19/09/2020
Tomei banho, mas não pra me limpar.
Olhei para dentro de mim e me despedi do meu corpo de mãe.
Tive o privilégio de amar e de ser amada também através do meu corpo. A doação do corpo não é necessária nem suficiente para vivermos plenamente o papel de mãe, e por isso mesmo sou grata à vida por ter podido ter essa experiência, esse privilégio.
Olhei e percebi várias coisas.
Meus seios hoje já não se enchem mais de leite.
Minha barriga, flácida e um tanto maior do que eu gostaria, e que serviu de apoio parq meus pequenos enquanto dormiam sobre mim, agora pode ter um novo olhar porque volta a ser só minha.
Meus braços, doloridos de tanto colo, vão continuar embalando, mas de outro jeito.
Sempre me inquietou essa pressão para “voltar ao corpo de antes”.
Porque nem existe mais aquela pessoa que eu era antes. Então, de que me serviria um corpo igual?
Tudo muda, a parte de dentro e a de fora.
O que eu celebro não é a possibilidade de voltar a ser como antes. Isso não existe. Mas a chance de olhar para novas possibilidades em meu corpo, que não é mais um corpo só de mãe.
Meu corpo volta a ser meu, e isso quer dizer que ele vai ser outras coisas além de ser mãe, que é missão pra vida toda.
Acariciei, agradeci a esse corpo que nutriu por tanto tempo meus filhos. Respirei, tirei um momento para olhar para mim. Tirei esse retrato.
Que venha a próxima etapa.
♡