10/02/2021
Mulheres, arte e psicanálise. Uma breve reflexão.
Ultimamente tenho sentido muita falta de passeios pela cidade, museus, cinema, teatro. Me peguei lembrando de uma exposição em especial. Acredito que essa lembrança tenha sido despertada pela preocupação com as mulheres a minha volta e as discussões sempre acaloradas sobre os feminismos. Em 2015 tive o prazer de visitar uma exposição muito interessante no Instituto Tomie Ohtake: “Frida Kahlo: conexões entre mulheres surrealistas do México”
Eu já era uma admiradora de Frida Kahlo e estava interessada em ver pela primeira vez suas obras originais. Na visita tive a grata surpresa de vir a conhecer outras grandes mulheres. Foi um grande encontro, não apenas com as pinturas dessas artistas, mas principalmente com a força da mulher presente no circuito do refúgio do surrealismo no México naqueles anos. O Surrealismo foi o primeiro movimento na história da arte a incitar a participação de mulheres. No entanto, apesar do fundamental passo, o que propunha não era exatamente cumprido: estas eram dificilmente convidadas a participar de importantes decisões do manifesto, além de serem frequentemente retratadas como objetos catalizadores da criatividade masculina. Essas artistas, portanto, passaram a trilhar seus caminhos sozinhas. Maria Izquierdo, Remedios Varo e Rosa Rolanda, mulheres de diferentes nacionalidades, encontraram na Cidade do México um ambiente fértil e seguro para suas trocas e produções distantes dos totalitarismos da Europa, encontraram refúgio para concretizar os mundos lúdicos e fantasiosos que pintavam. Em constante comunicação elas mantinham suas carreiras em paralelo com a pintura e através de suas obras expressavam a inquietude sobre o feminino, a mulher, suas lutas de inserção no ambiente sócio cultural da época. A visita suscitou-me a consciência de que o feminino se faz solidamente potente a partir da coletividade.
Foi muito importante perceber pelos documentos da exposição (cartas, relatos pessoais, vídeos e as obras de arte, é claro!) que seus talentos e criatividade estavam profundamente ancorados na amizade cultivada entre elas. Evidências que de uma ou outra maneira todas ajudaram no crescimento profissional umas das outras. A amizade pareceu ter sido fundamental para que a arte dessas mulheres tivesse lugar no mundo. Escolhi uma das telas para ilustrar a reflexão e com ela abrir algumas perguntas... deixo aqui a sugestiva tela de Remedios Varo “Mulher saindo do psicanalista”.
Somos conscientes da força e potência das mulheres quando reunidas em torno de objetivos comuns na sociedade, na cultura e no campo de trabalho? Deixamos que a lógica competitiva e destrutiva incentive a rivalidade nociva entre mulheres nesses campos? Como cuidar de nossas relações e fortalecê-las?
Vemos na cena, como o nome da obra diz, de uma mulher que acaba de sair do consultório de seu psicanalista, com uma pequena cesta cheia de objetos simbólicos. Na altura do pescoço, como parte de sua vestimenta, aparece uma espécie de máscara, sugerindo uma outra versão de si mesma. A obra está carregada de simbolismos e muitos críticos atribuíram a eles vários significados. Cabe a cada uma de nós poder conhecer nossas muitas versões...narrar nossas histórias entrelaçadas com a história de tantas mulheres, do passado, do presente, para um futuro.
A psicoterapia psicanalítica é um convite para que possamos viver a partir de nós mesmas. Um convite para sustentar o feminino, individual e coletivamente. Preocuparmos umas pelas outras. Cuidar da rede que nos sustenta e que paradoxalmente ajudamos a sustentar.
Arte, psicanálise e luta feminista se faz com cuidado, trabalho e amor.
Camila T. Alvim é psicóloga na Casa do Jasmim