27/01/2023
Como disse o antropólogo, historiador e sociólogo brasileiro Gilberto Freyre em Casa Grande & Senzala: ''Diversos outros valores materiais, absorvidos da cultura moura ou árabe pelos portugueses, transmitiram-se ao Brasil (...) Também o conhecimento de vários quitutes e processos culinários; certo gosto pelas comidas oleosas, gordas, ricas em açúcar. O cuscuz, hoje tão brasileiro, é de origem norte-africana’’, resumindo numa síntese o que alguns arabismos de emblemáticos pratos nordestinos destacam. Como por exemplo:
Cabidela: Prato comum em algumas regiões de Portugal e no Nordeste brasileiro, a cabidela ou ''galinha cabidela'' é outra herança gastronômica medieval do período mouro ibérico. Seu nome deriva do árabe ''Kibdiyya' ou ''figadal', visto que kibd em árabe significa literalmente ''fígado'', que era o ingrediente principal da antiga receita junto a outros miúdos da galinha servidos com molho. No entanto a receita original obedecia as normas halal do Islã e não era feita com molho de sangue, sendo esta uma adição e alteração posterior.
Alfenim: A palavra alfenim vem do árabe «al-fenid» e significa aquilo que é branco, alvo, ou como os falantes de árabe em al-Andalus denominavam os pequenos doces de açúcar produzidos após o refino, que eram transmutados em formatos zoomórficos. Ele constituiu um dos primeiros elementos mouriscos da gastronomia brasileira inicial, sendo a sua divulgação facilitada com a produção de cana-de-açúcar.
Charque: Termo derivado do árabe ‘’ax-xarq’’, designa o processamento da carne bovina cortada em tiras, salgada e seca ao sol ou ao fumeiro. Tal qual a cana de açúcar, a charque foi fundamental para os círculos econômicos do Brasil Colônia, principalmente na região Sul, tendo se originado no Nordeste do Brasil.
Cuscuz: Prato de origem amazigue do Magrebe norte-africano, chegou à al-Andalus com a conquista árabe e suas tropas berberes. Descrito na poesia de Abū Abdallah Ibn al-Azrak como ‘’prato nobre e distinto’’, o cuscuz era feito originalmente de sêmola, porém, na falta de seus ingredientes mediterrâneos, passou a ser produzido com o abundante milho americano, seguindo o mesmo processo que em seu berço de origem.
Tareco: Termo derivado do árabe tarayk, ou ‘’coisa de pouco valor’’, é um pequeno biscoito de consistência firme, feito de farinha de trigo, ovos e açúcar, O tareco é um dos doces mais antigos de origem imemorial da culinária nordestina, iniciando sua difusão brasileira no estado de Pernambuco.