25/01/2019
Lutoterapia
{A NECESSIDADE DE SE HUMANIZAR A CHEGADA E, TAMBÉM, A PARTIDA!}
A IMPORTÂNCIA DA HUMANIZAÇÃO EM CASOS DE ÓBITO FETAL
- Relato de Cindy Anjos -
Eu me apaixonei pela humanização fazem uns 10 anos, sempre acreditei que era o melhor e que quando engravidasse seria assim que nasceria meu [email protected] tudo em teoria e naquele 15/set eu comecei a entender na pele a real importância da humanização.
Quando o coraçãozinho da Amélie parou, nosso chão se abriu e ter um profissional humano e competente fez da pior notícia do mundo um momento de respeito, total respeito, ele desligou o ultrassom, disse que sentia muito, nos olhou nos olhos, saiu da sala e nos deixou sozinhos, ligou pra médica, enfatizou o quanto era melhor a indução do parto, me senti acolhida em meio ao caos, Dr Leandro Lopes o meu muito obrigada.
Ai sai do ultrassom sem chão, minha irmã ali tentando ver qual era a proxima etapa daquele pesadelo terrivel, ligou para as parteiras e fui acolhida de novo, Letícia foi nos encontrar, nos explicou todo processo da indução e me preparou pra bebê que eu ia receber, e isso me deu paz em meio ao caos, mudou a minha visão da bebê que iria nascer e foi de extrema importância pra receber a Amélie em paz.
Fui pra casa, minha irmã (que preciso dizer que é a pessoa mais incrível do mundo) não saiu do nosso lado, ela que avisou a família e me deu suporte pra encarar uma internação, pesquisou em como tornar esse momento menos traumático e não soltou a minha mão.
No dia seguinte fui pro hospital e a Isa estava me esperando para fazer a internação comigo, não ia fazer diferença na internação, mas ela estava lá me dando apoio e foi a Isa que me acompanhou na maior parte da indução, eu não sentia mais medo porque estava nas mãos de quem confiava.
Eu não tinha fechado com medica ainda, e a médica que eu tinha escolhido estava de férias, e chegamos na Ana Paula Portela que não me conhecia, mas foi tão querida desde que descobrimos que as coisas não estavam bem.
Indução comecou dia 17/set, comprimidos me fizeram contrair, mas não dilatar e optamos por indução mecânica com balão de foley, Ana e Isa dia todo comigo, a noite a Lê foi me acompanhar...e sentia tranquilidade em meios ao caos, o olhar de humano e com tanto respeito daquelas mulheres me dava segurança, eu sabia que ninguém estava com pressa, que eu era a protagonista e que elas iam me ajudar, ver as enfermeiras entrando e perguntando como estava a dilatação só me fez entender que no plantão do hospital eu não teria durado um plantão sem cair numa cesária totalmente desnecessária.
Aline e o Tharcus revezaram para me fazer companhia, e eu tinha ali minha base, meu apoio... A indução foi longa, mas Amélie finalmente chegou, teve lágrimas pela sala, teve amor e teve respeito, e eu sei que foi um privilégio e ter uma equipe mudou minha vida.
Preciso falar também como é o atendimento em uma das maiores maternidades de São Paulo, médica plantonista queria fazer exame de toque na admissão e não gostou nada da recusa, do ultrassonografista que tinha que confirmar o laudo e aumentou o volume quando estava no coração dela (me fez ouvir o som do vazio na maior frieza possível), da enfermeira que queria me deixar no pré parto com as outras mulheres (mesmo a equipe conversando e explicando a situação) e fez cara feia quando recusei, das muitas enfermeiras que não respeitam e entram a todo momento na sala, chamando médicos em voz alta (até mesmo na madrugada, quarto apagado e eu dormindo), da maldita anestesista que me colocou no protocolo de sepse e me disse que eu ia entrar sim no protocolo e ter acompanhamento a cada hora porque podia ser uma infecção minha que matou a minha filha, ela me disse de maldade, uma profissional de dar nojo que nem se deu ao trabalho de olhar meu prontuário antes de jogar a culpa pela morte dela em mim... agora imaginem se eu tivesse ficado por conta do hospital como teria sido um pesadelo?
Quando eu falava em humanização eu nunca tinha focado nesses casos, e quando o bebê não tem mais vida, qual atendimento essas mulheres tem?
E é um atendimento péssimo, desumano e cruel, eu leio tantos relatos que me dão arrepios, mulheres em processo de ab**to sem atendimento porque o médico acha que ela provocou o ab**to (e se tivesse provacado? ela merece atendimento!), cesária desnecessária a rodo, o ultrassonagrafista que não tem cuidado ao dar a notícia, pela equipe que não enfatiza pra família o quanto pegar o bebê é importante (tem hospitais que proibem, seu bebê nasce e levam ele sem te entregar, e li sobre um caso que o bebê nasceu a enfermeira foi buscar assim que nasceu com um s**o de lixo mão), da importância de separar essa mulher das outras e de colocar ela em um quarto separado até a saída do hospital, de casos de óbito não investigados (li diversos casos de causa da morte ser por cordão no pescoço e nós sabemos que bebês não morrem por isso) é tirar daquela família uma resposta, uma tranquilidade em uma próxima gestação.
PRECISAMOS OLHAR PARA ESSAS MULHERES, ELAS EXISTEM!
Meu processo de luto tem sido mais leve porque eu tive um atendimento incrível, eu vi minha filha, ninei, peguei mecha de cabelo, carimbo do pé, fotos, carimbo da placenta e eu só tenho essas memórias porque quem estava ao meu lado sabia da importância dessas memórias.
Até quando vamos nos calar?
Meu muito obrigada a Dra. Lilian Lopes da ecokid e Dr.Leandro Lopes do laboratório Cura que nos deu um diagnóstico, a Mamatoto Parteiras Urbanas especialmente a Letícia Ventura e Isabele Ruivo que foram incríveis e ainda estão sendo, a Ana Paula Portela que foi uma obstetra incrível e ao Alexandre Coimbra Amaral que tem me ajudado nesse processo, vocês são incríveis e eu nunca vou lembrar de vcs sem sentir aquele quentinho no coração, OBRIGADA!