02/10/2020
Hoje conversei com dois clientes a respeito de uma bela ideia de negócios. Um projeto muito atraente, sem dúvida, a ser executado por pessoas de extrema competência técnica e científ**a em suas respectivas áreas. Um projeto que envolve habilidades sofisticadas de química analítica e que, além de tudo isso, tem aparente potencial de lucratividade.
É isso o que muitas pessoas veem, o potencial de lucros. Infelizmente, é nisso que muitas pessoas f**am, apenas no potencial - e depois naufragam, choram e rangem os dentes.
Conversei com eles e coloquei dificuldades que poderão enfrentar no processo: desde a viabilidade e o licenciamento ambiental necessário, inclusive o tratamento e descarte de resíduos, até diferenças em regimes de tributação, passando por detalhes que não podem ser negligenciados na análise financeira do projeto.
Expus esses aspectos e perguntei: "Mas então, vocês já fizeram um primeiro produto? Já rodaram o processo e chegaram a resultados?". Ainda não. Recomendei, então, que obtenham os materiais necessários e façam um projeto piloto, uma versão simples do produto, porém plenamente funcional, que servirá como ponto de partida para começar a planejar o negócio.
Há um abismo enorme entre "saber fazer" (na cabeça) e "fazer de verdade" (na realidade). Combinei com eles uma nova consultoria para quando já tenham os materiais necessários, antes mesmo de começarem a elaboração desse primeiro produto.
Só então vou orientar com relação a TUDO o que preciso que anotem, que registrem, que *mensurem* durante o processo: desde o preço dos insumos até o custo computacional e - o que poucos levam em conta - as HORAS gastas na execução. Porque muitos se esquecem de incluir essa variável, o tempo, na hora de elaborar seu plano.
Não sei trabalhar de outra forma, para mim o que conta são as evidências, não acredito no que não posso mensurar, nesse sentido sou kelvinista ao extremo: não posso dizer que conheço algo que não posso medir. Meu mundo é o mundo dos números, das métricas, das variáveis quantitativas e é isso o que orienta a maneira como conduzo meu trabalho de consultor de negócios.
Não vou pela tentativa e erro, não acredito na GBG (Gestão Baseada na Gambiarra), até reconheço o valor da inspiração e da intuição, porém não decido nada enquanto não puder contar com informações (interpretadas cientif**amente) a partir de dados (coletados rigorosamente).
Gosto de ver pessoas que enxergam oportunidades de negócios e que decidem empreender. Gosto de incentivar isso porque acredito que o empreendedorismo, na prática, é a única saída para criar e desenvolver uma cultura de negócios neste país.
Gosto da teoria do empreendedor formulada pelo economista austríaco Israel Kirzner, isto é, o empreendedor está sempre alerta às oportunidades que surgem nos processos de mercado.
Só que, mesmo que uma oportunidade seja identif**ada por pessoas que têm 40 anos ou mais de experiência em suas áreas de atuação, há todo um *processo prático* de transformação da oportunidade em realidade.
Se eles decidem fazer o que querem, por mais que seja uma ideia boa (muito boa, por sinal, porém ainda assim apenas uma ideia no momento), podem se afundar numa PJ que não têm condições de manter, numa contabilidade insustentável e em muitas outras dores de cabeça (dificuldades na hora de emitir NFs, para comprar insumos, obstáculos na produção, etc.).
Só entender da parte técnica e científ**a não basta, eles precisam EXECUTAR, ver como as coisas se dão na prática, pois não há validade se não houver uma análise econômica que garanta a viabilidade.
Meu papel não é jogar baldes de água fria. Mas sou responsável por orientar de maneira consciente e adequada, esse é meu trabalho. Fazer minha parte inclui ajudar as pessoas a evitar que tenham grandes prejuízos começando negócios que não sabem como viabilizar.
Esse projeto será concretizado? Talvez! Saberei quando tiver as evidências necessárias - e aí sim falarei a respeito dos próximos passos. O papel da consultoria de negócios é orientar com transparência, seriedade e sinceridade, para que as pessoas que desejam empreender possam fazê-lo da maneira correta, sem atropelar etapas, sem que os bois pisoteiem as carroças.
Ideias podem ser excelentes e é necessário agir para que a economia se movimente, porém oportunidades inviáveis do ponto de vista financeiro podem se tornar um grande prejuízo se o negócio começar da maneira errada. A consultoria existe justamente para tornar os planos possíveis.
Não se trata de realizar sonhos, ninguém aqui tem varinha de condão ou lamparina de óleo para invocar um gênio e conceder três desejos. Trata-se de orientar para que as pessoas possam concretizar objetivos exequíveis.