17/12/2016
A moda do e os aos
Fonte: Twitter: Periscope:
O Brasil é um país sui generis. Único, obviamente, com tantas oportunidades e terras produtivas. O povo, ah, o povo! Ok, encerro a divagação para tratar sobre o açaí e o extrativista da região da Amazônia, com todos os riscos que envolvem as atividades de retirada do fruto pelos trabalhadores. Relembro que é sobre SST que trata este blog. No País e em terras estrangeiras, o açaí virou ‘modinha’. Há duas décadas, a extração do fruto era feita principalmente para a alimentação da família. Antes, era preciso subir uma a duas vezes nas árvores ao dia. Mas, a partir do momento em que o açaí virou um produto com demanda crescente, nacional e internacional, tornando-se uma commodity, sobe-se dezenas de vezes ao dia, e as comunidades manejam áreas cada vez maiores.
Além de saboroso, o açaí é repleto de benefícios à saúde. Os estados do Pará, Amazonas e Amapá são os maiores produtores da fruta, responsáveis por 90% da produção mundial. Meio milhão de pessoas trabalham na produção do açaí, fonte de renda em muitos lugares. Agora, querem saber sobre a realidade laboral desses produtores?
O extrativismo do açaí, por exemplo, é feito nas florestas de várzea em regiões inundadas. Os ribeirinhos sobem no açaizeiro sem equipamento de segurança. As condições de trabalho revelam um risco muito grande. Uma rotina que exige, além da coleta do fruto, o transporte a pé à beira da água e uma urgente e necessária comercialização para não estragar o produto. A falta de EPI e de treinamento, que daria segurança à atividade, é uma questão que precisa ser enfrentada. O risco de queda ao retirar a fruta da árvore é real. O trabalhador é conhecido como peconheiro (quem usa a peçonha, laço de embira ou de plástico preso aos pés para subir pelo tronco e cortar o cacho com seu terçado). Calcula-se, por exemplo, que num dia de pico de safra haja algo próximo a um milhão de subidas em açaizeiros. Isso aumenta exponencialmente os riscos de acidentes. Insegurança absoluta. A atividade não é regulamentada e não é reconhecida na esfera trabalhista. Felizmente, os desafios que envolvem a coleta do açaí já foram estudados pelo Instituto Peabiru, em conjunto com a Fundacentro. A pesquisa científ**a é sempre um primeiro passo para que ações corretivas possam ser desenvolvidas. De fato, comprovou-se a dura realidade das condições de trabalho dos extrativistas do açaí.
A pesquisa analisou o dia a dia do trabalho em uma localidade típica de coleta do fruto, registrando suas características, riscos e desafios. O lugar escolhido foi o Rio Canaticu, em Curralinho, no Marajó, Pará. Para discutir os resultados, diversas organizações, públicas e da sociedade civil, foram envolvidas. Entre as questões orientadoras, destacaram-se: qual a dependência dos ribeirinhos em relação à atividade do açaí? Quantos participam da cadeia de valor do açaí? Coletam para quais fins (segurança alimentar, comercialização)? Que tipo de riscos correm os peconheiros? Que partes do corpo são afetadas? Há registros de acidentes? Em que circunstâncias ocorrem esses acidentes? Qual o tempo de afastamento no caso de acidentes e onde buscam socorro?
Finalizada e com números colhidos, a pesquisa buscou discutir maneiras de como tornar a atividade segura, coletando sugestões sobre medidas simples para aumentar a segurança, como o desenvolvimento e aplicação de tecnologias para a coleta e o manejo dos açaizais. Encerro: está na hora de deixar de romantizar o extrativismo do açaí e encontrar uma forma realista de proteger esses trabalhadores. Ou que tal subir no açaizeiro para pegar seu próprio fruto saudável?