06/07/2020
As experiências de Elifhas Levi
Necromancia / de Apolônio de Thyana
Na primavera do ano 1854, eu tinha ido a Londres para escapar de desgostos íntimos e entregar-me, sem distração, à ciência. Tinha cartas de recomendação para pessoas eminentes e curiosos de revelações do mundo sobrenatural. Vi muitos deles, e achava neles, com muita polidez, um grande fundo de indiferença ou leviandade. Pediam-me primeiramente prodígios como a um charlatão, Estava um pouco desanimado, porque, para dizer a verdade, longe de estar disposto a iniciar os outros nos mistérios da magia cerimonial, sempre temi para mim mesmo as suas ilusões e fadigas; aliás, estas cerimônias exigem um material dispendioso e difícil de adquirir. Encerrava-me, pois, no estudo da alta Cabala, e não pensava mais nos adeptos ingleses, quando um dia, ao entrar no meu hotel, encontrei um sobrescrito com meu endereço. Este sobrescrito continha a metade de um cartão,cortado transversalmente, e no qual reconheci primeiramente o caráter do selo de Salomão e um papel muito pequeno no qual estava escrito a lápis: “Amanhã, às três horas, diante da abadia de Westminster, vos será apresentada a outra metade deste cartão”. Fui a essa singular entrevista. Uma carruagem estacionava na praça. Tinha, sem afetação, o meu pedaço de cartão na mão; um criado aproximou-se de mim e me fez sinal, abrindo a portinhola da carruagem, na qual vi uma senhora de
preto, cujo chapéu estava coberto com um véu muito espesso; ela fez sinal de subir junto a si, mostrando-me a outra metade do cartão que tinha recebido. A portinhola fechou-se, a carruagem rodou e a senhora, tendo levantado o seu véu, pude ver que tratava com uma pessoa idosa, com sobrancelhas cinzentas e olhos pretos, extremamente vivos e de uma fixidez estranha.- Senhor – disse-me ela, com um acento inglês muito pronunciado – sei que a lei do segredo é rigorosa entre os adeptos; uma amiga de Sir B*** L***, que vos viu, sabe que vos pediram
experiências e que recusastes satisfazer esta curiosidade. Talvez não tínheis as coisas necessárias: vou mostrar-vos um gabinete mágico completo; mas vos peço, antes de tudo, o mais inviolável segredo. Se não me fizerdes esta promessa pela vossa honra, vou dar ordem para que vos levem à vossa casa.Fiz a promessa que exigiam de mim e sou fiel a ela, não dizendo o nome, nem a qualidade, nem a
residência desta senhora, que reconheci logo como iniciada, não precisamente de primeira ordem, mas de um grau muito elevado. Tivermos diversas conversações extensas, durante as quais ela sempre insistia sobre a necessidade das práticas para completar a iniciação. Mostrou-me uma coleção de vestimentas e instrumentos mágicos, e até me emprestou alguns livros curiosos que me faltavam; em breve, me determinou a tentar na sua casa a experiência de uma evocação completa, à qual me preparava durante vinte e um dias, observando escrupulosamente as práticas indicadas no trigésimo capítulo do Ritual.Tudo estava terminado em 24 de julho. Tratava-se de evocar o fantasma do divino Apolônio e interrogá-lo sobre dois segredos: um que se referia a mim, outro que interessava àquela senhora. A
princípio ela contava assistir à evocação com uma pessoa de confiança; mas, no último momento, essa pessoa teve medo e, como o ternário ou a unidade é rigorosamente exigido para os ritos mágicos, fiquei só. O gabinete preparado para a evocação era feito numa pequena torre: nele tinham sido dispostos quatro espelhos côncavos, uma espécie de altar, cuja parte de cima era de mármore branco e estava rodeada por uma corrente de ferro imantado. No mármore branco, estava gravado o
dourado o signo do pentagrama, tal como se acha representado no quinto capítulo destra obra; e o mesmo signo estava traçado, em diversas cores, numa pele de carneiro, branca e nova, que estava estendida no altar. No centro da mesa de mármore, havia um pequeno fogareiro de cobre com carvão de pau de aulno e loureiro; um outro fogareiro estava colocado, diante de mim, sobre uma
trípode. Eu estava vestido com uma roupa branca muito semelhante às vestimentas dos padres católicos, porém mais ampla e mais longa, e trazia na cabeça uma coroa de folhas de verbena, entrelaçadas numa cadeia de ouro. Numa das mãos, tinha uma espada nova e na outra o Ritual. Acendi os dois fogos com as substâncias exigidas e preparadas, e começava, primeiramente em voz
baixa, depois elevando a voz gradativamente, as invocações do Ritual. A fumaça estendeu-se, a chama fez vacilar todos os objetos que alumiava, depois se extinguiu. A fumaça se elevava, branca elenta, sobre o altar de mármore; pareceu-me ouvir um abalo de estremecimento de terra, os meus ouvidos zumbiam e meu coração palpitava com força. Pus alguns ramos e perfumes nos fogareiros, e quando a chama se elevou, vi distintamente, diante do altar, uma figura de homem maior que o
natural, que se decompunha e se esvaía. Recomecei as evocações e coloquei-me num círculo que tinha traçado antecedentemente entre o altar e a trípode: vi, então, alumiar-se, pouco a pouco, o fundo do espelho que estava na minha frente, atrás do altar, e uma forma esbranquiçada desenhou-se nele, crescendo e parecendo aproximar-se pouco a pouco. Chamei três vezes Apolônio, fechando os
olhos; e, quando os abri, um homem estava diante de mim, envolto inteiramente por uma espécie de lençol, que me pareceu ser mais cinzento do que branco; a sua forma era magra, triste e sem barba, o que não combinava exatamente com a idéia que primeiramente tinha de Apolônio. Experimentei uma sensação extraordinária de frio, e, quando abri a boca para interrogar o fantasma, me foi impossível articular um som. Pus, então, a mão sobre o signo do pentagrama, e dirigi para ele a
ponta da espada, ordenando-lhe mentalmente, por este signo, a não me amedrontar e a obedecer-me. Então, a forma ficou mais confusa, e ele desapareceu imediatamente. Ordenei-lhe que voltasse: então senti passar, junto a mim, como que um sopro, e, alguma coisa tendo-me tocado na mão que segurava a espada, tive imediatamente o braço adormecido até os ombros. Julguei entender que esta
espada ofendia o espírito, e a plantei, pela ponta, no círculo junto a mim. A figura humana reapareceu logo; mas senti uma tão grande fraqueza nos meus ombros e um repentino desfalecimento apoderar-se de mim, que dei dois passos para me assentar. Desde que fiquei assentado, caí num adormecimento profundo e acompanhado de sonhos, de que me restou, quando voltei a mim, somente uma lembrança confusa e vaga. Tive, durante muitos dias, o braço adormecido e dolorido. A forma não me tinha falado, mas pareceu-me que as perguntas que lhe
tinha de fazer se tinham resolvido por si mesmas no meu espírito. À da senhora, uma voz interior respondia em mim: Morto! (tratava-se de um homem de quem desejava saber notícias). Quanto a mim, queria saber se a reconciliação e o perdão seriam possíveis entre duas pessoas nas quais pensava, e o esmo eco interior respondia implacavelmente: Mortas!Conto, aqui, os fatos tais como se passaram, e não os imponho a ninguém. O efeito desta experiência em mim foi alguma coisa inexplicável. Não era mais o mesmo homem, alguma coisa de
outro mundo tinha passado em mim; não estava mais nem alegre, nem triste, mas sentia uma singular atração para a morte, sem, todavia, ser, de algum modo, tentado a recorrer ao suicídio. Analisei cuidadosamente o que tinha experimentado; e, apesar de uma repugnância nervosa muito vivamente sentida, retirei duas vezes, somente com alguns dias de intervalo, a mesma experiência.
A narração dos fenômenos que se produziram difere muito pouco para que a deva acrescentar a esta, já um pouco extensa. Mas o resultado destas duas outras evocações foi para mim a revelação de dois segredos cabalísticos, que poderiam, se fossem conhecidos por todo mundo, mudar, em pouco tempo, as bases e leis da sociedade inteira.Concluirei disto que, realmente, evoquei, vi e toquei o grande Apolônio de Thyana? Não sou tão alucinado para o crer, nem tampouco sério para o afirmar. O efeito das preparações, dos perfumes, dos espelhos, dos pantáculos é um verdadeiro embebedamento da imaginação, que deve agir vivamente sobre uma pessoa já impressionável e nervosa. Não explico por que leis fisiológicas vi e
toquei; afirmo somente que vi e toquei, que vi, clara e distintamente, sem ilusões, e isso é suficiente para crer na eficácia real das cerimônias mágicas. Aliás, creio perigosa e nociva a sua prática; a saúde, quer moral, quer física, não resistiria a semelhantes operações, se tornassem habituais. A senhora idosa de que falei, e de que tive de me queixar depois, era uma prova disso; porque, apesar das suas denegações, não duvido que tivesse o hábito da necromancia e de goecia. Às vezes, ela delirava completamente; outras vezes, se entregava à cóleras insensatas, de que, com dificuldade, explicava a causa. Deixei Londres sem a ter visto de novo, e guardei fielmente a promessa que fiz de nada dizer a quem quer que possa fazê-la conhecer ou até dar alarma sobre as práticas às quais se entrega, sem dúvida, sem conhecimento da sua família, que é como suponho, muito numerosa e de uma posição muito honrosa.