28/05/2026
A família suficientemente boa:
Reflexões a partir de Donald Winnicott
Aliria Souza
A família suficientemente boa é aquela que acolhe e valida os sentimentos uns dos outros. Ciúme, inveja e raiva podem existir, sem que isso implique invasão do espaço alheio. E, quando os limites são ultrapassados, há uma pausa para refletir, porque o cuidado e o amor permanecem presentes.
Cada membro do campo afetivo assume um papel possível de sustentação para que o vínculo seja ressignificado diante de cada situação perturbadora. Quando as pessoas do círculo familiar compreendem que existem aspectos valiosos a serem preservados, entendem também que a miscelânea de sentimentos — muitas vezes ambivalentes e dolorosos — é inerente ao desenvolvimento e ao amadurecimento pessoal. Os laços familiares se constroem quando se atribui novo sentido à dor, ao conflito e a separação. O espaço individual é preservado e sustentado pela capacidade de individuação de cada membro do clã.
Os rearranjos que dão origem a novos grupos familiares, chamados de “não convencionais”, tornaram-se necessários. Impulsionados por transformações sociais, econômicas e subjetivas, os vínculos familiares passam a se sustentar por diferentes modos de amar, cuidar e conviver.
À primeira família sucedem novas famílias. Os níveis de parentesco se multiplicam em decorrência de separações, novos casamentos, famílias monoparentais, adoções, casais homoafetivos, avós que criam netos e outras configurações que surgem como tentativas de responder às necessidades emocionais e psíquicas da vida contemporânea. Para além da estrutura nuclear tradicional, o que sustenta uma família suficientemente boa é a capacidade de oferecer pertencimento, cuidado, reconhecimento da subjetividade e espaço para a individuação de cada membro.
No acolhimento psicológico, as diversas queixas convergem para um tema comum: a necessidade de acolhimento, validação e pertencimento. A busca por autoconhecimento e pela capacidade de lidar com o outro é um pedido frequente na clínica psicológica e aponta para a necessidade de ações que garantam a saúde da família em mudança.