03/04/2019
Sobre a morte e o morrer em poesia.
Autonomia
Em perigo, a holotúria se divide em duas:
Com uma metade se entrega à voracidade do mundo, com a outra foge.
Desintegra-se violentamente em ruína e salvação, em multa e prêmio, no que foi e no que será.
No meio do corpo da holotúria se abre um abismo
Com duas margens subitamente estranhas
Em uma margem a morte, na outra a vida
Aqui o desespero, lá o alento.
Se existe uma balança, os pratos não oscilam.
Se existe justiça, é esta.
Morrer só o necessário sem exceder a medida.
Regenerar quanto for preciso da parte que restou.
Também nós, é verdade, sabemos nos dividir.
Mas somente em corpo e sussurro interrompido.
Em corpo e poesia.
De um lado a garganta, do outro o riso
Leve, logo sufocado.
Aqui o coração pesado, lá non amnis morriar,
Três palavrinhas ap***s com três p***s em voo.
O abismo não nos divide.
O abismo nos circunda.
( Szymborska, 1972/2016, p. 143)