27/08/2026
Da resiliência das crises à dignidade da energia: O paradoxo brasileiro
A história do nosso compromisso com o setor solar foi forjada no coração das maiores provações. Em 2010, após o terremoto devastador no Haiti, a sobrevivência organizava-se em torno de necessidades vitais: recarregar um telefone para contactar os entes queridos, iluminar para afastar a escuridão, alimentar uma máquina para eliminar bactérias e preservar o mínimo de frescor em um refrigerador para conservar alimentos.
Nesses momentos de caos, a energia era o primeiro passo para a reconstrução. Um ano após a passagem do furacão de 2017 na Dominica, vi como essas pequenas luzes na noite, mesmo em meio a lonas e casas feridas, conseguiam devolver a vida, a alegria e a esperança.
No entanto, ao chegar a Macapá, no Amapá, a realidade revelou-se igualmente crítica de outra forma. Além dos grandes apagões que marcam a memória, é um apagão silencioso e diário que atinge milhões de lares há anos: a pobreza energética ligada a faturas exorbitantes.
Hoje, muitas famílias enfrentam uma escolha impossível entre se alimentar ou pagar a conta de luz. Há lares que já não ousam ligar um refrigerador, fazer funcionar um ventilador ou manter uma iluminação acesa por muito tempo. É toda uma vida social e económica que se encontra sufocada, privada dessa capacidade essencial de projetar-se no futuro.
A maior ironia reside nesse contraste marcante: o Brasil impõe-se como um gigante da produção de energia solar e do desenvolvimento de parques fotovoltaicos. A abundância está aí, mas ainda não chega à porta de todos.
Devolver o acesso a uma energia limpa, acessível e de qualidade não é apenas uma questão técnica; é uma urgência humana para que a luz da transição energética finalmente ilumine todos os lares esquecidos.