10/12/2021
O que pensar de 2022?
Nas conversas com os colegas de diversos setores, é inevitável comentarmos sobre como será 2022. Claro que com certeza ninguém tem o dom de prever o futuro, mais ainda num cenário tão complicado como o atual. Então de que valem as especulações, as leituras dos editais dos jornais e de todos os meios de comunicação?
As principais questões são citadas e comentadas quase diariamente dos noticiários mais abrangentes dos meios de comunicação aos relatórios privados de investidores. As novas variantes do Covid-19 e seus possíveis impactos, a variação dos preços globais das commodities, a flutuação do câmbio, a inflação que parece que também se tornou global, a tendência de estabilização da principal economia do mundo, a falta de semicondutores, os custos e a falta de disponibilidade de transportes e logística global, desânimo da bolsa, os juros já quase estratosféricos e o impacto das eleições presidenciais para o Brasil fazem parte de um caldo grosso de preocupações.
Mas no que mais podemos prestar atenção para estarmos mais preparados para os desafios de 2022? Listei alguns pontos das minhas percepções e imaginações que talvez possam ser úteis:
- Assimetrias: Percebemos com a pandemia do Covid-19 que o mesmo mal causa distintos sofrimentos aos diversos setores de atividade. Em 2020 e 2021 alguns setores (e não são poucos) tiveram o que chamei de “dividendos da pandemia”. As medidas de combate, as demandas de produtos voltados ao combate da doença, a mudança de hábitos de consumo e comportamentos, a digitalização dos processos e outras mudanças criaram oportunidades importantes enquanto alguns setores foram impedidos de seguir com suas atividades. É possível que haja um troca de posições entre os setores afetados e beneficiados até agora pela pandemia...
- Ciclos dos negócios: Alguns negócios quase não sofreram paralização ou redução com o início da pandemia e seguiram um curso positivo enquanto outros demoraram para retornar aos negócios. Os ciclos não foram coincidentes no início da pandemia e agora estamos observando alguns setores começando a sentir um declínio enquanto os “late starters” começam a ver dias melhores. De que lado do ciclo está o seu setor? Pode ser o fator determinante para os seus negócios em 2022. O efeito do ciclo econômico pode ser um fator menos relevante do que o ciclo do próprio setor.
- Transformação digital: Por conta da predominância de “setores de tecnologia” e “e-commerce” nos noticiários e comentários, muitos tem a impressão de que estes são os setores em que a transformação digital é importante. Mas na realidade a transformação digital é muito ampla e para todos os negócios, a operação e o controle dos processos necessitam ser mais rápidos, mais precisos e capazes de prover informações e rastreamento como parte dos serviços. Estes fatores determinarão a competitividade em quase todos os setores, não importando o porte da empresa.
- Trabalho remoto: Nem todas as empresas adotaram ou puderam adotar o trabalho remoto durante a pandemia. A maioria destas empresas administrou a natureza da atividade com os chamados protocolos sanitários. Nestes setores não há qualquer dilema de retorno às atividades presenciais. No entanto, nos escritórios de grandes empresas o clamor é para não retornar mais ao trabalho presencial. Imagino que não seja esta a ideia da maioria das empresas do mundo real. Mas terão que enfrentar esta discussão e com o tempo poderão reduzir a dependência através da Transformação Digital e da Inteligência Artificial. No passado falamos muito da “robotização das fábricas” e agora parece ser a vez da “robotização dos processos administrativos”, ao qual precisamos estar atentos para entender o impacto nos empregos.
- Notícias: A fragmentação da comunicação é um dos fenômenos que mais nos confunde nestes dias. Além dos famigerados “Fake News”, as notícias dos meios de comunicação se tornaram muitas vezes verdades pontuais e outras vezes falsas generalizações representando alguma verdade e alguma falsidade simultaneamente. Apesar do trabalho para se distinguir os fatos será ainda mais importante ater-se às fontes mais confiáveis e usar a percepção pessoal como um filtro adicional para a tomada de decisões. É perigosa a sensação de que as crenças extremas permitem enxergar melhor os fatos ou propiciam visões de segredos inacessíveis aos outros.
- Política: Quem poderia esquecer-se de que 2022 será um ano de eleição presidencial de extremos de crenças dogmáticas e um centro convergente de frustrações e desapontamentos. Até a data tudo parece possível entre os dois extremos e nada parece viável ao centro, mas ainda estamos distantes da decisão. Possivelmente, usar de moderação na previsão e usar de abundância na prevenção será mais recomendável.
- Inflação: Como um avião em cruzeiro, o voo pode ser estável, independente da velocidade. A pior fase da inflação é o período de variação da velocidade, da decolagem e do pouso. Há mais riscos enquanto sobe e enquanto desce. Melhor cultivar ajustes rápidos do que alimentar esperanças. Relembrando a simplicidade de épocas anteriores à correção monetária, estoques podem ter seus valores atualizados, mas moedas não. Vale lembrar que é o jogo do tempo contra o valor na distribuição dos custos da pandemia e das medidas políticas.
- ESG: O novo “bundling” da moda põe foco em 03 assuntos existentes há décadas: o impacto ao meio ambiente, o papel social das organizações e o desenvolvimento da governança por empresas cada vez mais responsáveis. Temas válidos e abordagem mais equilibrada, incorporando o aprendizado que vai ocorrendo a cada dia. Nenhuma dúvida de que são assuntos essenciais para o futuro das empresas e da sociedade, mas como sempre, vale considerar quem ganha e quem paga a conta neste movimento.
- O mundo real: O mundo real vive de produção e distribuição global. Uma quebra momentânea e uma nova acomodação da demanda e da produção expôs deficiências e ineficiências globais desapercebidas até então. Houve mudanças fundamentais nas cadeias do mundo real, com o uso das tecnologias virtuais, mas em muitos setores o avanço foi na gestão enquanto os bens e produtos continuam tendo a mesma fonte, o mesmo transporte e o mesmo destino. O caminho pode ser a redistribuição da produção e da demanda que altere significativamente o meio empregado para atender as necessidades.
- Comportamentos sociais: São os indicadores que apontam e antecipam as maiores mudanças em outros setores. Quando os dados e os fatos não dão clareza sobre o futuro, a atenta observação das mudanças no comportamento social pode propiciar indicações importantes. O comportamento social interage com os interesses setoriais ao mesmo tempo influenciando e sofrendo influências. Um exemplo destas mudanças pode ser a demissão pelo Zoom, que seria um absurdo em outros tempos, mas não seria quase natural num ambiente de trabalho remoto e virtual?
Enfim, creio que temos adiante um ano de muitas incertezas, até mesmo para as empresas e para os setores que atravessaram 2020 e 2021 com inesperado crescimento e evolução dos seus resultados. Da mesma forma, pode ser um tempo de novos alentos para os que sofreram mais com a pandemia. Para ambos os grupos, certamente o novo ano poderá ter um sabor de mudança de ciclo, geralmente agridoce...
Vale lembrar aos crentes e descrentes que 2022 será o ano do Tigre no horóscopo chinês, que também promete um ano de muitas mudanças, muita energia e recuperações. Mas tenha calma, pois o novo ano chinês só começa no dia primeiro de fevereiro de 2022...
Yoshio Kawakami
10.12.2021