01/10/2026
O QUE O TERCEIRO SETOR PODE ESPERAR APÓS O RESULTADO DAS ELEIÇÕES?
Independentemente de quem vença as eleições, uma pergunta deve ocupar a agenda das Organizações da Sociedade Civil: o que muda para o Terceiro Setor e, principalmente, o que precisamos mudar dentro de nossas próprias organizações?
A eleição termina, mas os desafios sociais continuam. A pobreza não espera o resultado das urnas. A desigualdade não muda de um dia para o outro. A violência não desaparece com a posse de um novo governo. A necessidade de educação, saúde, assistência, inclusão, cultura, meio ambiente e geração de oportunidades permanece.
Por isso, o Terceiro Setor precisa olhar para o período pós-eleitoral não apenas como uma mudança de governo, mas como uma nova etapa de relacionamento institucional com o Estado, com o mercado e com a sociedade.
1. Menos dependência política, mais capacidade institucional
Uma OSC/OSCIP não deveria construir sua sustentabilidade apostando na permanência de determinado grupo político. Governos mudam. Secretários mudam. Prioridades orçamentárias mudam. Programas públicos mudam.
Uma organização madura precisa sobreviver às mudanças políticas porque sua legitimidade não vem de um governo. Vem da capacidade de gerar valor social. Isso signif**a profissionalizar gestão, governança, planejamento, comunicação, captação de recursos e prestação de contas.
2. O Estado deverá cobrar cada vez mais resultados
O debate sobre políticas públicas tende a exigir algo além da simples execução de atividades. Não basta dizer: Atendemos 500 pessoas. A pergunta seguinte será: O que mudou na vida dessas 500 pessoas? Essa diferença é fundamental.
O Terceiro Setor precisa avançar da lógica de atividade realizada para a lógica de impacto demonstrado. Número de atendimentos é importante. Número de pessoas alcançadas é importante. Número de projetos executados é importante. Mas o verdadeiro valor está na transformação produzida.
3. Parcerias público-privadas e intersetoriais ganharão importância estratégica
O futuro das OSCs/OSCIPs não precisa estar exclusivamente nos recursos públicos. Existe uma oportunidade crescente de construir pontes entre: Estado + empresas + OSCs + universidades + comunidades.
Cada setor possui recursos e competências diferentes. O Estado possui escala e capacidade institucional. As empresas possuem capital, tecnologia, conhecimento e capacidade de gestão. As OSCs/OSCIPs possuem presença territorial, conhecimento das comunidades e capacidade de mobilização social. Universidades e centros de pesquisa podem contribuir com conhecimento e avaliação. A grande questão será: como transformar esses recursos diferentes em soluções sociais mensuráveis?
4. A profissionalização deixará de ser diferencial e passará a ser necessidade
Durante muito tempo, algumas organizações têm sobrevivido graças à dedicação de seus dirigentes e voluntários. Isso continua sendo valioso. Mas dedicação não substitui gestão. Uma organização precisa saber: qual é sua missão; quem é seu público; qual problema social pretende enfrentar; qual é sua proposta de valor; como capta recursos; como administra seus recursos; como mede resultados; como presta contas; como comunica seu impacto; e como garante sua sustentabilidade. Boa intenção é o ponto de partida. Gestão é o que permite transformar intenção em resultado.
5. A comunicação institucional ganhará ainda mais relevância
Depois das eleições, haverá uma intensa disputa pela atenção da sociedade. As organizações que permanecerem silenciosas poderão perder espaço. Mas comunicar não signif**a simplesmente publicar fotografias de eventos ou divulgar campanhas.
Comunicação estratégica signif**a responder claramente: Qual problema resolvemos? Para quem? Como fazemos? Que resultados produzimos? Por que alguém deveria apoiar nossa organização? A OSC/OSCIP que consegue contar sua história com clareza aumenta sua capacidade de mobilização.
6. O Terceiro Setor precisará fortalecer sua independência
Signif**a capacidade de dialogar com qualquer administração pública preservando sua missão, seus princípios e sua identidade. Uma organização da sociedade civil precisa ser capaz de dizer: Estamos dispostos a cooperar quando houver convergência de interesses sociais, mas nossa missão não pertence a nenhum governo. Essa postura pode fortalecer a credibilidade institucional.
7. O grande desafio será transformar influência em participação
O Terceiro Setor não deve ser lembrado apenas quando chegam os editais. Deve participar da construção das soluções. Isso exige organizações capazes de produzir conhecimento, apresentar propostas, participar de conselhos, fóruns e espaços de diálogo, desenvolver projetos e demonstrar evidências sobre os problemas que enfrentam. Quem conhece profundamente uma realidade social precisa também participar da construção das políticas destinadas a transformá-la.
8. E existe uma oportunidade extraordinária para as OSCIPs
As organizações que desejarem avançar para modelos mais estruturados de atuação terão que compreender que uma qualif**ação institucional não é apenas uma mudança documental. É uma mudança de mentalidade. Governança. Planejamento. Transparência. Gestão financeira. Gestão de projetos. Indicadores. Prestação de contas. Captação. Comunicação. Avaliação de impacto. Tudo isso precisa funcionar de maneira integrada.
MAIS IMPORTANTE: É AQUI QUE A COSCIPBR TEM UM PAPEL ESTRATÉGICO
O período pós-eleitoral exigirá das organizações da sociedade civil mais do que entusiasmo. Exigirá orientação, articulação, profissionalização e capacidade de adaptação. É nesse contexto que a Confederação Brasileira das Organizações da Sociedade Civil de Interesse Público – COSCIPBR deve assumir uma posição estratégica na construção dessa nova agenda do Terceiro Setor.
A COSCIPBR poderá atuar como um espaço de orientação, integração e fortalecimento institucional, ajudando as organizações a compreenderem o novo ambiente, identif**arem oportunidades, aprimorarem sua gestão e estruturarem estratégias de sustentabilidade para o próximo ciclo. Não se trata de orientar as organizações sobre quem apoiar politicamente.
Trata-se de ajudá-las a compreender como se posicionar institucionalmente diante de qualquer governo. Isso signif**a estimular uma agenda baseada em: gestão profissional + governança + sustentabilidade + inovação + transparência + impacto social + articulação institucional.
A força do Terceiro Setor não estará apenas na quantidade de organizações existentes, mas na capacidade de essas organizações atuarem de maneira coordenada, qualif**ada e estrategicamente preparada.
Por isso, a COSCIPBR deverá contribuir para transformar o período pós-eleitoral em um ciclo de preparação técnica e fortalecimento das OSCs e OSCIPs brasileiras. Por isso, o período pós-eleição não deverá ser apenas um momento de expectativa. Deverá ser um momento de preparação.
Preparação para dialogar com governos. Preparação para construir parcerias com empresas. Preparação para captar novos recursos. Preparação para demonstrar impacto. Preparação para profissionalizar a gestão. Preparação para defender a autonomia institucional. Preparação, sobretudo, para que o Terceiro Setor deixe de ser visto apenas como executor de projetos e seja reconhecido como parte estratégica da construção de soluções para os grandes desafios sociais brasileiros.
O futuro do Terceiro Setor não será definido apenas pelo resultado das eleições. Será definido pela capacidade de suas organizações — e das instituições que as articulam e fortalecem — de se prepararem para o mundo que começa depois delas.
É nesse desafio que a COSCIPBR deverá contribuir: ajudando o Terceiro Setor a transformar incerteza política em planejamento, mudança de governo em oportunidade institucional e necessidade social em impacto mensurável.
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O autor: Eliézer Veloso Gomes é administrador, consultor para governos municipais, empresas privadas e Terceiro Setor, professor universitário, palestrante, ex-funcionário do Banco do Brasil (33 anos), ex-coordenador dos cursos de administração, ciências contábeis e engenharia da produção; e atualmente Vice-Presidente da Confederação Brasileira das Organizações da Sociedade Civil de Interesse Público.
https://www.linkedin.com/pulse/o-que-terceiro-setor-pode-esperar-ap%25C3%25B3s-resultado-das-veloso-gomes-ck44f