22/11/2025
A implementação consistente de mecanismos de controle interno, auditoria e compliance é um componente indispensável da governança corporativa. Empresas que negligenciam esses processos expõem-se a riscos operacionais relevantes, criam vulnerabilidades estruturais e podem comprometer sua continuidade de negócios. Quando os controles falham ou simplesmente não existem, o resultado costuma ser a perda de patrimônio, deterioração de credibilidade e danos reputacionais de grande escala.
O caso recente do Grupo Mateus ilustra esse cenário de forma contundente. Em apenas cinco dias, aproximadamente R$ 3 bilhões desapareceram entre perdas contábeis e destruição de valor de mercado. O episódio não decorreu de fatores externos, como condições macroeconômicas adversas, pressões competitivas ou choques setoriais; surgiu diretamente de deficiências internas que já haviam sido identificadas anos antes.
Em 2021, uma auditoria independente apontou 42 deficiências moderadas nos controles internos da companhia. Entre elas, a ausência de acompanhamento adequado do custo histórico do estoque, recomendando a implementação de um módulo específico de controle. A empresa não executou a recomendação. No ano seguinte, essas mesmas deficiências deixaram de constar nos relatórios enviados à CVM e foram substituídas por declarações genéricas de inexistência de falhas significativas. A falta de ação foi acompanhada da perda de visibilidade sobre riscos relevantes.
A situação se agravou em 2025, quando uma nova auditoria revelou a extensão real das inconsistências. Foram identificados R$ 1,1 bilhão em estoque inexistente, além de registros incompatíveis entre notas fiscais e mercadorias efetivamente recebidas. Também foram constatados furtos internos e lojas que permaneceram até dois anos sem qualquer inventário físico. Em teleconferência com o mercado, a própria liderança relatou erros operacionais básicos, como a utilização incorreta de códigos de produtos, distorcendo registros de estoque de maneira recorrente.
A descoberta dessas falhas teve impacto financeiro imediato. Cerca de R$ 2 bilhões em valor de mercado foram destruídos e a empresa se viu obrigada a realizar investimentos emergenciais de aproximadamente R$ 15 milhões para reestruturar processos, ampliar equipes e estabelecer inventários mensais. Esse custo corretivo é insignificante quando comparado ao prejuízo já materializado, reforçando a premissa de que controles internos não representam despesa acessória, mas sim um instrumento de proteção ao valor econômico.
O caso demonstra que ignorar recomendações de auditoria, postergar implementações e reduzir a importância de controles de governança gera risco sistêmico. Empresas que buscam crescer sem estruturas adequadas de monitoramento operam em velocidade incompatível com sua capacidade de controle. Em algum momento, as falhas se acumulam e se tornam visíveis para o mercado, com efeitos imediatos na credibilidade, na avaliação de risco e no valor da companhia.
Governança corporativa não é um elemento decorativo de relatórios. Compliance não interfere no negócio; preserva sua longevidade. O dilema, portanto, é simples: investir de forma contínua em estruturas robustas de controle ou enfrentar prejuízos bilionários quando as fragilidades se materializarem. A escolha, inevitavelmente, determina o futuro da organização.
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Consultoria e assessoria nas áreas de administração, finanças, logística e tecnologia no setor de varejo.