11/10/2026
A corrosão da democracia à luz do dia
O colapso da democracia no século XXI não se anuncia pelo barulho dos tanques. Como bem diagnosticaram Steven Levitsky e Daniel Ziblatt em Como as Democracias Morrem, a derrocada contemporânea é gradual, executada de dentro para fora pelas próprias engrenagens da legalidade.
Entender o cenário global — e o brasileiro — exige reconhecer a aplicação prática da guerra híbrida: uma estratégia que combina desinformação em massa, guerras culturais e a instrumentalização do ressentimento social. Sob a orientação de articuladores da extrema-direita global, como Steve Bannon, a política deixou de ser a arena do convencimento para se tornar um campo de batalha assimétrico. O objetivo central não é apenas vencer disputas eleitorais, mas corroer a confiança no pacto democrático.
Nesse tabuleiro, as instituições de controle viram alvos prioritários. Quando o Judiciário ou o Parlamento atuam como freios aos abusos, são imediatamente rotulados como o "inimigo". Os ataques sistemáticos ao Poder Judiciário e a tentativa de paralisar o Legislativo integram uma tática deliberada para retirar das instituições a capacidade de arbitrar o jogo político.
O aspecto mais alarmante dessa dinâmica é a sua ostentação. A pregação do medo, as teses conspiratórias e o incitamento à ruptura não ocorrem em porões clandestinos; acontecem à luz do dia, multiplicados pelas redes sociais. O medo é convertido em ferramenta de coesão, pavimentando o caminho para discursos autoritários que prometem ordem em meio ao caos que eles próprios ajudaram a cultivar.
Se no passado recente a contenção dependeu do contrapeso entre os Poderes, a linha final de defesa repousa hoje na sociedade civil. A soberania popular, fragilizada quando a informação é manipulada, só se reafirma pelo exercício pleno da cidadania.
Diante da ameaça de erosão das liberdades fundamentais, a abstenção e a apatia deixam de ser posições neutras e tornam-se aliadas do retrocesso. O voto consciente e a participação ativa no processo eleitoral continuam sendo as ferramentas mais poderosas do cidadão para impor limites ao autoritarismo e assegurar que o poder continue a emanar, de fato e de direito, do povo.
Prof. Dr. Marcos Martinelli