04/08/2026
Vi uma campanha do O Boticário outro dia que me deixou incomodado. Não porque fosse ruim. Mas porque era boa demais. Mostrava pais e filhos criando trends juntos no TikTok, dançando bobagens, rindo de besteira. O perfume mal aparecia. O que eles estavam vendendo era outra coisa: tempo compartilhado.
A King&Joe foi na mesma linha. "Existem heranças que valem muito mais que ouro." E de novo, o presente não era o relógio. Era o momento de dar o relógio. A conversa que acontece naquela hora. O olhar. A presença.
Li uma matéria sobre isso recentemente. Dizia que as grandes marcas descobriram algo em 2026: ninguém quer mais só produto. As pessoas querem tempo. Querem presença. Querem estar com quem importa, sem pressa, sem celular vibrando na mesa, sem mente dividida entre dez lugares ao mesmo tempo.
E aqui está o que me atravessou como uma facada: enquanto essas marcas vendem presença como o ativo mais valioso do mercado, eu — que trabalho com marketing, que ajudo empresas a se comunicarem melhor — estava completamente ausente da minha própria vida.
Semana passada levei minha filha no parque. Ela queria andar de bicicleta. Fomos. Mas eu não fui de verdade. Meu corpo estava lá, empurrando ela quando a bike perdia equilíbrio, segurando quando precisava. Mas minha cabeça estava no email que precisava enviar até o final do dia, na proposta que ficou pela metade, no cliente que não tinha respondido ainda e que eu sabia que ia cobrar.
Em algum momento ela parou a bicicleta, olhou para mim com aqueles olhos de criança que vê tudo, e perguntou: "Pai, você tá triste?"
Não, filha. Eu só não estou aqui.
E aquilo me destruiu. Porque percebi que eu tinha virado especialista em ausência. Estava fisicamente presente em tudo e mentalmente presente em nada. Na reunião com cliente, pensando no próximo projeto. No jantar com a família, olhando o celular a cada dois minutos. No parque com minha filha, resolvendo trabalho dentro da cabeça.
Eu tinha me tornado exatamente o oposto do que aquelas campanhas vendiam.
As grandes marcas entenderam algo que a gente deveria ter entendido faz tempo: presença virou o diferencial competitivo do século. Não é mais sobre ter o melhor produto. É sobre criar experiências que as pessoas lembrem. Momentos que importem. Conexões reais que durem mais que o produto em si.
E enquanto elas descobrem isso em pesquisa de mercado e investem milhões em campanhas sobre "estar junto", você — empreendedor, profissional liberal, consultor, terapeuta — está construindo um negócio que te rouba exatamente isso.
Você vende seu tempo por dinheiro. Consultoria, atendimento, sessão, reunião. Hora por hora. E no final do mês, quando a conta fecha e você olha para trás, percebe que não tem tempo para nada. Não para a família. Não para os amigos. Não para uma conversa longa sem pressa. Não para f**ar em silêncio só pensando.
Muito menos para estar realmente presente em alguma coisa.
Tem uma contradição que precisamos encarar: você trabalha 50, 60 horas por semana. Mas quantas dessas horas você estava REALMENTE presente? Não no piloto automático. Não fazendo uma coisa e pensando em três. Mas ali, inteiro, focado, vivo naquele momento?
Eu comecei a me fazer essa pergunta e a resposta me assustou. Porque percebi que podia trabalhar o dia inteiro e não estar presente em nenhum minuto. Estava executando. Estava resolvendo. Mas não estava ali de verdade.
Os japoneses têm um conceito lindo para isso: ichi-go ichi-e. Signif**a "um encontro, uma oportunidade". A ideia de que cada momento é único e não vai se repetir. Aquele jantar com sua família hoje? Único. Não vai voltar. Aquela conversa que você vai ter amanhã com um amigo? Irrepetível. Aquele cliente que você está atendendo agora? Essa é a única vez que esse momento existe.
Você pode estar ali, inteiro, construindo algo real. Ou pode estar dividido, desperdiçado, apenas passando.
E quando você só passa, não constrói nada. Não constrói memória. Não constrói relação. Não constrói legado. Constrói apenas cansaço.
Sêneca, filósofo estoico, disse algo que me persegue: "Não é que temos pouco tempo. É que perdemos muito dele."
E a gente perde de um jeito muito específico: dividindo atenção. Você está com o cliente, mas pensando no próximo. Está na reunião, mas checando email. Está com a família, mas resolvendo trabalho na cabeça. Está em todo lugar e em lugar nenhum ao mesmo tempo.
As grandes marcas descobriram que presença gera conexão mais profunda que desconto. Que experiência dura mais que produto. Que as pessoas lembram de como você as fez sentir, não do que você vendeu.
E você? Está construindo o quê? Relações ou transações? Presença ou apenas atividade? Memórias ou só resultados financeiros?
Criei um exercício para mim mesmo que chamo de Auditoria de Presença. Faço todo domingo à noite, com um caderno e cinco minutos de honestidade.
São três perguntas simples:
Primeira: Liste até cinco momentos da última semana que você consegue lembrar com clareza. Conversas, situações, decisões. Coisas que f**aram. Se você trabalhou 50 horas e só consegue listar dois momentos, algo está errado. Você não estava presente. Estava operando no automático.
Segunda: Quantas horas você passou com atenção dividida? Trabalhando e pensando em outra coisa, com a família e olhando celular, na reunião e checando notif**ação. E quantas horas você passou inteiro, fazendo uma coisa só, presente de verdade? A segunda coluna precisa crescer. Se não cresce, você está construindo ausência.
Terceira: Liste três pessoas — trabalho ou vida pessoal — com quem você quer construir relação mais profunda. E marca na agenda: quando você vai ter uma conversa real com cada uma? Não "vou ligar quando der". Marca. Agenda. Protege. Porque se você não protege presença, ela desaparece.
Esse exercício me mostrou algo que eu não queria ver: eu estava trabalhando 12 horas por dia, mas vivendo no máximo duas. O resto era piloto automático. Execução sem consciência. Movimento sem presença.
E aqui está a coisa: as grandes marcas entenderam que experiência vale mais que produto porque experiência f**a. O produto acaba. Mas aquele jantar que você teve com seu pai, aquela conversa que mudou sua vida, aquele momento em que seu filho te olhou e você estava REALMENTE ali — isso dura para sempre.
Você está construindo experiências ou está apenas executando tarefas?
Você está cultivando relações ou está acumulando transações?
Você está presente na própria vida ou está apenas administrando ela de longe?
Então aqui vai meu convite para esta semana. Não são dez coisas. São três. E não são fáceis. Mas são necessárias.
Primeira: Faça a Auditoria de Presença. Responde: momentos nítidos da semana, tempo dividido versus tempo inteiro, relações que importam. E olha o resultado com honestidade.
Segunda: Escolha uma pessoa — trabalho ou vida pessoal — para ter uma conversa real esta semana. Não reunião. Não "alinhamento". Conversa. De pelo menos 30 minutos. Sem celular na mesa. Sem pressa de terminar. Só presente.
Terceira: Identifique um cliente que te drena. E pergunte para você mesmo: por que eu ainda atendo essa pessoa? Se a resposta for "porque preciso do dinheiro", tudo bem. Mas agora faz outra pergunta: quanto dinheiro eu preciso ganhar para poder dizer não para quem me suga? E começa a construir esse número.
Porque enquanto você não tem escolha, você não tem liberdade. E sem liberdade, não tem presença.
Vou terminar com algo que me incomoda: as grandes marcas estão vendendo presença como diferencial porque descobriram que é isso que as pessoas mais querem.
Enquanto isso, você — que trabalha com comunicação, que ajuda empresas a se conectarem melhor — está vivendo o oposto disso. Está construindo um negócio que te rouba o tempo de estar presente.
Você vende resultado, mas não tem tempo de viver o seu. Você fala de conexão, mas não se conecta de verdade com ninguém. Você ensina estratégia, mas esqueceu de planejar a própria vida.
Eu também. Não estou falando de cima. Estou falando do chão, junto com você. Porque eu também acordo às vezes percebendo que passei a semana inteira ocupado, mas vazio. Trabalhando muito, mas construindo pouco. Presente fisicamente em tudo, mentalmente em nada.
Mas a diferença entre afundar e nadar é simples: acordar enquanto ainda há tempo.
As marcas aprenderam que presença é o ativo mais valioso. Talvez esteja na hora de você construir um negócio que te devolve isso, em vez de roubar.
Um abraço,
Edson Egilio
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