Daniela Veríssimo - revisora de textos

Daniela Veríssimo - revisora de textos Revisão e preparação de textos em língua portuguesa. Orçamentos por e-mail: [email protected]

23/06/2026

O léxico da embriaguez era riquíssimo no latim. Cambaleavam pela Roma Antiga o ebrius e o ebriosus (antepassados dos portugueses ébrio e ebrioso), o vinosus e o vinolentus (referentes à embriaguez com vinho), o crapulatus e o crapulentus (ancestrais do crápula português), o merulentus, o temulentus, potulentus, o madidus, o uvidus, o bibonius, o potus e o appotus. Alguns deles se tornaram célebres: Quinto Ênio, pai da poesia latina, só começava a escrever após encher o rabo de vinho; outro poeta romano, Catulo, celebrava a bebedeira na literatura e na vida real.
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Já no latim tardio e vadio, tornaram-se conhecidos o ebriacus, o inebriatus, o matus, o potionatus, o bibosus e o bibax. Mas foi de uma forma relacionada a bibitus, particípio de bibere ( = “bebido”), que se desenvolveu o português arcaico “bevedo”, que por sua vez evoluiu para “bêbedo” (séc. XIII). A variação de bêbedo para bêbado (séc. XV) pode ter se dado por mudança fonética ou por analogia com o sufixo -ado, que passou a ser mais produtivo que o -edo. Naquela mesma época, já circulava o bebarro de Gil Vicente.
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Hoje em dia, fica-se bêbedo em Portugal, mas nem tanto no Brasil, onde se prefere ficar bêbado, algo inadmissível para o gramático Napoleão Mendes de Almeida: “Por que não preferir bêbedo com ‘e’, forma legítima, quando com ‘e’ escrevemos beberagem, bebedeira, bebedouro, beberrão?”, resmungava.
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Alguns autores brasileiros – como Menotti Del Picchia, Gustavo Corção, Guilherme Figueiredo, Raquel de Queiroz e Aurélio Buarque de Holanda – concordavam com Napoleão e preferiam um bêbedo a um bêbado. Mas não Nelson Rodrigues, que avisava aos revisores de texto: “Segundo dizem, o certo é ‘bêbedo’, mas o ‘e’, em vez do ‘a’, esvazia a palavra de sua tensão dionisíaca. Portanto, peço à revisão que me deixe escrever errado’”.
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Entre bêbedos e bêbados, também havia bebidos. Sim, o particípio de beber também se embriagou:
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“O inglez não canta senão quando bebe... aliás quando está bebido.”
(Almeida Garret, Viagens na Minha Terra, 1843)
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“Elle chegou tão bebido que nada valia seu depoimento.”
(Livro Segundo das Actas da Igreja Presbyteriana da Bahia, 1892)
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“As vezes em que ele chegava da rua tão bebido que quase caía do cavalo, na minha mente aquilo era natural em homem.”
(Rachel de Queiroz, Dôra, Doralina, 1975)
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Também adquiriu o sentido de “que bebeu bem, que está satisfeito de bebida”, como nesse curioso trecho de Monteiro Lobato: “Homens gordos, bem comidos, bem bebidos” (Negrinha, 1920).
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Esse sentido bêbado de bebido não demorou muito para cair em desuso. Mas vários outros bêbados foram dando as caras. No século XV, chegou o beberrão, e no século XVIII, o beberrote, oriundos de beber. O bebaço, também derivado desse verbo, surgiu no início do séc. XX e era usado por Lima Barreto, que aliás assumia esse adjetivo frequentemente. No tempo desse escritor, também apareceu a redução de “bêbado”:
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“Tá bêbo, cabra!”
('Dona Guidinha do Poço', Manoel de Oliveira Paiva, 1892))
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“Não convém um bêbo cantá para um cachaceiro.”
('Repentistas e glosadores', F. Coutinho Filho, 1937)
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“[...] Mané Preto, que estava bêbo que só uma ticaca, criando ingrizia e fazendo barburim no açougue.”
('Brasil de chapéu-de-couro', Luiz Cristôvão dos Santos, 1954)
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“Seu bebê tá bêbo, amor.”
(Barões da Pisadinha, 2021)
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Mais adiante, nos anos 60, juntaram-se à mesa o bebão e o bebum, ampliando a roda no boteco, já formada por bêbedo, bêbado, bebarro, beberrão, beberraz, bebido, bebaço e bêbo. Mas o mais bêbado deles só daria as caras no anos 80: trêbado.
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Nelson Rodrigues dizia que “também se conhece um povo pelos seus bêbados”. O povo romano ficou conhecido por ébrios como Ênio e Catulo; o nosso, por bebuns como Lima Barreto, Mário Quintana, Vinícius de Moraes e Paulo Leminski. Em algum plano – etéreo ou etílico –, eles devem estar reunidos e tomando todas, sem se importar de que forma vão chamá-los.

TODOS os profissionais de revisão deveriam seguir essa página. É muito importante ter em conta o uso da língua, não apen...
01/03/2026

TODOS os profissionais de revisão deveriam seguir essa página. É muito importante ter em conta o uso da língua, não apenas as regras gramaticais.

O IRRESISTÍVEL PODER DA LÍNGUA EM USO
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Ao idealizar regras ou tentar preservar tradições normativas que condenam usos consolidados em língua corrente, corremos sempre o risco de contrariá-las apenas por exercermos o direito de usar a língua como ela é, e não como (alguns acham que) "deveria ser". Quando a regra é mero filtro das possibilidades legítimas de se expressar, adivinhe o que acontece...
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1) No Manual de Redação e Estilo do Estadão (3. ed., 1997), Eduardo Martins afirma que "junto com" é redundância e prescreve o uso apenas de "com":
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“JUNTO COM. Redundância. Use ‘com’, apenas: Os empresários participaram da iniciativa com (e não “junto com”) os sindicalistas. / Saiu com (e não ‘junto com’) o diretor.” (p. 153)
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É bem verdade que podemos fazer emprego apenas de "com" nesses contextos, mas o uso da preposição "com" associada ou não a "junto" é mera questão estilística; a locução "junto com", comum desde os tempos de Camões, nunca foi redundância viciosa nem obrigatoriamente descartável e tampouco condenada por gramáticos, sendo tão natural que o próprio autor acaba fazendo espontâneo uso dela nesse mesmíssimo manual:
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“[...] a consoante simples acompanhada da vogal que é pronunciada JUNTO COM ela: ma-ca-co, pe-sa-do, de-se-jo, pró-xi-mo, de-sen-ga-no, gra-má-ti-ca.” (p. 99)
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Depois Martins vai mais além, usando o então condenado “junto com” como exemplo de correção (!):
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“Pode ser 'junto a', 'junto de' ou 'JUNTO COM': Estava junto do pai. / As casas ficavam junto do mercado. / Construiu o edifício junto à estação. / SAIU JUNTO COM o tio. / Levei-os junto comigo.” (p. 152)
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2) Na 1ª (2013), na 2ª (2015) e na 3ª (2017) edição de sua apostila concurseira, Fernando Pestana prescreve a seguinte lição:
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"Omite-se o artigo definido antes dos possessivos [...] nas locuções com pronome possessivo (A MEU VER, EM MEU VER, A MEU MODO, A MEUS PÉS, EM SEU FAVOR, EM MINHA OPINIÃO, A SEU BEL-PRAZER, POR MINHA VONTADE etc.)"
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Trata-se de regra supostamente baseada no uso dos clássicos, idealizada por eruditos no século XIX, reforçada no século posterior e abraçada por certos autores contemporâneos, mas que nunca refletiu toda a realidade da tradição escrita (uma vez que os literatos portugueses e brasileiros sempre variavam entre o uso com e sem artigo). É, enfim, norma imposta por aí, mas tão artificial que Pestana contraria os próprios exemplos de correção citados em inúmeras ocorrências de sua gramática (como "EM minha opinião"), fazendo o uso com artigo que todo mundo faz. Algumas delas:
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"NA MINHA OPINIÃO, nenhuma banca deveria expor quaisquer polêmicas [...]" (p. 647)
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"Cuidado com o infinitivo que faz parte de uma locução verbal, mas vem distante do auxiliar ou este está subentendido, é incrivelmente (NA MINHA OPINIÃO) facultativo [...]" (p. 1030)
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"NA MINHA OPINIÃO, como existe uma 'melhor resposta' nesta questão que criei, e não éa letra C, [...]" (p. 1373)
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"Serei um homem mais sério AO SEU LADO" (p. 540)
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"AO SEU REDOR" (p. 915)
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"O aprendizado da Ortografia Oficial está AO SEU ALCANCE" (p. 108)
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"O fato de ter uma pessoa amiga AO MEU LADO em situações difíceis" (p. 689)
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O fato é que, em algum momento, Peste acabou descobrindo a seguinte advertência de seu mestre jedi Obechara Kenobi, que inclusive cita vários dos exemplos empregados pelo próprio professor concurseiro: "As duas formas [com e sem artigo] são CORRENTES e corretas. Sem o respaldo dos melhores escritores, tem-se ABUSIVAMENTE CONDENADO o emprego do artigo junto a possessivo em expressões do tipo AO MEU VER, AO MEU PEDIDO, AO MEU MODO, AO MEU LADO, AO MEU BEL-PRAZER etc." (Bechara, 2015, p. 164). Em seguida, o mestre jedi da gramática galáctica cita exemplos de literatos de diversas épocas usando essas expressões com e sem artigo (algo que, aliás, um lúcido filólogo de fins do século XIX já havia demonstrado, mas para o qual ninguém deu muita bola na época).
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Não deu outra: na 4ª edição (2019), o pestanudo apagou essa regra que nem ele mesmo seguia, não tocou mais no assunto e continuou fazendo o uso de sempre, com artigo.
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Como se pode notar, os casos acima mencionados NÃO são erros dos autores, que apenas fizeram uso – ainda que inconsciente – do que há de mais legítimo em língua portuguesa, contrariando certas regras artificiais que idealizavam.

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