11/07/2026
É mesmo uma nova cultural organizacional ou é apenas mais um modismo gerencial?
A expressão “cultura organizacional” tornou-se um dos termos mais repetidos no mundo corporativo. Quase toda decisão passa a ser justificada em seu nome:
— “Aqui é da nossa cultura.”
— “Nossa cultura é de alta performance.”
— “Isso não combina com a cultura da empresa.”
Mas será que estamos falando realmente de cultura?
Na Antropologia, cultura não nasce de uma reunião de diretoria nem de um manual distribuído no onboarding. Ela é construída lentamente, por experiências compartilhadas, valores incorporados e comportamentos repetidos durante anos — às vezes décadas. Não muda ao sabor da última tendência de gestão.
Nas organizações acontece algo semelhante. Existem práticas que sobrevivem à troca de presidentes, diretores e gerentes. Elas atravessam gerações de empregados porque fazem sentido para aquele grupo. Isso, sim, se aproxima do conceito de cultura.
O problema começa quando qualquer hábito passa a receber esse rótulo.
Almoçar na mesa é cultura? Fazer hora extra é cultura? Trabalhar até tarde é cultura? Ou são apenas costumes que surgiram em determinado contexto e acabaram sendo naturalizados?
Confundir hábitos com cultura pode ser perigoso. Afinal, nem toda prática repetida merece ser preservada apenas porque “sempre foi assim”.
Como empregado, vivi situações em que percebi claramente a cultura predominante da organização. Não concordava com tudo, mas também sabia que dificilmente conseguiria modificá-la sozinho. Em vez de tentar mudar a empresa, mudei-me a mim: procurei outra organização cujos valores estivessem mais próximos dos meus.
Essa experiência me ensinou uma lição importante.
Cultura organizacional existe. E existe de verdade.
Mas justamente por existir, ela não pode servir de argumento para justificar qualquer comportamento ou qualquer exigência. Cultura não é um salvo-conduto para transformar preferência gerencial em obrigação moral.
Talvez a melhor pergunta não seja se a empresa tem cultura.
Toda organização tem.
A pergunta correta é: a cultura que ela construiu ainda merece ser preservada?