29/01/2026
www.digitallemedia.com.br/anterosimoes
www.digitalleservice.com.br
CRESCIMENTO SEM TRANSFORMAÇÃO: AS FRAGILIDADES ESTRUTURAIS DO MODELO ZONA FRANCA DE MANAUS NO CONTEXTO CONTEMPORÂNEO
“Acumular riqueza não é deixar de gastar dinheiro ou investir, mas estimular um gasto produtivo eu gera mais renda”.
John Maynard Keynes (1883-1946). “A Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda” (1936).
Por: Antero Simões RI, em 29.01.2026.
O Crescimento Econômico refere-se ao aumento quantitativo da produção e da renda de uma economia ao longo do tempo. O Desenvolvimento Econômico é um conceito mais amplo e qualitativo, que envolve transformações estruturais, sociais, tecnológicas e institucionais.
A Zona Franca de Manaus (ZFM) constitui-se, historicamente, como um dos principais instrumentos de Política Industrial e de Desenvolvimento Regional do Brasil, tendo desempenhado, ao longo de mais de cinco décadas, papel relevante na interiorização da atividade produtiva e na geração de emprego na Região Norte. No entanto, apesar de sua importância institucional e econômica, evidências recentes indicam que o modelo apresenta limitações estruturais significativas, revelando dificuldades de adaptação aos grandes desafios contemporâneos relacionados à Sustentabilidade Econômica, Ambiental e Social, à Transição Climática e à Transformação Produtiva Global, implicando em perda de Competitividade.
Do ponto de vista econômico, embora o Polo Industrial de Manaus (PIM) tenha apresentado crescimento do faturamento e das exportações nos últimos anos, conforme dados da SUFRAMA e do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), esse desempenho não tem sido acompanhado por uma evolução qualitativa do padrão produtivo. A estrutura industrial permanece fortemente concentrada em atividades de montagem e manufatura de baixo valor agregado, com elevada dependência de insumos importados. Como consequência, observa-se um persistente desequilíbrio entre exportações e importações, resultando em limitada inserção competitiva nas cadeias globais de valor e reduzido efeito multiplicador sobre a economia regional.
Dados oficiais do MDIC demonstram que, historicamente, o volume de importações do PIM supera significativamente o de exportações, evidenciando a fragilidade da base produtiva local e a dependência externa de componentes, tecnologias e matérias-primas. Ainda que haja expansão pontual das vendas externas, tal crescimento revela-se insuficiente para caracterizar um processo consistente de internacionalização industrial ou de fortalecimento da competitividade estrutural da região.
No que se refere ao mercado de trabalho, informações da SUFRAMA, RAIS e CAGED indicam que a geração de emprego no PIM, embora relevante em termos quantitativos, está predominantemente associada a postos de trabalho de média e baixa qualificação. O modelo produtivo vigente estimula a utilização intensiva de mão de obra relativamente barata, com limitada incorporação de atividades intensivas em Conhecimento, Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação. Esse padrão restringe a formação de Capital Humano avançado, reduz as oportunidades de ascensão profissional e limita o potencial de dinamização tecnológica da economia regional.
Sob a perspectiva ambiental, a ZFM enfrenta desafios ainda mais complexos. Apesar de estar inserida em um dos biomas mais estratégicos do planeta, o modelo industrial vigente permanece pouco integrado às agendas globais de Descarbonização, Economia Circular, Bioeconomia e Transição Ecológica. Dados do IBGE, do Ministério do Meio Ambiente e de organismos internacionais indicam que as pressões associadas às Mudanças Climáticas, aos eventos extremos e à Degradação Ambiental exigem uma reconfiguração profunda dos sistemas produtivos, o que ainda não se reflete de forma estruturada na política industrial da Zona Franca.
A ausência de uma política robusta de Inovação Verde, de estímulo à produção sustentável e de internalização de tecnologias limpas evidencia uma lacuna entre o modelo atual e as exigências do século XXI. Em grande medida, a ZFM continua operando sob uma lógica tributária concebida no contexto desenvolvimentista do século XX, baseada predominantemente em renúncia fiscal, sem contrapartidas suficientemente claras em termos de Inovação, Sustentabilidade e integração regional.
Além disso, os desafios logísticos constituem um entrave estrutural ao fortalecimento da Competitividade do Polo Industrial de Manaus. A dependência do transporte fluvial e aéreo, os elevados custos de escoamento, as limitações de infraestrutura e a distância dos principais centros consumidores e exportadores impõem custos adicionais às empresas instaladas na região. Estudos do IPEA e da Confederação Nacional da Indústria (CNI) apontam que esses fatores reduzem significativamente a eficiência operacional e a capacidade de inserção internacional do PIM.
No plano institucional, observa-se que o modelo da ZFM apresenta baixa capacidade de adaptação às transformações tecnológicas associadas à Indústria 4.0, à digitalização produtiva e à automação avançada. A limitada articulação entre universidades, Centros de Pesquisa, setor produtivo e poder público compromete a formação de Ecossistemas de Inovação capazes de sustentar um processo duradouro de modernização industrial.
Diante desse conjunto de evidências, torna-se possível afirmar que a Zona Franca de Manaus, embora ainda relevante do ponto de vista econômico e social, apresenta sinais claros de esgotamento relativo de seu modelo tradicional. O crescimento observado em indicadores como faturamento e exportações não reflete, necessariamente, um processo efetivo de modernização produtiva, Sustentabilidade Econômica, Social e Ambiental ou fortalecimento da Competitividade Sistêmica.
Nesse contexto, impõe-se a necessidade de uma reforma e, sobretudo, de uma reformulação profunda do modelo vigente, orientada para a construção de uma Zona Franca compatível com os desafios do século XXI. Tal reformulação deve transcender a lógica da renúncia fiscal e incorporar, de forma estruturada, Políticas de Inovação Tecnológica, Qualificação Profissional, Bioeconomia, Economia Circular, Descarbonização Produtiva e integração regional sustentável.
A transição para um novo modelo exige a redefinição dos mecanismos de incentivo, a vinculação dos benefícios fiscais a metas de desempenho ambiental, tecnológico e social, o fortalecimento da pesquisa aplicada e a promoção de cadeias produtivas locais de maior valor agregado. Somente por meio dessa reorientação estratégica será possível transformar a ZFM em um verdadeiro vetor de desenvolvimento sustentável, capaz de conciliar Crescimento Econômico, Preservação Ambiental e Inclusão Social.
Assim, a permanência do modelo atual, sem ajustes estruturais profundos, tende a ampliar suas limitações e a reduzir sua capacidade de responder aos desafios impostos pelas Mudanças Climáticas – o maior desafio do nosso tempo -, pela reconfiguração das cadeias globais e pela crescente demanda por Sustentabilidade. A reforma e a reformulação da Zona Franca de Manaus não constituem, portanto, apenas uma alternativa de Política Pública, mas uma condição necessária para a sua sobrevivência institucional e relevância econômica no longo prazo.
A crítica ao atual modelo da Zona Franca de Manaus encontra respaldo teórico consistente na concepção Keynesiana sobre Desenvolvimento Econômico. Para John Maynard Keynes, a acumulação de riqueza não deve ser entendida como simples retenção de recursos financeiros, mas como a capacidade de estimular gastos produtivos capazes de gerar renda, emprego, expansão da capacidade produtiva e dinamização do sistema econômico.
Nessa perspectiva, o papel das Políticas Públicas não consiste apenas em conceder benefícios fiscais ou reduzir custos empresariais, mas, sobretudo, em induzir investimentos que ampliem o potencial produtivo, tecnológico e inovador da Economia. O gasto, para ser economicamente virtuoso, deve produzir efeitos multiplicadores, fortalecendo cadeias produtivas, promovendo qualificação da mão de obra e estimulando a Inovação.
No caso da Zona Franca de Manaus, observa-se que o Sistema de Incentivos Fiscais vigente tem operado predominantemente como mecanismo de redução tributária, sem gerar, de forma sistemática, os efeitos estruturantes preconizados pela abordagem keynesiana. Embora os benefícios tenham contribuído para a manutenção do nível de atividade e do emprego, sua conversão em investimentos produtivos de alto valor agregado permanece limitada.
Grande parte dos recursos decorrentes da renúncia fiscal não se traduz em expansão consistente da base tecnológica local, em fortalecimento da Pesquisa e Desenvolvimento, ou em diversificação produtiva. Ao contrário, o modelo tende a reforçar um padrão de dependência de insumos importados, de atividades de montagem e de baixa integração com o território regional, reduzindo seu efeito multiplicador sobre a economia amazônica.
Sob a ótica keynesiana, tal dinâmica representa uma forma incompleta e ineficiente de utilização dos instrumentos de política econômica. Ao priorizar a atração de empresas por meio de incentivos tributários, sem contrapartidas robustas em termos de Inovação, Sustentabilidade e Qualificação, o modelo limita sua capacidade de gerar crescimento endógeno e duradouro.
Assim, a permanência desse arranjo institucional distancia a Zona Franca de Manaus do princípio fundamental defendido por Keynes: “o de que a riqueza social se constrói por meio do investimento produtivo orientado ao desenvolvimento”. A superação dessas limitações exige a reorientação dos incentivos para a promoção efetiva de gastos produtivos, capazes de gerar não apenas faturamento, mas transformação estrutural, Sustentabilidade e Competitividade de longo prazo.
Em consonância com Keynes (1936), a acumulação de riqueza está associada à capacidade de transformar recursos em investimento produtivo, capaz de gerar efeitos multiplicadores sobre renda, emprego e crescimento. Keynes refutou a autorregulação dos mercados, argumentando que a Demanda Efetiva insuficiente causa desemprego e crises, defendendo a intervenção estatal através de Políticas Públicas para atingir o pleno emprego.