20/01/2026
*À sombra da amendoeira*
A amendoeira nunca me explicou nada.
E talvez por isso eu volte sempre a ela quando as perguntas ficam grandes demais.
Outro dia, cheguei cedo. O sol ainda brincava de esconde-esconde entre as folhas, e a sombra era fresca, dessas que parecem convite. Sentei. E, como sempre, os porquês chegaram antes de qualquer resposta.
Por que eu faço o que faço?
Por que insisto?
Por que continuo?
A amendoeira estava lá, firme, do mesmo jeito de sempre. Forte sem arrogância. Generosa sem alarde. Espalhando uma sombra bonita, dessas que não cobram nada em troca.
Lembrei de um amigo que, certa vez, olhou para ela com cara de quem desconfia da vida:
— Isso não é amendoeira.
— É sim.
— Claro que não, não dá amendoim!
Rimos. Rimos porque a vida também adora esses enganos bobos. Chamamos coisas pelo nome errado, esperamos frutos que não são dali, julgamos a árvore sem conhecer suas raízes.
A amendoeira dá amêndoas. E amêndoas não são amendoins.
E está tudo bem.
Nem tudo precisa ser o que a gente espera para ser exatamente o que é.
Fiquei observando os frutos no chão. Duros, simples, quase sem graça à primeira mordida. Mas cheios de possibilidades. Com o tempo certo, viram sabor, viram perfume, viram memória. Quase tudo que presta precisa ser processado, maturado, atravessado pelo tempo.
Às vezes a gente foge da sombra. Quer mais sol, mais pressa, mais resposta. Outras vezes corre de volta pra ela, buscando silêncio, descanso, sentido. A amendoeira não julga. Ela entende.
O vento passa, a maré sobe, a maré desce. Amigos vão. Outros chegam. Alguns deixam saudade, outros deixam aprendizado. E a pergunta reaparece, insistente como folha caindo:
por que continuar?
Talvez continuar seja isso:
criar raízes profundas o suficiente para suportar as perdas,
abrir galhos largos o bastante para oferecer sombra,
aceitar que os frutos nem sempre serão doces de imediato.
Levantei. O sol já estava mais forte. Dei alguns passos para fora da sombra. Precisava de luz também. Olhei pra trás. A amendoeira continuava ali, do mesmo jeito, sem respostas, mas cheia de sentido.
E entendi, do meu jeito torto e provisório, que continuar não é sobre saber tudo.
É sobre estar.
É sobre ser árvore quando der, e viajante quando precisar.
É sobre, quem sabe um dia, alguém sentar à nossa sombra e não ir embora do mesmo jeito que chegou.
Márcio Cerbella 20/01/2026
Outro dia, cheguei cedo. O sol ainda brincava de esconde-esconde entre as folhas, e a sombra era fresca, dessas que parecem convite. Sentei. E, como sempre, os porquês chegaram antes de qualquer resposta.