25/05/2026
𝗤𝘂𝗲𝗿𝗲𝗺𝗼𝘀 𝘃𝗶𝘃𝗲𝗿 𝗺𝗮𝗶𝘀, 𝗺𝗮𝘀 𝗻𝗮̃𝗼 𝗾𝘂𝗲𝗿𝗲𝗺𝗼𝘀 𝘃𝗲𝗿 𝗮 𝘃𝗲𝗹𝗵𝗶𝗰𝗲.
Essa contradição tem nome, e está moldando nossas cidades de forma cruel. Você já ouviu falar do NIMBY? (Not In My Backyard — "Não no meu quintal")
Em 1969, o geriatra norte-americano Robert Butler cunhou o termo ageism (etarismo) ao presenciar moradores do nobre bairro de Chevy Chase, em Washington, protestando contra a criação de moradias para idosos de baixa renda. O argumento da vizinhança na época era de que a presença daquelas pessoas desvalorizaria a região. Butler percebeu ali que os argumentos usados contra os idosos eram cruelmente semelhantes aos do racismo e do sexismo.
Corta para maio de 2026. Bairro da Lapa, em São Paulo.
Moradores vizinhos a uma Instituição de Longa Permanência para Idosos (ILPI) instalaram caixas de som direcionadas para a casa de repouso, tocando rock pesado em alto volume para perturbar os residentes. Em vídeo, uma moradora resume o sentimento: "As pessoas não querem a nossa rua cheia de casa de repouso, entendeu? Isso faz nossos imóveis desvalorizarem."
O desfecho? A gestão municipal cedeu à pressão e expulsou as casas de repouso da região.
Mais de cinco décadas separam Chevy Chase da Lapa. O idioma mudou, a geografia mudou, mas o padrão estrutural permanece intacto. A sociedade não aprendeu com o passado; apenas refinou suas justif**ativas.
Isso tem nome: é o fenômeno NIMBY (Not In My Backyard — "Não no meu quintal") aplicado à velhice. Queremos que a longevidade exista, desde que seja invisível. Desde que fique bem longe dos nossos olhos, da estética das nossas ruas e do valor do nosso metro quadrado.
Quando o poder público legitima esse tipo de pressão sob o manto da "gestão urbana", ele não está organizando a cidade. Ele está institucionalizando o etarismo. Estamos segregando as pessoas longevas, empurrando-as para a periferia social e física, como se o envelhecimento fosse uma patologia urbana a ser erradicada.
A ironia trágica desse comportamento é que a mesma vizinhança que hoje expulsa uma ILPI é a que amanhã precisará de uma. Ao desumanizarmos o envelhecimento alheio hoje, pavimentamos o caminho para a nossa própria exclusão amanhã.
Uma cidade que trata seus cidadãos mais velhos como "prejuízo imobiliário" é uma cidade que faliu moralmente.
Como você enxerga essa segregação do envelhecimento nos nossos espaços urbanos e corporativos? Estamos realmente preparados para a longevidade ou apenas fingimos tolerá-la até que ela bata à nossa porta?
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