Coronel Traduções

Coronel Traduções A nossa matéria-prima é a palavra.

11/06/2024

AVANTI
Se te prostrarem dez vezes, levanta-te
outras dez, outras cem, outras quinhentas,
não hão de ser tuas quedas tão violentas,
nem tampouco, por lei, hão de ser tantas.

Com a fome genial com que as plantas
assimilam o húmus avarentas,
Deglutindo o rancor das afrontas
Formaram-se santos e santas.

Obsessão quase muar, para ser forte,
Nada mais necessita a criatura,
E em qualquer infeliz, parece-me
Debilitam-se as garras da sorte...

Todos os incuráveis têm a sua cura
cinco segundos antes da sua morte!

Não te dês por vencido, nem mesmo vencido,
não te sintas escravo, nem mesmo escravo,
Trêmulo de pavor, imagina-te bravo,
e arremete feroz, já mal ferido.

Tem a firmeza do prego enferrujado
que já velho e ruim volta a ser prego,
não a covarde intrepidez do pavão
que recolhe a sua plumagem ao primeiro ruído.

Procede como Deus que nunca chora,
ou como Lúcifer que nunca reza,
ou como o carvalhal cuja grandeza
necessita da água e não a implora

Que morda e vocifere vingadora
Já rodando no pó, tua cabeça!“

In: Lamentaciones, Edição do Autor, 1911. Pedro Bonifacio Palacios (1854 - 1917).
A tradução é minha.

08/06/2024

Malditos tempos modernos
Onde os filhos decidem
Se respeitam ou não respeitam seu pai.

Malditos tempos modernos
Onde sinônimo de homem
É a beleza do mancebo efeminado

Malditos tempos modernos
Onde dizer "O mundo é dos espertos"
É bem melhor do que ser honesto.

Malditos tempos modernos
Onde sinônimo de família
É a vagabundagem do boteco.

Malditos tempos modernos
Onde a donzela requebra nua
Mas se encostar é crime de assédio.

Malditos tempos modernos
Onde p**a vira socióloga
E cafetão prestador de serviços.

Malditos, e belos, e tristes
Tempos modernos.
Onde há mil amigos na rede social
Mas ninguém por perto na hora da morte.

Zen - jun-2016

Bom dia.

30/04/2024

.
Aos meus amigos que se foram antes
Devo-lhes a ternura, as palavras de força.
Devo-lhes a paciência de tolerar
Os meus tormentos mais agudos
As minhas vaidades, os meus temores
e as minhas dúvidas.

Choro, por não ter podido agradecer!

Aos meus amigos que ainda estão por aqui,
Deixarei quando eu morrer,
A minha devoção numa nota de violão,
E entre os versos esquecidos de um poema
Talhados à unha na velha mesa de um bar,
A minha pobre alma de pardal sentimental.

Zen - lá por 1998 e alguma coisa

10/04/2024

"O outono é uma segunda primavera onde cada folha é uma flor".
- Albert Camus

18/03/2024

UM DIA, QUEM SABE UM DIA

Quem sabe algum dia
Deixarão de pagar vinte pila
por um dia de labuta
Lá no meio da roça
Sob sol quente
Sangrando as mãos
de tanto colher mandioca,
E o maioral dizendo
"Vai à luta!".

Quem sabe um dia
A menina pobre, sem esperança
perderá a necessidade
de lavar roupa dos outros,
ou virar carne noturna, p**a
Para pagar o sonho da faculdade
Ó, amarga cicuta!

Quem sabe um dia
O pobre deixará de ser o Zé
E o rico o nobre doutor.
O homem não será explorado
Por outro homem explorador

Quem sabe um dia
Toda essa dor
Torne-se riso e alegria
seremos iguais perante a Justiça
Como o somos perante Deus?

Zen - Março 2016

06/03/2024

E ENTÃO, QUE QUEREIS?

Fiz ranger as folhas de jornal
Abrindo-lhes as pálpebras piscantes.
E logo
De cada fronteira distante
Subiu um cheiro de pólvora
Perseguindo-me até em casa.
Nestes últimos vinte anos
Nada de novo há
No rugir das tempestades
Não estamos alegres,
É certo,
Mas também por que razão
Haveríamos de ficar tristes?
O mar da história
É agitado.
As ameaças e as guerras
Havemos de atravessá-las.
Rompê-las ao meio,
Cortando-as
Como uma quilha corta
As ondas.

- Vladimir Maiakovski, 1927

18/02/2024

A ARTE DE FAZER POESIA

Por um desses acasos achei a melhor forma de se fazer poesia - e sangrar as minhas velhas e tantas dores - escrita na porta de um banheiro sujo, num posto de gasolina de beira de estrada.

Para fazer belos poemas coloque-se álcool na mistura, generosa e assiduamente. Amalgame-se com sanduíches de pão duro, bolachinhas de água e sal amanhecidas, mortadela velha e muita margarina barata com data de validade oficialmente vencida.

Estipule-se a quantidade necessária para enganar a sua fome.
Coloque-se também na gororoba quantidade abundante de amores natimortos, inúmeros dissabores, humilhações, fome, desespero, uma pitada de saudade do lar que alguma vez o acolheu, rebeldia, solidão, gritos sufocados, medo paralisante, palavras cortantes, o desprezo tão profundo recebido, chinelo de dedo gastado, e um sorriso meia boca, estilo Humphrey Bogart à beira da morte.

Para que a mistura possua a liga necessária, o álcool e demais ingredientes deverão ser todos de bar sem nenhuma nobreza, condição sine qua non para um ótimo resultado.

Liquidifique-se.

Tempere-se com cu de b***o, vulgar mistura de sal e limão, e mais amanheceres com nevoeiro, mar agitado, sóis vermelhos, batalhões de afogados e p**as virgens da avenida.

Filtre-se.

Beba-se quente, em ponto de ebulição, e em garrafa pet de dois litros, devagar e sempre.

Regurgite-se.

E depois, publique-se.

Zen - fev- 2016

17/02/2024

"Si fuéramos capaces de unirnos, qué hermoso y que cercano seria el futuro"
- Ernesto Guevara de la Serna

29/01/2024

.
Não há poesia, apenas um bando de néscios apaixonados e malditos poetas.
Não há amor, apenas o olho idiotizado, plasmado numa câmera de celular.

Um domingo qualquer perto do shopping.
Percebia-se um dia normal.
Desfile de egocentrismo, diarreia geral de perfumes caros.

Passava o velho mendigo, carregando seus anos numa s**ola velha.
Ao lado um cão sarnento, o último dos amigos que ainda ficara.
Amizade pura, sem interesse, só a sarna para coçar um do outro.

Daria uma ajuda, pelo amor de Deus?

Deus não existe, diria Nietzche. Some, desaparece. O meu perfume francês se esvai nesse teu mau cheiro.

Uma ajuda, pelo amor de Deus?

E o velho se dobrava a cada passo pelo peso do infortúnio nas suas costas.
Estou com fome... Pode me ajudar?

Morra, desgraçado! Respondeu ela, com silicone até nos olhos.

De repente a porta de uma casa se abriu, e em silêncio alguém colocou comida e água fresca para os dois amigos caídos em desgraça.

Que Deus lhe pague!
Ele não paga, amigo.
Ele empresta.

Zen - 2020

20/01/2024

"Aprende muito, mas aprende também a duvidar do que aprendeste."
- Meu saudoso pai, quando eu contei que a professora tinha dito que os índios guaranis comiam criancinhas.

Muitos dizem que o latim e o aramaico são línguas mortas.
Balela pura.

Há muitos anos atrás, quando na Síria ainda não se matava gente nem se comiam o coração das pessoas ditas inimigas, alguns linguistas da Universidade Nacional de Síria descobriram que o aramaico era utilizado na sua forma original numa aldeia a 50 km de Damasco, a capital. Assim, igualzinho o Cristo falava.

Após algum tempo, decidiram criar um BBS (Bulletin Board Service) e compartilhar a informação com quem quisesse saber mais.
Curioso, me inscrevi. Mais para saber se o que tinha sido traduzido dos Evangelhos Apócrifos do Mar Morto era realmente aquilo tudo.
A internet ainda engatinhava, e não era pública e de livre acesso como hoje.

O primeiro que descobri foi que o tronco linguístico Tupi-Guarani possui centenas de palavras com significado exatamente igual ao aramaico.
Coincidência?
Não.
Isso confirma a teoria de que os fenícios já tinham caminhado por aqui centenas de anos antes que os ditos indômitos navegantes que singraram mares nunca dantes navegados.
Podia dormir sem isso, ficaria mais tranquilo e dormiria até mais tarde, não é mesmo?

P.S.: Caso exista alguém com vontade de encher meu s**o e questionar a publicação, eis aqui a fonte:
- Diodorus Siculus, nos capítulos 19 e 20 do quinto livro da sua "Biblioteca Histórica", faz uma descrição minuciosa sobre a primeira viagem dos fenícios em direção ao Brasil.

Diodorus Siculus nasceu em Agyrium, Sicília, e viveu entre os anos 90 a 21 A.C.

Foi contemporâneo de Julio César, e escreveu uma história universal composta por 40 volumes, dos quais ainda restam 15.
Obviamente, os escritos estão em latim, mas entende-se bem. Há uma transcrição disponível e algumas fotografias na internet. Quem procura, com certeza acha.

- O filósofo Sêneca, que morreu no ano 64 D.C., escreveu:
"Nós, romanos, sabemos que existe um país fértil além do oceano e que também lá nasce outro orbe, pois a natureza das coisas em parte alguma desaparece."

Dito isto, vou me recolher. Hoje estou notadamente falto de humor.

** Publicado em 2022.-

13/01/2024

E então um belo dia você acorda, e não acredita mais nas velhas e clássicas mentiras, incluindo as suas próprias.
Esse dia começa a sua mudança. Muitos dirão que você não se encaixa no entorno social; outros dirão que você é politicamente incorreto.
Tentarão mudá-lo, de todas as formas possíveis, mas em vão: há certas coisas que não têm mais retorno.

Zen - jan/2017

30/12/2023

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Por um desses acasos achei a melhor forma de fazer poesia e sangrar - as minhas velhas e tantas dores - escrita na porta de um banheiro sujo de beira de estrada.

Para fazer belos poemas coloque-se álcool na mistura, generosa e assiduamente. Amalgame-se com sanduíches de pão duro e amanhecido, mortadela velha e muita banha de porco. Na quantidade necessária para enganar a sua fome.

Coloque-se também na gororoba quantidade abundante de amores natimortos, inúmeros dissabores, humilhações, fome, desespero, uma pitada de saudade do lar que alguma vez o acolheu, rebeldia, solidão, gritos sufocados, medo paralisante, palavras cortantes, o desprezo tão profundo recebido, chinelo de dedo gastado, e um sorriso de meia boca, à Humphrey Bogart, no papel daquele condenado a morte que esperava o perdão no minuto derradeiro.

Para que a mistura possua a liga necessária, o álcool e demais ingredientes deverão ser todos de bar sem nobreza, condição Sine Qua Non para um bom resultado.

Liquidifique-se.

Tempere-se com cu de b***o, vulgar mistura de sal e limão, e mais amanheceres com nevoeiro, mar agitado, sóis vermelhos, batalhões de afogados e p**as virgens da avenida.

Filtre-se.

Beba-se quente, em ponto de ebulição, e em garrafa pet de dois litros, devagar e sempre.

Regurgite-se.

Publique-se.

Zen. 30/Dez/2014.

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