11/12/2025
O mercado brasileiro de microcervejarias em 2025
A trajetória das microcervejarias no Brasil segue o movimento iniciado nos Estados Unidos, na década de 1970, quando os consumidores se mostraram cansados das cervejas tradicionais, produzidas em grandes quantidades, e ansiavam por produtos diferenciados, que atendessem as suas necessidades.
A primeira microcervejaria brasileira pode ser considerada a Bavarium Bierpark, fundada em Curitiba – Paraná, em 1986. Funcionava como um brewpub, onde a cerveja estava associada à gastronomia.
A evolução do mercado
No ano de 2000, o Brasil possuía cerca de 40 estabelecimentos registrados. Em 2024, já tínhamos cerca de 1.949 estabelecimentos, o que representa um crescimento de 4.772%.
O segmento de cervejas especiais (“premium”) é o que mais cresce no Brasil e a maior parte deste crescimento foi promovido pelas microcervejarias. Os grandes grupos cervejeiros se aproveitaram desta abertura de mercado e logo começaram a trazer as suas marcas internacionais, primeiro como cervejas importadas, depois com produção local.
As cervejas especiais (também chamadas de “premium) estão se tornando componente obrigatório dos cardápios dos estabelecimentos ligados à gastronomia. O que antes era espaço ocupado quase que exclusivamente pelo vinho, agora é compartilhado com dezenas de estilos de cervejas diferenciadas, de baixa e alta fermentação, claras e escuras, mais encorpadas ou mais leves.
Tal aumento de interesse e visibilidade se deve ao aumento da demanda dos consumidores brasileiros por estas cervejas diferenciadas, que cada vez mais tem ocupado espaço na mídia, nas prateleiras dos supermercados e nas mesas de bares e restaurantes.
Brasil – O terceiro maior produtor mundial de cerveja
O Brasil ocupa hoje a terceira posição mundial na produção de cerveja, com produção de 14,74 bilhões de litros, atrás apenas da China (34,1 bilhões de litros) e Estados Unidos (18,45 bilhões de litros), superando o México (14,49 bilhões de litros) e a Rússia (9,0 bilhões de litros). O consumo per capita/ano no Brasil encontra-se em torno dos 67 litros.
Os 10 maiores países produtores mundiais de cerveja (2024)
Posição País Volume (milhões de hl) % produção mundial
1 China 341 18,2
2 Estados Unidos 184,5 9,8
3 Brasil 147,4 7,9
4 México 144,9 7,7
5 Rússia 90,8 4,8
6 Alemanha 83,9 4,5
7 Japão 44,8 2,4
8 Espanha 41,3 2,2
9 África do Sul 37,0 2,0
10 Reino Unido 36,1 1,9
Fonte: Barth Hass Report 2025
A distribuição das cervejarias no Brasil
A região Sudeste segue liderando com o maior número de cervejarias no país, com um total de 889 cervejarias (45,6% do total), seguido do Sul - com 774 cervejarias (39,7%), Nordeste - com 148 cervejarias (7,3%), Centro Oeste - com 99 cervejarias (5,1%) e o Norte - com 45 cervejarias (2,3%).
O estado de São Paulo segue liderando como a unidade da federação com maior número de cervejarias registradas, com 427 estabelecimentos. Santa Catarina é a unidade da federação com maior crescimento absoluto no número de estabelecimentos em relação a 2023, apresentando um aumento de 25 cervejarias, o que representa um crescimento de 11,1% para o estado.
O mercado brasileiro de cervejas especiais
Em 2000, ou seja, há 25 anos atrás, o Brasil já contava com cerca de 40 microcervejarias. Muitas destas microcervejarias produziam as suas cervejas dentro de estabelecimentos voltados para o entretenimento ou associadas à gastronomia. Na época, o consumidor brasileiro ainda não cultivava o gosto por cervejas diferenciadas, preferindo cervejas com características próximas das industrializadas.
O portifólio de produtos não era tão amplo com o atual, porém já havia cervejas Stout, Red, Light, Lambic, Bock, Amber, Weizen e cervejas claras, de baixa fermentação, mais encorpadas e com teor de amargor variado.
Também se criou o hábito de não filtrar algumas cervejas, o que inicialmente causou estranheza nos consumidores, acostumados a beberem apenas cervejas filtradas.
Esta mudança de hábitos de consumo exigiu muito esforço por parte das microcervejarias e brewpubs, uma vez que não havia o hábito e cultura de se apreciar outros estilos de cerveja que fossem diferentes das Lagers industriais.
Atualmente, os estilos de cerveja de fermentação Lager (Lager Leve Clara, Pilsener e outras Lagers), representam 99,63% do volume de produção de cerveja declarado.
Os estilos Malzbier e IPA, representam, respectivamente, 0,3% e 0,2% da produção brasileira.
Outro dado interessante é o crescimento das cervejas sem álcool (ou desalcoolizadas) e com baixo teor alcoólico.
O volume de produção declarado para a cerveja sem álcool observou o incrível aumento de 536,9%, partindo de 118.924.317,44 litros em 2023, quando representava apenas 0,8% do volume total de cerveja, para 757.444.322,53 litros em 2024, representando 4,9% do volume de cerveja brasileiro.
Isso pode indicar uma mudança no perfil de consumo.
Perspectivas futuras
Como quase todos os setores hoje, as cervejarias estão passando por um período de mudanças radicais, promovidas por crises globais, mercados voláteis, guerras comerciais e mudanças no comportamento do consumidor. Esse cenário apresenta grandes desafios para os produtores de matérias primas, comerciantes e cervejeiros em igual medida.
Os eventos climáticos extremos estão afetando cada vez mais as safras de matérias primas (malte, lúpulo). Os custos de produção estão aumentando e as vendas de cerveja estão abaixo das expectativas em muitos mercados. Isso afeta diretamente todos os elos da cadeia de produção – da plantação até a cervejaria.
A produção mundial de cerveja apresentou um declínio mínimo de aproximadamente 6 milhões de hl (-0,3%) em 2024, levando a produção total a 1.875 milhões de hl. Além disso, as taxas de lupulagem estavam em declínio, o que resultou em uma demanda por lúpulo 1% menor.
A tendência de aumento das cervejas comuns e das variantes sem álcool e com baixo teor alcoólico continuou em 2024. Isso explica em parte a queda na taxa média de lupulagem por hectolitro.
Uma diminuição na dosagem média de lúpulo pode ser observada até mesmo no segmento de cervejas artesanais (devido ao uso crescente de produtos de lúpulo mais eficientes e a uma mudança nos estilos), com a adoção de estilos tradicionais de cerveja de baixa fermentação (cervejas Lager), que exigem apenas o uso moderado de lúpulo.
Esse desenvolvimento não é apenas evidente nos Estados Unidos, mas está surgindo como uma tendência internacional.
Além da tendência por cervejas mais leves, outros fatores estão contribuindo para a queda na demanda por lúpulo, especialmente nos países ocidentais (produtores tradicionais de cervejas).
Dentre esses fatores, podemos citar o envelhecimento das populações, as novas tendências de consumo combinadas com uma variedade signif**ativamente maior de bebidas e, não menos importante, uma queda do poder aquisitivo em um ambiente inflacionário.
Também existe o risco de que o aumento das tensões geopolíticas e das disputas comerciais iniciadas pelos Estados Unidos pressione ainda mais o comportamento do consumidor e complique cada vez mais o comércio internacional.
O cenário permanece extremamente desafiador, com uma indústria cervejeira tendo que lidar com um aumento dos custos de produção devido à energia, materiais e mão de obra. E em alguns casos, com uma queda na demanda, com consumidores cada vez mais conscientes com relação aos custos e ávidos por preços baixos no mercado.
Devido a esse cenário, tanto as cervejarias quanto os comerciantes e os consumidores finais estão sob enorme pressão econômica. E baseado nisso, podemos esperar uma queda perceptível no número de cervejarias em operação.
Fontes:
- Anuário da Cerveja 2025 - MAPA
- Bath Haas Report 2024-2025
Matthias Rembert Reinold - Mestre Cervejeiro Diplomado (Diplom-Braumeister – V.L.B – T.U. Berlin)