21/01/2026
Havia algo mais silencioso a início, algo mais baixo. Que eu tentava não escutar. A voz mais alta dizia: olhe ao seu redor. Isso é o melhor que tu já teve. E parece ser o melhor que se pode conseguir.
Outra dizia: talvez isso seja uma forma de descentralizar relação amorosa na tua vida. Mais uma chance de fazer isso.
Na sequência, fui cooptada pela ideia de família. A ideia de dividir a vida com alguém. Voltei a acessar o romantismo vindo para essa casa. E também a expectativa que paira sobre as mulheres. Quando postei as fotos na mudança pensei: viram? Consegui. Formei uma família.
O incômodo do que faltava foi crescendo dentro de mim. Eram as mesmas coisas presentes no outro ensaio do fim. Pude contar mais e ver mais compromisso nas partes práticas. Dividir contas, afazeres. A parte profunda perdida.
Fui desistindo. Será que consigo f**ar aqui olhando para o que tem? Carinho, atos de serviço, cia? A própria cia era cada vez mais insípida. Eu mesma não queria mais acampar, fazer fogo, ter os momentos juntos que por tanto tempo reinvidiquei por que não iam ser nutritivos.
Falo muito sobre como "agora não estou ligando", "agora eu que não tô mais afim". O fato de falar muito revela que me importo sim e que esse estado é temporário.
Tento descobrir se consigo viver em um regime de fome. Não quero mais "beliscar salgadinhos". Preciso descobrir se consigo viver sem me alimentar dessa parte. Vou secando, definhando.
O corpo e a alma vão entrando em desespero. A alma selvagem precisa comer. Começa a me desnortear para me sacudir. Ela grita "não posso viver assim!". Isso vai aumentando conforme sigo na empreitada de tentar viver com fome. Ela começa a me ameaçar: "vou ter que te destruir!", "vou ter que te colocar uma raiva que não passa", "vou ter que te enviar pro fundo do poço pra tu nos tirar dessa escassez".
Se anestesiar com álcool ou outros substitutos não é mais uma opção. Estamos em outro momento. Sofro muito. Sofro sozinha. Tento dividir, mas minha voz não encontra eco do outro lado. Estou gritando para o nada. O que eu digo não toca.
(Continua nos comentários)