12/03/2024
Para os apaixonados pelo cavalo crioulo, segue uma linda história....
BUGRE ALLUAN – O mouro do Seu Janino,
e seu ilustre desconhecido irmão Chavante.
Bugre nasceu em 20/10/1944, na Cabanha Timbaúba, em Pedras Altas/RS. Filho da égua Araucana Alluan, vindo a ser neto materno da égua moura “Registro Base” Lebre Alluan, RP 01, criada pelo meu avô Alfredo da Silva Tavares, sendo esta nascida em 01/01/1925.
Seu pai foi o cavalo mouro TIBIRIÇA, primeiro padrijo adquirido pelo meu pai Janino, para iniciar a nova era dos primeiros crioulos registrados na cavalhada da nossa família. Foi comprado do também Fundador da ABCCC, Sr. Luiz Dias da Costa.
Bugre destacou-se desde potrilho mamão, já sendo amanunciado e domado pelo meu pai, sem nunca ter sido laçado nem utilizado a “quebra de queixo”, tradicional na época. Só na aproximação, com jeito e carinho, foi embuçalado e na primeira noite de agarrado já dormiu na cocheira.
A primeira exposição que participou foi em Herval, onde foi Grande Campeão e 1º lugar em um concurso de rédeas, montado pelo meu pai. Posteriormente, concorreu numa exposição em Pelotas onde conquistou novamente o Grande Campeonato.
Foi o reprodutor da manada até os 20 anos, como também o principal cavalo de montaria de meu pai, fora da época reprodutiva. Todos os anos vinham de fora várias éguas de amigos para tirar uma cria com ele (de graça, pois naquele tempo não se cobrava cobertura). Quando Seu Janino ia recorrer o gado no mesmo potreiro onde Bugre estava padreando sua manada, as vezes o chamava no campo, acariciava e saltava em pelo, sem freio nem boçal.
Meu pai Janino e o Tio Alcy (General Alcy Cheuyche, casado com Zilah Tavares – irmã do Janino; pais do Alcy José, meu primo irmão e escritor) tinham umas éguas juntos, daí a origem do afixo Alluan. Quando Tio Alcy foi para o Alegrete assumir o Quartel, separaram as éguas. Meu pai já tinha o Bugre e tocou para o Tio Alcy, o Chavante, um potranco mouro do mesmo quilate, muito lindo desde novo, parecidíssimo com seu irmão mais velho, já com vistas a ser o padrijo lá para aquelas bandas.
Irmão do Bugre, o Chavante, nascido e criado na Timbaúba, em 01/01/1946, deixou sua marca também no Alegrete. Compõe a genealogia do rosilho atual Freio de Ouro, Guanabara Saladero. Sua avó materna, a linda rosilha registro de mérito BT Vassoura (com 12 filhos pontuando no registro de mérito), é bisneta do Chavante. Outro Freio de Ouro, BT Salitre, desta vez em 1987, também é descendente de Chavante. A moura registro de mérito BT Dengosa (mãe do campeão Salitre e do também finalista, Butiá Alaska) era filha da égua moura Pombinha, sendo esta filha, neta e bisneta de Chavante, compondo assim 7/8 em grau de sangue da Pombinha, quase uma Timbaúba fechada. Ainda, acontece de igual forma a composição de outra registro de mérito, BT Lasquiada - mãe do inesquecível Butiá Arunco, Freio de ouro 1988 e tri freio de prata 1987, 1989 e 1990, além de Reservado Grande Campão Expointer 87 e 89; mãe também de BT Sortilégio, Freio de Prata 1986 e de Butiá Enigma, bi finalista do Freio). A rosilha Acácia, mãe de BT Lasquiada, tem os mesmos incríveis 7/8 de sangue do cavalo mouro Chavante, outra com sangue Timbaúba quase fechado.
Esclarecendo e para quem gosta de pesquisar, temos 3 éguas irmãs inteiras ou, próprias irmãs, como outros dizem. Todas com 7/8 de sangue do Chavante, sendo ele pai, avô materno e bisavô materno, lá nos primórdios dos anos 1950 e 1960. Época de campos isolados, distâncias longas e poucos reprodutores registrados, naquela época, formando éguas crioulas puras rio-grandenses, com alta consanguinidade e homozigoze, que vieram a construir 3 dinastias distintas e vitoriosas.
Foram elas: a rosilha Acácia, mãe de BT Lasquiada; a moura Pombinha, mãe de BT Dengosa e a rosilha Altaneira, avó de BT Vassoura.
Capturadas anos depois pelo olhar mais que atento do Grande Mestre Zootecnista, Flávio Bastos Tellechea, foram achadas nos fundões do Alegrete, compradas para dar início na sua criação, já com o objetivo de serem algumas das primeiras esposas de outro mouro Pedrasaltense que ele havia comprado, Sorro Campeiro. Assim, um pedrasaltense e outras 3 éguas, com 7/8 (87,5% de seu sangue pedrasaltense – via Chavante), reencontraram-se em Uruguaiana para iniciar a formação de um dos maiores criatórios do país, Cabanha Paineiras, sob a regência e inteligência daquele grande maestro. Décadas depois, já nos anos 80, outro homem de olhar atento, Ronald Bertagnolli, visitou a Paineiras e escolheu, novamente, 2 de suas mais importantes éguas, ambas futuras mães de Freio de Ouro, como já dito.
Novamente foram escolhidas - não por acaso - 2 éguas fruto do encontro de pedrasaltenses em Uruguaiana, a moura BT Dengosa e a rosilha BT Lasquiada (ambas filhas de Sorro campeiro), formando assim as principais bases, através de Butiá Arunco, principalmente, e BT Salitre, da vitoriosa Cabanha Butiá, marcante nas pistas naqueles anos seguintes.
Ainda hoje temos uns mouros, mouras, pretos e rosilhas descendentes do Bugre, pois preservamos uma parte da cavalhada mantendo o sangue Riograndense fechado para preservar as origens e manter reserva genética.
Eu (Alfredo), devo minha vida ao Bugre. Certa feita, num dia quente de verão, eu andava no campo com o pai, eu montado num pônei (o Tijolinho). Entrou num mato fechado um touro Devon aspado e empacou. Os cachorros o atiçaram e o touro embrabeceu. Nesse momento, eu encontrava-me inocentemente parado na boca da saída da picada, olhando com atenção a movimentação dos cachorros e do touro. O pai me gritou forte “SAI DAÍ”, mas era tarde. O touro saiu do mato rasgando pela picada, para me atropelar com pônei e tudo. O pai carregou o BUGRE e deu uma pechada na paleta do touro de cerca de 700 kg e o atirou para outra direção, retirando-o do caminho da picada que conduzia até mim. Por isso, hoje, se estou vivo e contando esta história, é graças ao BUGRE ALLUAN, bem conduzido pelo seu fiel amigo e cavaleiro Janino!
Alfredo da Silva Tavares