quando esse pesquisador entra no mestrado ou no doutorado e lida com pesquisas que envolvem seres humanos, e tem de construir corpus, observar fenômenos, estabelecer procedimentos de coleta e analisar discursos, tenta transpor para a pesquisa uma lógica que pertence à sua prática profissional, a qual é simulacrizada. Por isso, sempre digo a todos os meus clientes dessa área que é preciso ESTUDAR METODOLOGIA DE PESQUISA CIENTÍFICA, história da ciência e compreender, especialmente, que quem sabe somente direito não sabe direito.