12/04/2022
O google fotos me lembrou que há onze anos eu e a Miriam Kajiki, éramos estudantes e ancorávamos barcos lá na antiga fonte seca do Ciclo Básico da Unicamp. Era abril de 2011 e nós havíamos sido contempladas no primeiro edital Aluno Artista da universidade pra fazer uma intervenção que se chamava “O Sertão Vai Virar Mar”, na qual instalamos cerca de 300 barquinhos de dobradura no antigo espelho d´água (sem água, rs), que f**ava no coração da universidade. Não sei por quanto tempo f**amos fazendo barquinhos, acho que por um mês seguido ou mais. E como era verão, eu e a Mi tínhamos um combinado - a gente se encontrava antes ou depois da chuva, que caía sagradamente todos os dias, pra dobrar os barcos. Eles eram grandes, feitos de um material que era tipo lona de banner porque, devido ao banho de chuva e de sol (que tomariam durante a exposição), precisavam durar mais do que um papel normalmente duraria.
Aquele espelho d´água vazio, onde ancoramos a instalação, era um lugar bonito. Tinha uma ilha de árvores no meio, era passagem dos estudantes, mas estava desativado já havia tempo. Então essa ideia de fazer algo no local foi topada junto. Eu e a Mi escrevemos nosso primeiro projeto, ganhamos, recebemos a verba pra concretizar, pesquisamos materiais, limpamos a fonte, testamos cores e tamanhos, trabalhamos como duas camelas - quando ainda trabalhar com arte pra gente era meio que ainda se descobrir como artista. Fizemos tanta dobradura de barco, que acho que meu cérebro bloqueou. Peguei trauma. Se me pedirem pra fazer um barquinho de papel hoje, de cabeça, eu não lembro...É possível?
Quando eu olho pra esse trabalho me orgulho muito de ter feito, e acho que a Mi também – acho que foi o primeiro trampo que senti que fiz algo grande e, o mais legal, foi que fizemos juntas (e contamos com a ajuda e colaboração de amigos que nos deram uma mão na limpeza da fonte e instalação dos barquinhos).
O sertão virou mar, pra um monte de gente que passava todos os dias pelo local. Meio como descobri, na prática, que arte, não fazemos somente para nós, mas que fazemos também para os outros. Tipo uma ponte de ideias e sentidos, entre artista e espectador.
Durante o mês que ficou exposta a intervenção desapareceram vários barquinhos dali, é claro – coisa que acontecia sempre depois das festas que rolavam. Então eu ouvia alguém dizer que lá, na república do fulano e da ciclana, tem um barquinho de vocês.
Um mês depois, logo quando desmontamos a intervenção, a universidade começou a reformar o espelho d´água e, ficou até parecendo que começaram a dar jeito na fonte porque havíamos feito a intervenção ali por aquele tempo. Tipo quando a gente dá um limpa na casa pra movimentar e sacudir a energia, sabe? Mas, a real, é que a reforma dali já estava prevista pela reitoria e, nós, só f**amos sabendo depois que ganhamos o projeto.
Então, isso já tem 11 anos, e esse local na universidade hoje deve ser outra coisa totalmente diferente além dessas fotos.
E navegar é preciso,
e viver
também é preciso.