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24/12/2025

Crônica de Natal

Hoje não quero falar de trabalho, carreira, inteligência artificial ou qualquer outro tema recorrente na nossa newsletter. Até porque, convenhamos, hoje ninguém está muito disposto a pensar em outra coisa que não sejam os preparativos para a noite de Natal.

Ainda assim, preciso aproveitar este espaço para uma breve crônica sobre o cotidiano da vida.

Ontem, no fim da tarde, fui ao shopping — não para comprar presentes, mas simplesmente para comer alguma coisa. Eu voltava de uma tarde estressante e profundamente triste. Passei o dia inteiro com minha mãe no hospital, onde ela está internada há alguns dias, sofrendo com as agulhadas constantes dos inúmeros acessos e cateteres. É doloroso ver alguém que sempre foi ativa, forte e exemplo de vida terminar seus dias nesse tipo de sofrimento.

Era exatamente esse o pensamento que me acompanhava quando, após um almoço tardio, me sentei para tomar um expresso. Totalmente absorto em reflexões sombrias, tentava, ali sentado, responder e-mails e me reconectar com esse mundo real que não para um minuto sequer.

Foi então que, de repente, sou interrompido por um golpe forte nas costas.

Viro-me rapidamente e me deparo com um lindo garotinho, de no máximo uns oito anos, olhando fixamente para mim. Notei de imediato que havia algo diferente naquele olhar: ao mesmo tempo vago e profundamente intenso.

Não vacilei em tentar alguma interação, quando a mãe do meu mais novo amiguinho, esbaforida, me pede mil desculpas. Digo que está tudo bem e continuo puxando conversa com ele. Nada. Nenhuma palavra. Apenas aquele olhar profundo.

Logo depois chega o pai, chamando a atenção do garoto e, ao mesmo tempo, também se desculpando. A essa altura, já era possível notar que Miguel era incapaz de se comunicar verbalmente comigo. Ficou claro que ele estava dentro do espectro autista.

Enquanto tentava processar essa constatação, percebo que Miguel estava literalmente lambuzado de chocolate, com vestígios de sorvete até nos cabelos. Parecia ter vivido um daqueles momentos de pura felicidade infantil.

E então meu novo amigo faz algo que, confesso, sempre me incomodou profundamente: com suas mãozinhas meladas de chocolate, toca a minha calva. Logo a minha calva!

Mas, desta vez, aquele gesto espontâneo não me incomodou. Pelo contrário: provocou um riso sincero. Os pais, novamente sem graça, pedem desculpas e tentam afastá-lo de mim. Faço um gesto com a mão, sinalizando que está tudo bem.

Para minha surpresa, Miguel não se contenta com o safanão nas costas e o toque na minha cabeça. Ele me tasca um abraço.

Mas não um abraço qualquer. Um abraço verdadeiro. Puro. Daqueles que há muito tempo eu não sentia.

O pai, cada vez mais desconcertado, pede desculpas mais uma vez e, com carinho, o afasta. Eu, ainda mais desconcertado do que ele, me levanto para ir embora e me despeço de Miguel. O pai estende a mão e, não sei bem por quê, ao me cumprimentar, agradece.

Sigo para o estacionamento ainda atordoado com o episódio. Entro no carro e deixo a ficha cair.

Por que Miguel me escolheu entre tantas pessoas? Teria sido por causa do meu celular, que chama tanto a atenção das crianças? Ou haveria um motivo mais especial?

Prefiro acreditar que, sendo um ser tão especial e hipersensível, Miguel percebeu, de alguma forma, a minha profunda melancolia. Não tenho dúvidas de que aquele safanão e, depois, aquele abraço inesquecível foram uma espécie de chamado à razão — como se ele quisesse me dizer algo sem usar palavras.

Mas o que tudo isso tem a ver com a nossa coluna semanal?

Tem muito a ver.

Se observarmos, nossos temas recentes têm sido angustiantes, falando em grande parte sobre o impacto da inteligência artificial em nossas carreiras e em nossas vidas. Sobre o medo de como esse “monstro”, esse novo “Leviatã”, poderá nos controlar.

A verdade é que não devemos temer o “monstro”, porque ele é artificial. Não possui sequer um resquício de humanidade. Por mais poderoso e assustador que seja, jamais será capaz de um ato afetuoso e revigorante como o olhar e o abraço do meu amigo Miguel.

Lembre-se: a IA é máquina. Nós ainda somos gente.

E, no final, o que sempre prevalece é aquilo que vem da alma — algo que as máquinas de hoje, e do futuro absolutamente tecnológico, jamais terão.

Feliz Natal e um 2026 pleno de humanidade.

Retornamos em janeiro.

Por Hilbernon M S Neto

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