01/11/2026
PROMOVER O MELHOR TÉCNICO PODE CUSTAR CARO: COMPETÊNCIA NÃO É O MESMO QUE LIDERANÇA
Existe um erro bastante comum nas organizações, independentemente de seu porte ou segmento de atuação: acreditar que o melhor profissional técnico será, necessariamente, um excelente líder.
Essa percepção, embora pareça lógica, pode produzir consequências bastante negativas para a organização. O profissional que apresenta o melhor desempenho técnico, que domina os processos, resolve problemas com rapidez e entrega resultados consistentes, frequentemente passa a ser visto como o candidato natural à promoção. Afinal, se ele é o melhor naquilo que faz, por que não colocá-lo à frente de uma equipe?
É justamente aí que pode começar um dos maiores equívocos da gestão. Ser excelente na execução de uma atividade não significa estar preparado para conduzir pessoas.
O risco de promover pelo desempenho técnico
Imagine uma organização que possui um excelente analista financeiro. Ele conhece profundamente os procedimentos, domina os controles, identifica inconsistências e entrega seus trabalhos com precisão. A direção decide promovê-lo a gerente financeiro.
Entretanto, depois da promoção, surgem dificuldades inesperadas. Ele não consegue delegar tarefas, centraliza decisões, demonstra impaciência com os erros dos subordinados e tem dificuldade para desenvolver a equipe.
O que antes era uma competência individual passa a representar um problema coletivo. O profissional continua sendo tecnicamente competente, mas não consegue transformar seu conhecimento em resultados por meio das pessoas. A organização pode perder um excelente técnico e ganhar um gestor despreparado.
E o prejuízo não está apenas na produtividade. Está também no clima organizacional, na motivação dos colaboradores, na comunicação interna e na capacidade de alcançar resultados sustentáveis.
Competência técnica e competência gerencial são diferentes
A competência técnica está relacionada ao conhecimento especializado, à experiência, à capacidade de executar tarefas e à resolução de problemas específicos. A competência gerencial exige outras habilidades:
• Saber ouvir antes de decidir.
• Delegar responsabilidades e acompanhar resultados.
• Desenvolver pessoas e identificar talentos.
• Administrar conflitos sem comprometer relacionamentos.
• Comunicar objetivos com clareza.
• Tomar decisões considerando o coletivo.
• Reconhecer erros e assumir responsabilidades.
• Inspirar confiança e construir compromissos.
O bom técnico costuma ser reconhecido pelo que consegue fazer individualmente. O bom líder é reconhecido pelo que consegue construir com outras pessoas. Essa diferença precisa estar presente em qualquer política de promoção.
Liderança não é prêmio por bom desempenho
Outro equívoco é tratar a promoção a um cargo de liderança como uma espécie de recompensa pelo tempo de serviço, dedicação ou excelência profissional. O colaborador apresenta bons resultados durante anos e, como reconhecimento, recebe uma função de chefia. Mas será que ele deseja liderar? Será que possui habilidades para administrar pessoas? Será que está preparado para deixar de ser o principal executor e assumir a responsabilidade pelo desempenho de uma equipe? Nem sempre.
Alguns profissionais excelentes preferem continuar em suas atividades técnicas. Isso não significa falta de ambição ou capacidade de crescimento. Significa apenas que suas competências podem ser mais bem aproveitadas em uma carreira especializada. As organizações inteligentes criam caminhos de valorização tanto para especialistas quanto para gestores. Nem toda carreira precisa terminar em um cargo de chefia.
O verdadeiro papel do líder
O líder não precisa ser o profissional que mais entende de todos os assuntos de sua área. Precisa saber reunir pessoas que entendam, estabelecer prioridades, oferecer condições de trabalho, acompanhar resultados e criar um ambiente no qual as competências individuais se transformem em realizações coletivas.
Sua principal contribuição não está em fazer tudo, mas em fazer com que a equipe consiga fazer bem aquilo que precisa ser feito. Isso exige maturidade emocional, capacidade de comunicação, visão sistêmica, equilíbrio e disposição para desenvolver pessoas. Um líder inseguro costuma cercar-se de pessoas que dependem dele.
Um líder preparado desenvolve pessoas capazes de tomar decisões, assumir responsabilidades e até superá-lo em determinadas competências. Essa é uma das maiores demonstrações de maturidade na liderança.
O desafio em todos os setores da economia
Nas empresas privadas, a promoção inadequada pode comprometer resultados, aumentar custos e prejudicar a competitividade. No setor público, pode gerar lentidão, desmotivação, conflitos internos e perda de eficiência na prestação dos serviços à população. No terceiro setor, o problema pode ser ainda mais delicado.
Uma OSC ou OSCIP não pode confundir conhecimento técnico com capacidade de gestão institucional. Dominar a contabilidade, o direito, a elaboração de projetos ou a execução de atividades sociais não significa, automaticamente, estar preparado para conduzir uma organização.
Uma instituição precisa de pessoas capazes de compreender sua missão, administrar recursos, mobilizar equipes, construir parcerias, desenvolver estratégias e garantir sustentabilidade. O compromisso com a causa é fundamental, mas não substitui a competência gerencial. A boa gestão exige conhecimentos técnicos, administrativos, humanos e estratégicos trabalhando de maneira integrada.
Antes de promover, prepare e avalie
A promoção de um profissional para uma função de liderança deveria ser precedida de uma avaliação mais ampla. É necessário identificar não apenas o que ele sabe fazer, mas também sua capacidade de:
• Trabalhar em equipe e construir relacionamentos.
• Comunicar-se de maneira clara e respeitosa.
• Resolver conflitos e administrar diferenças.
• Delegar e acompanhar responsabilidades.
• Tomar decisões considerando os objetivos institucionais.
• Desenvolver pessoas e compartilhar conhecimentos.
• Compreender a organização além dos limites de sua especialidade.
Além disso, as organizações precisam investir em programas de desenvolvimento de lideranças, preparando profissionais antes de colocá-los diante dos desafios de uma equipe. Promover sem preparar é transferir uma responsabilidade para alguém que talvez ainda não esteja pronto para assumi-la.
Uma reflexão necessária para dirigentes e gestores
Uma organização não cresce simplesmente porque reúne profissionais tecnicamente excelentes. Ela cresce quando consegue integrar competências, estabelecer objetivos, desenvolver pessoas e transformar conhecimento em resultados.
O melhor técnico pode ser um excelente líder, desde que também possua ou desenvolva as competências necessárias para liderar. O problema não está em promover bons profissionais. Está em presumir que o desempenho individual seja suficiente para garantir o sucesso na gestão de pessoas. A competência técnica faz o profissional se destacar. A competência gerencial permite que ele faça uma equipe se destacar. Talvez esteja na hora de revermos nossos critérios de promoção.
Em vez de perguntar apenas quem é o melhor profissional da área, precisamos perguntar: Quem está preparado para assumir a responsabilidade pelo desenvolvimento das pessoas e pelos resultados do conjunto?
Afinal, uma organização não precisa apenas de excelentes executores. Precisa de líderes capazes de multiplicar competências, construir confiança e produzir resultados coletivos. Promover o melhor técnico pode ser uma boa decisão. Promovê-lo sem avaliar sua capacidade de liderança pode custar muito caro.
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O autor: Eliézer Veloso Gomes é administrador, consultor para governos municipais, empresas privadas e Terceiro Setor, professor universitário, palestrante, ex-funcionário do Banco do Brasil (33 anos), ex-coordenador dos cursos de administração, ciências contábeis e engenharia da produção; proprietário da EVG Cursos, Palestras e Workshops; e atualmente Vice-Presidente da Confederação Brasileira das Organizações da Sociedade Civil de Interesse Público.
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