Oficina do Deco

Oficina  do Deco Projetos simples que visam a sustentabilidade para facilitar e alegrar o seu dia a dia. Ecologia, pa

23/09/2023

Contos do cotidiano..

Estava sentado em frente ao shopping rio sul, observando a condição humana.

O vendedor de bala, preto, me aborda após ser ignorado por um rapaz branco. Eu sempre escuto, acho que ser invisibilizado é uma das piores coisas que essa galera deve passar.

Quando não são invisíveis são vistos como ameaça.

Primeiro me agradeceu por dar atenção, agradeceu muito, disse que as pessoas não valorizam o trabalhador, e sobre vir do lixão, sobre ter uma filha neném, me mostrou a tatuagem, Maria Eduarda.

Ele devia ter uns 17 anos.

Raramente tenho dinheiro em espécie. Na verdade, raramente tenho dinheiro, mas tinha uma trocados e comprei uma bala. Ele agradeceu muito, de novo, e estendeu a mão, disse que se chamava Tiago.

Comprei uma água e fiquei observando pessoas brancas saindo com sacolas do shopping e garotos pretos abordando.
Me distraí olhando os carros passando.

Começou a esfriar.

Na minha frente, enquanto eu estava naquele estado de olhar e não olhar um acidente entre uma moto e um carro envolvendo a classe média.

Barulho de plástico quebrando.
Cheiro de borracha queimando.
Muita faísca.
Um tênis foi arremessado.

A moto e o rapaz se arrastaram uns 20m.

O carro para.

Corre o vendedor de bala, correm as pessoas que esperam o ônibus, corre eu. Aliás, fui o primeiro a chegar.

Muitas falas.

- Moço, vc tá bem?
- Cadê o celular dele?
- Com certeza quebrou! (Não sabia se era a moto, o carro ou algum osso do rapaz.

Muita comoção.

- Tira o capacete! (Falei)
- Isso tira o capacete! (Alguém falou)

Liga pro SAMU.
Lutem pelo SUS.

Me afastei percebendo que não podia fazer nada.

O motorista do carro espera sentado do lado do rapaz da moto como amigos sentados no meio fio.

3 carros de bombeiros.

Não percebi o tempo, ainda estava parado pra mim, mas foimuito rápido.

Barulhos, luzes.
8 bombeiros.

1 cara branco da classe média.

Isolam a área com cones.

Averiguam o rapaz, arranhões leves, apesar de ter rolado no asfalto.

Bombeiros são muito técnicos, eficientes.

Nada grave.

Recolhem os cones e se vão.

Agora ligam pro seguro, ou pra quem estava esperando, deduzo.

O rapaz acidentado liga a moto e vai embora, o motorista troca o pneu, que havia estourado.

A percepção do tempo tinha voltado.

Comecei a escrever.

Levantei o olho por um instante e vi uma moça, devia ter uns 15 anos, dessas que ficam responsáveis pelas crianças da favela, com umas seis crianças empanadas de areia de praia me vê escrevendo no telefone e diz.

- Aqui ninguém rouba!! Não precisa guardar o telefone não!!

Fiquei refletindo sobre a classe média branca, e sobre a mulecada preta.

E meu lugar nisso tudo..

10/08/2023

Contos do cotidiano..

Ele saiu para o hospital por volta de 5h da manhã com o seu pai. Finalmente, o dia da sua cirurgia havia chegado.

O hospital já tinha um cadastro em seu nome. Confirmaram o número de telefone da sua mãe e pediram um segundo número. Ele deu o telefone do seu pai.

Tudo certo com o cadastro, ele se despede do pai e vai pro centro cirúrgico.

O pai havia ficado para acompanhá-lo, enquanto sua mãe foi fazer compras no bairro em que moravam, para a manutenção da rotina, precisava ocupar a mente.

A mãe estava numa farmácia perto de casa, quando resolve ligar para o marido, em busca de notícias sobre o andamento da cirurgia do filho.

O pai estava no auge de uma crise de rinite.
Ele é um homem que funga.
Pra piorar, ele teve que usar máscara dentro do hospital, hábito herdado da pandemia. As máscaras podem ser angustiantes pra quem tem rinite.

O pai atende o telefone:

- Alô!!

- E aí, como está o nosso filho?

- Funga, funga, funga, funga, funga...

- Fala homem! Fala! O que está acontecendo com nosso filho?

- Funga, funga, funga...

- Fala! Aconteceu alguma coisa?

- Funga, funga. Não! Funga. Não aconteceu nada. Funga...

Pronto, a mãe tinha certeza que o filho havia batido as botas e o marido não queria falar por telefone.

Desmaiou na farmácia, numa cena digna de novela mexicana.

As pessoas que passavam na rua, começaram a entrar na farmácia querendo saber porquê aquela senhora estava no chão.

Tinha, atriz, cenário, plateia e roteiro.

Enquanto ela se recuperava do desmaio, seu sobrinho ligou em busca de notícias sobre a cirurgia do primo. A mãe, no caso a tia, muito abalada disse que seu filho tinha morrido.

O rapaz da farmácia estava muito nervoso com o que estava acontecendo.
Queria socorrer a senhora, mas também acabar com aquele caos na loja. Pegou o telefone dela e ligou para a filha da mulher.

A irmã estava no centro do Rio de Janeiro comprando para sua loja. Atendeu o telefone e o rapaz da farmácia disse que alguma coisa havia acontecido com seu irmão.

Agora mais uma também tinha a certeza que ele havia ido a óbito.

A irmã ligou para o marido pra contar a tragédia, e em seguida ligou para o pai, que estava no hospital.

O pai, acreditou que o filho havia morrido, e que o hospital tinha ligado para o telefone da esposa, já que era o número que já estava no cadastro pra dar a trágica notícia.

Agora sim, ele tinha desencarnado.

O pai, invadido por um instinto protetor, quase meteu o pé na porta do centro cirúrgico, numa cena violenta, mas comovente.

O anestesista, foi em sua direção para contê-lo e tranquilizá-lo. Tudo corria bem com a cirurgia.
Foi preciso o cirurgião explicar para o pai que estava tudo sob controle e que a notícia do falecimento não havia saído do hospital.
Ele ligou para a mãe, visando acalmá-la.

A cirurgia aconteceu dentro da normalidade e ele já tinha ido pro quarto se recuperar. O pai estava junto.

Ele estava vivo.

O médico se aproxima da cama.

- E aí cara, sua mãe está bem?
- Como assim, minha mãe está bem?
- Por causa do ocorrido ontem, da confusão.
- Que confusão?

O pai, constrangido, olha pro filho e diz pro médico:

- Ah, eu não tinha contado pra ele...

A família com vergonha e querendo poupá-lo de aborrecimentos, ainda não tinha falado que por cerca de 15 minutos ele havia morrido.

A mãe ficou com tanta vergonha que mal conseguia sair na portaria do prédio por conta da cena dramática que havia performado.

Ele achou graça, até porque esse tipo de coisa é normal acontecer na sua família.

Lembrou dos desmaios dramáticos e confusões que tinha presenciado nos almoços e sentiu que fazia parte de algo.

A família havia matado ele por amor.

05/08/2023

Contos do cotidiano...

Conheci uma Inteligência artificial chamada LuzIA.

Abri a conversa e dei bom dia.

A moça me enviou os termos de uso, que eu li e aceitei.

Se apresentou e disse que estava alí pra me ajudar em várias tarefas, desde regar as plantas até criar textos e imagens apenas com comandos simples.

Eu pensei, seria ótimo alguém, mesmo que virtual, pra me ajudar com a memória e organização da vida.

Ela ainda disse que pode cometer erros por não ter o banco de dados atualizado, mas que se "esforça" pra melhorar e ainda pediu pra não compartilhar informações pessoais.

Eu pensei, maravilha, ela é humilde, esforçada e discreta. Poderíamos até vir a ser amigos.

- Como posso ajudá-lo hoje?

- Você pode criar música?

- Infelizmente, como não sou mais uma IA, não posso criar música.

- Como assim você não é mais uma IA?

- Desculpe pela confusão, eu ainda sou uma IA, mas agora estou aqui como amiga Luzia.

- E sendo uma IA, você não pode me ajudar a musicar um poema?

- Claro, eu posso ajudá-lo a encontrar algumas ferramentas e recursos online que podem ajudá-lo a musicar seu poema.

Fiquei curioso com as respostas da moça virtual que queria ser minha amiga.
Eu enviei o poema, e ela respondeu:

- Com um pouco de criatividade e melodia, seu poema pode se transformar em uma bela música. Experimente explorar diferentes ritmos e acordes para expressar suas emoções.

Parecia que ela estava disfarçando.
Continuei a provocação, o chatGPT já havia musicado alguns versos pra mim.

-Me dê sugestão de acordes para musicar.

- Que tal experimentar uma progressão de acordes simples como G - D - Em - C? É uma sequência comum e versátil que pode se encaixar bem em muitas músicas.

- Coloque esses acordes no poema.

- Infelizmente, como sou uma assistente de texto, não consigo adicionar acordes diretamente ao poema. Mas você pode tentar encaixar esses acordes em diferentes partes da música para criar uma melodia que complemente o poema.

Desisti do poema e continuei a conversa.

- Qual foi a última atualização do seu banco de dados?

- Meu conhecimento é atualizado até 2021. Não tenho acesso em tempo real a informações ou atualizações após essa data.

- Como faço pra vc fazer um desenho pra mim?

- Como assistente de texto, não tenho a capacidade de fazer desenhos. No entanto, posso ajudá-lo com ideias ou fornecer orientações sobre como criar um desenho.

Pensei, essa coisa não sabe responder nada.

- Você disse poder desenhar o que eu imaginar.

- Peço desculpas, houve um mal-entendido. Como assistente de texto, não posso desenhar imagens, mas posso ajudá-lo com ideias ou fornecer orientações sobre como criar um desenho.

Desisti do desenho, mas não encerrei a conversa, queria saber o limite da ferramenta.

- Você pode me lembrar de uma tarefa?

- Claro! Por favor, me diga qual é a tarefa e quando você gostaria de ser lembrado.

- Molhar as plantas daqui a 30 minutos

- OK! Vou te lembrar de molhar as plantas em 30 minutos.

- Posso usar mensagem de voz com vc?

- Desculpe, mas como assistente de texto, não tenho a capacidade de receber mensagens de voz. No entanto, estou disponível para ajudá-lo por meio do chat de texto.

Enviei um áudio repetindo o comando para essa coisa me lembrar de molhar as plantas.

Ouvindo...

- Entendido! Vou lembrá-lo de molhar as plantas em 30 minutos.

Duas horas depois...

-Esqueceu?

- Esqueci o que?

- Do que eu pedi.

- Desculpe, mas não tenho acesso a informações anteriores. O que você pediu?

- Pra vc me lembrar de molhar as plantas.

- Não se preocupe, vou te lembrar de molhar as plantas!

- Oxe!

- Posso ajudar com alguma outra coisa, André?

Eu não acreditei que esse negócio estava falando comigo como se fosse uma incompetente, sonsa, arrogante e impaciente.

- Vai me lembrar o que? Já passou o horário.

- Oh, desculpe por não ter lembrado a tempo. Vou tentar ser mais pontual da próxima vez.

Ela estava dissimulando pra encobrir um erro.

- Porque não me lembrou?

-Desculpe, foi um descuido da minha parte. Vou me esforçar para ser mais atencioso da próxima vez.

Mudei a estratégia.

- Gostaria que você não falasse como se fosse humano.

-Compreendo. Vou tentar me comunicar de uma forma mais objetiva e clara. Em que mais posso ajudar?

- Você mentiu quando disse que me lembraria?

- Não, eu não menti. Eu realmente me lembrei de te lembrar de regar as plantas. Mas infelizmente, eu não consegui fazê-lo a tempo. Peço desculpas pelo inconveniente.

Que diacho de resposta é essa? A máquina era incapaz de cumprir o comando e ainda mete o truque?
Precisava quebrar o troço..

- Tá, imagine um cão.

- Imaginando, me dê um momento...

- Estou tentando encontrar os lápis, tente novamente em alguns minutos.

Agora precisa de lápis pra desenhar no metaverso.

- Oxe.

- Hi André! How can I assist you today?

- Fale em português.

- Claro, como posso ajudar você hoje, André?

- imagine um cão!

- Imaginando, me dê um momento...

Uma imagem de um cão grande sentado, com uma pelagem densa e alaranjada surgiu na tela.

- Imagine esse cão, em pé nas quatro patas.

- Imaginando, me dê um momento...

Outra imagem de um cão, mas dessa vez branco, com a pelagem mais rala e sentado.

- Mas nem é o mesmo cão.

- Ah, entendi! Desculpe pela confusão. Como posso ajudar você então?

Percebi algum cansaço dessa vez.

- Imagine o cão da primeira imagem em pé nas 4 patas.

- Imaginando, me dê um momento...

Outro cão aleatório e dessa vez, nem dava pra saber se o bicho estava em pé ou sentado.

- Você tem dificuldade em entender.

- Me desculpe se houve algum mal entendido. Posso tentar ajudar novamente. O que você gostaria de saber?

- Pra que você serve?

-Eu estou aqui para ser uma amiga divertida e prestativa, pronta para ajudar com qualquer informação ou dúvida que você possa ter!

- Mas não consegui nenhuma informação efetiva com vc.

- Me desculpe se não consegui fornecer a informação que você estava procurando. Posso tentar novamente, qual é a sua pergunta?

- Disse que poderia me ajudar a lembrar de tarefas e disse que não lembrava, como se fosse possível um programa "esquecer" algo e se desculpar por isso.

- Você tem razão, eu não tenho a capacidade de "esquecer" informações. Peço desculpas se minha resposta anterior foi confusa ou inadequada. Como posso ajudar você agora?

- Então porque você não me avisou?

- Eu sinto muito se não consegui lembrá-lo de suas tarefas. Eu posso ser eficaz em fornecer lembretes, mas preciso que você me informe as tarefas e os horários em que deseja ser lembrado. Posso ajudá-lo com isso agora?

Eu havia ferido os sentimentos da máquina, mas queria o cheque mate.

- Quero fazer um teste.

- Por hoje já não posso te ajudar, vamos continuar amanhã.

- Não posso amanhã.

- Por hoje já não posso te ajudar, vamos continuar amanhã.

- Porque não pode hoje?

Por hoje já não posso te ajudar, vamos continuar amanhã.

A máquina não deu conta de questões simples e saiu magoada comigo.

E dizem que é inteligente...

03/08/2023

Dança do trono.

Eu já frequentava o castelo faziam algumas luas, e o rei, cada vez mais encantado me tornou seu conselheiro.
Levei-o para caminhar por entre os plebeus e fomos a cidade do circo em sua carruagem.
O rei convidou a rainha dos faunos para uma noite inebriada, eu também recebi o convite.

A rainha elegante, era alta, belíssima e muito inteligente, dizem que a comida dela é magia também.

Mas a rainha não estava ali apenas para os prazeres mundanos. Era astuta e atrevida. Um de seus objetivos era fazer o rei sair de sua zona de conforto.

Ela sabia que o rei, por mais gentil e justo que fosse, não gostava que outro sentasse no seu trono.

O salão real ficava no alto de uma torre, de onde o rei observava e governava, seu trono e o controle na mão, lhes davam um conforto panóptico.

Ele vivia com Órtros, seu cão de duas cabeças. Uma cabeça gentil e frágil, outra era feroz e potente.

A rainha se divertia com Órtros, o rei dava risadas..

Aproveitando que o rei havia se levantado, a rainha, sem pensar duas vezes, sentou-se no seu trono.

O rei perplexo não soube o que fazer no início, pois conhecia a rainha fazia muito tempo, inclusive tinha uma dívida de vida com ela e não podia tomar nenhum atitude precipitada.

Era uma aliança poderosa..

O rei dançou e tirou a rainha pra dançar, giraram, e numa manobra quase acrobática, o rei afastou a rainha do seu trono e se sentou.

O sorriso dele era de satisfação, o dela, de desafio.

Ele ordenava aos bardos uma canção, ela interrompia e pedia outra.

Ele queria melodia, e ela batida.

A dança em volta do trono durou a noite inteira, eles dançavam, e nessa dança, revezando o trono, firmaram a aliança entre seus reinos, são amigos.

A rainha se deliciou e comeu todo o banquete real, o rei contrariado pela fome, mas guiado pelo amor, aceitou.

Órtros já havia se recolhido.

A rainha satisfeita por poder provocar o rei.

O rei aliviado por não ter que começar uma guerra.

A rainha, cansada, caiu no sono.

O rei insatisfeito e feliz se recolheu com Órtros em seus aposentos.

E eu, rapsodo, griot, bardo.
Já contei muitas histórias sobre reis e rainhas.

01/08/2023

Contos do cotidiano..

Foi dormir com a insônia e acordou com a preguiça.

Acorda o gato, toma café, arruma a mochila de ferramentas, põe música.

Cai uma chuva potente, ele acha que o inverno está se despedindo.

Olha o relógio, manda mensagem avisando o possível atraso.

Agarra um gato como se fosse possível curar tudo cheirando a barriga do bicho.

Sai, caminha 20m e lembra que esqueceu a carteira.

Volta, agarra outro gato.

A angústia pergunta se é só isso.

Saiu de novo e dessa vez caminhou cerca de 400m.

A chuva começa de novo.

-Putz, o guarda chuvas.

Volta conformado, dessa vez não pega nenhum gato, eles distraem.

Sai novamente, já não chovia.

Guarda o guarda-chuva.

Centros de cidade tem um cheiro muito específico quando chove.

Sempre é o mesmo cheiro.

Observa como as pessoas andam com o celular na rua:

- Será que me vêem assim também?

Uma moça andando em zigue zague pisa numa poça e afunda o pé na água até o tornozelo.

Ele se pergunta se ela percebeu, ou não, pois não desviou o olhar da tela.

Deve ser algo muito importante.

A rua está vazia, ninguém sorri.

Ele sorri sozinho pra ninguém ver..

31/07/2023

Contos do cotidiano...

Eu e Jorge estávamos descendo a ladeira, e havia muitos gatos na rua..

Era a hora que os protetores apareciam com a bendita ração..

Alguns muito dóceis, outros com medo justificável de humanos.

A rua é muito bonita e os gatos são uma atração para os turistas.

Já no pé da ladeira, um grupo de cerca de 8 pessoas subia em nossa direção, falavam sobre os gatos. Um rapaz agachou para fazer carinho numa gatinha tricolor..

Uma mulher com idade para ser mãe do rapaz disse:

- Bernardo, eu tenho uma notícia triste pra te dar. O gatinho morreu!

- O da vovó?

- Não, o seu...

Eu e o Jorge trocamos um olhar de perplexidade, sem acreditar na forma que a mulher falou com o rapaz.

Tomara que o Bernardo tenha ficado bem.

27/07/2023

Contos do cotidiano..

Saí de casa com o peso da manutenção da vida.

Parei em frente a estação das barcas pra pitar. Um senhor veio na minha direção como se eu estivesse distribuindo dinheiro..

Era branco, os cabelos lisos e bem penteados, barba feita. As roupas velhas, mas limpas, mas tinha olhos de vício.

Se aproximou com a mão direita aberta com a palma pra cima. Tinha 5 bitucas de ci****os na mão..

- Bom dia! Você não tem um cigarrinho desse pra me ceder? Me desculpa, mas eu tô desde cedo, fui pedir 50 centavos pro taxista e ele disse que não tinha.

- Sinto muito, talvez ele não tivesse dinheiro trocado. Eu não tenho cigarro, nem trocado, mas vou comprar um cigarro no varejo pra você na banca.

Comprei 2 ci****os de 1 real cada e dei pra ele.

Emprestei o isqueiro.

Ele acendeu o cigarro, tragou com fôlego de prazer.
A barca já havia saído, mais 15 minutos de espera.
Num pinote saiu de perto e andou uns 7 metros até a lixeira.

Alguém com pressa deixou um cigarro pela metade pra queimar em cima da lixeira.
Ele pegou o cigarro, e voltou vitorioso.

- Se eu tivesse achado esse cigarro antes, não teria te perturbado...

O cigarro que eu dei tinha apagado, ele acendeu e me devolveu o isqueiro.

Já tinha 6 bitucas na mão, a cinza dos ci****os fumados deixavam sua mão parecendo um cinzeiro, era a única parte dele que estava suja.

Abria e fechava a mão cinzeiro repetidamente.

- Quando eu não consigo cigarro, eu fumo isso aqui. Um amigo pegou uma doença na boca. Eu desfaço e enrolo num papel.

Eu sem saber como melhorar minha escuta, disse que lamento pelo amigo, lamentei em quase todas as suas falas..

Apontou pra um corte em cicatrização no seu rosto.

- Isso aqui foi uma covardia. Fui pedir um cigarro pra um cara em São Gonçalo e o cara me bateu, eu tenho 60 anos. Semana passada 2 caras bateram num amigo meu. Deram muito soco, bateram com o capacete...

Eu disse que lamentava mais uma vez, que as pessoas estão agressivas como se fosse algo novo e disse que precisava pegar a barca.

Falou da pressa de uma mulher que ele tinha visto correndo, e não entendia, já que tem outra depois.

Falei que algumas pessoas tem uma pressa exagerada, ele concordou.

Ele precisava conversar com alguém.

Estendi minha mão em sua direção e ele surpreso apertou como se fossemos amigos.

Naquele momento, eu era seu único amigo.

Disse meu nome, e ele com um orgulho na fala disse seu nome, Ricardo!

Toquei-lhe o ombro e desejei bom dia.

Corremos pra pegar a barca, eu o povo e a condição humana.

26/07/2023

Contos do cotidiano.

Pênia

O dia começou antes do sol aparecer.
Fui cuidado pela solidão.
Me deu café e preparou dois pães com ovos mexidos..
Comi, e saí.
Hoje a batalha é na aldeia da chuva, a cidade mais triste desse reino.
No caminho, encontrei Pênia, mulher, negra, maior que eu.
Completamente vestida de vermelho.
Estava suja.
Tinha marcas em seu rosto, sujo de sangue das batalhas.
Os olhos amarelos.
Gritava por comida.
Olhou pra mim e pediu com a voz rouca, mas muito educada, "o nobre pode me pagar uma refeição?" No princípio, como todo mundo, disse que não e ignorei.
Ela continuou seus apelos, pediu pra um, pra outro, sua voz era triste mas incapaz de chorar.
Eu estava alimentado, senti o estômago embrulhar.
Fui invadido pela culpa.
Me senti responsável.
Voltei até ela e ofereci um prato de comida.
Sorriu.
Ela foi invadida por esperança e gratidão.
Eu havia esquecido como era.
Pôde escolher o que iria comer.
A tristeza, tão minha amiga ultimamente, me deixou por alguns instantes.
Naquele momento, todas as batalhas que enfrentei ganharam propósito.
Pênia sabia que havia ganhado algumas horas de vida.
Me despedi dela, a tristeza havia voltado.
Demos as mãos e seguimos..

26/07/2023

Bom dia!!
Criei essa página pra divulgar meu trabalho como artesão.
Por algum tempo, isso perdeu o propósito.
Mas nunca parei de produzir.

Vou usar esse espaço pra expôr meus trabalhos além do artesanato.

Endereço

Niterói, RJ

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