23/06/2026
O léxico da embriaguez era riquíssimo no latim. Cambaleavam pela Roma Antiga o ebrius e o ebriosus (antepassados dos portugueses ébrio e ebrioso), o vinosus e o vinolentus (referentes à embriaguez com vinho), o crapulatus e o crapulentus (ancestrais do crápula português), o merulentus, o temulentus, potulentus, o madidus, o uvidus, o bibonius, o potus e o appotus. Alguns deles se tornaram célebres: Quinto Ênio, pai da poesia latina, só começava a escrever após encher o rabo de vinho; outro poeta romano, Catulo, celebrava a bebedeira na literatura e na vida real.
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Já no latim tardio e vadio, tornaram-se conhecidos o ebriacus, o inebriatus, o matus, o potionatus, o bibosus e o bibax. Mas foi de uma forma relacionada a bibitus, particípio de bibere ( = “bebido”), que se desenvolveu o português arcaico “bevedo”, que por sua vez evoluiu para “bêbedo” (séc. XIII). A variação de bêbedo para bêbado (séc. XV) pode ter se dado por mudança fonética ou por analogia com o sufixo -ado, que passou a ser mais produtivo que o -edo. Naquela mesma época, já circulava o bebarro de Gil Vicente.
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Hoje em dia, fica-se bêbedo em Portugal, mas nem tanto no Brasil, onde se prefere ficar bêbado, algo inadmissível para o gramático Napoleão Mendes de Almeida: “Por que não preferir bêbedo com ‘e’, forma legítima, quando com ‘e’ escrevemos beberagem, bebedeira, bebedouro, beberrão?”, resmungava.
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Alguns autores brasileiros – como Menotti Del Picchia, Gustavo Corção, Guilherme Figueiredo, Raquel de Queiroz e Aurélio Buarque de Holanda – concordavam com Napoleão e preferiam um bêbedo a um bêbado. Mas não Nelson Rodrigues, que avisava aos revisores de texto: “Segundo dizem, o certo é ‘bêbedo’, mas o ‘e’, em vez do ‘a’, esvazia a palavra de sua tensão dionisíaca. Portanto, peço à revisão que me deixe escrever errado’”.
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Entre bêbedos e bêbados, também havia bebidos. Sim, o particípio de beber também se embriagou:
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“O inglez não canta senão quando bebe... aliás quando está bebido.”
(Almeida Garret, Viagens na Minha Terra, 1843)
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“Elle chegou tão bebido que nada valia seu depoimento.”
(Livro Segundo das Actas da Igreja Presbyteriana da Bahia, 1892)
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“As vezes em que ele chegava da rua tão bebido que quase caía do cavalo, na minha mente aquilo era natural em homem.”
(Rachel de Queiroz, Dôra, Doralina, 1975)
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Também adquiriu o sentido de “que bebeu bem, que está satisfeito de bebida”, como nesse curioso trecho de Monteiro Lobato: “Homens gordos, bem comidos, bem bebidos” (Negrinha, 1920).
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Esse sentido bêbado de bebido não demorou muito para cair em desuso. Mas vários outros bêbados foram dando as caras. No século XV, chegou o beberrão, e no século XVIII, o beberrote, oriundos de beber. O bebaço, também derivado desse verbo, surgiu no início do séc. XX e era usado por Lima Barreto, que aliás assumia esse adjetivo frequentemente. No tempo desse escritor, também apareceu a redução de “bêbado”:
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“Tá bêbo, cabra!”
('Dona Guidinha do Poço', Manoel de Oliveira Paiva, 1892))
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“Não convém um bêbo cantá para um cachaceiro.”
('Repentistas e glosadores', F. Coutinho Filho, 1937)
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“[...] Mané Preto, que estava bêbo que só uma ticaca, criando ingrizia e fazendo barburim no açougue.”
('Brasil de chapéu-de-couro', Luiz Cristôvão dos Santos, 1954)
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“Seu bebê tá bêbo, amor.”
(Barões da Pisadinha, 2021)
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Mais adiante, nos anos 60, juntaram-se à mesa o bebão e o bebum, ampliando a roda no boteco, já formada por bêbedo, bêbado, bebarro, beberrão, beberraz, bebido, bebaço e bêbo. Mas o mais bêbado deles só daria as caras no anos 80: trêbado.
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Nelson Rodrigues dizia que “também se conhece um povo pelos seus bêbados”. O povo romano ficou conhecido por ébrios como Ênio e Catulo; o nosso, por bebuns como Lima Barreto, Mário Quintana, Vinícius de Moraes e Paulo Leminski. Em algum plano – etéreo ou etílico –, eles devem estar reunidos e tomando todas, sem se importar de que forma vão chamá-los.