16/06/2023
Há 15 anos trabalho com roteiro.
Pedi ao Chat GPT que criasse uma sinopse para um teatro musical com 5 personagens adolescentes, que tratasse do tema bullying. Em segundos, estava em minhas mãos uma sinopse. Podemos criticá-la, alegar que era previsível, cheia de clichês e lugares-comuns. Mas, fato é, a tarefa estava cumprida. E vamos combinar, as prateleiras estão cheias de produtos assim, e nem por isso, deixam de vender. O paladar médio se satisfaria com o resultado.
E o assustador é que a máquina tem ao seu dispor como matéria-prima toda a mitologia, com todos os seus arquétipos, com todos os verbos de ação do dicionário, em todos os tempos possíveis, em infinitos cenários pré-catalogados.
Conta ainda com estruturas já exaustivamente estudadas e que garantiram sucesso de bilheteria até aqui. Autores como Christopher Vogler, com sua Jornada do Escritor, baseada na Jornada do Herói, de Joseph Campbell, já descreveram a fórmula do cinema de sucesso há décadas.
E mais, a máquina ainda pode dispor de todos os roteiros de todos os filmes já feitos, selecionar apenas aqueles que foram premiados na Academia, de autores e diretores consagrados, e destes selecionar apenas aqueles que com bilheterias espetaculares.
E, alimentada por todos esses dados, ser capaz de produzir, em minutos, milhares de novos roteiros cinematográficos de 2h de duração, cumprindo com todas as regras de ouro de Hollywood.
Não duvido que alguns desses filmes se candidatassem com sucesso ao Oscar e rendessem muitos milhões de dólares de bilheteria.
Todo esse impacto está se tornando tão sério que já causou as primeiras greves de roteiristas. Logo nós, que sempre achamos que seríamos os últimos a ser substituídos por robôs, por nos pensarmos artistas criativos.
Tsk, tsk.
Taí, não éramos artistas e nem criativos. Apenas combinávamos dados e repetíamos fórmulas. Éramos piores do que as máquinas, pois elas certamente são mais eficientes - e baratas - ao fazer o mesmo.
Estamos frente a uma tremenda quebra de paradigma.