07/04/2016
Creio que essa história seja muito interessante principalmente para os engenheiros automobilísticos que se formaram pela FEI / SBC após 1988, pois foi sem dúvida, uma das coisas que pude realizar e que tenho o maior orgulho de ter feito.
Tudo começou no início de agosto de 1987, onde, no final da tarde de uma sexta-feira, recebi um telefonema do Eng. Fernando Bressiani, um ex-professor a quem devo bastante, referência no campo de ruídos e vibrações, que naquele momento ocupava o cargo de chefe da cadeira de “Mecânica I” da FEI, chamando-me para uma reunião emergencial ainda para o final daquele dia e eu claro, prontamente o atendi, chegando à faculdade por volta das sete horas da noite.
O motivo desta reunião era porque ele precisava de um professor de Carroceria para o curso de Mecânica Automobilística, só que haviam dois problemas sendo, o primeiro é que a primeira aula seria para a manhã do sábado, ou seja, menos de 12 horas após o meu aceite e o segundo, esse sim me deixou muito triste e preocupado, era que segundo ele, haviam doze alunos para aquela turma, apenas dois inscritos para a turma seguinte e nenhum inscrito para a próxima, indicando que, assim como o curso de Ar Condicionado, o curso de Automobilística, até então único no Brasil com formação comercial, não militar, estava para ser extinto por falta de alunos.
Em contrapartida à péssima notícia e a situação que ele estava me expondo, apenas pedi que me desse liberdade e “carta branca” para que eu fizesse qualquer coisa que achasse importante ser feito. A partir daquele momento e para meu espanto, ele disse sim, desde que não precisasse de dinheiro e desejou-me boa sorte. Deste modo, na manhã do sábado, cheguei cedo à FEI como o novo professor de Carroceria, chefe da cadeira de Mecânica Automobilística e com um monte de ideias e coisas para serem feitas, que foram aparecendo durante aquela longa madrugada, praticamente em claro.
Minha primeira ação foi encontrar-me com os professores que já estavam lá, com o objetivo de motivá-los, pois eram excelentes profissionais na indústria, professores capacitadíssimos, como meu amigo Daro Marcos Piffer, Edson Esteves, Paulo José Adamo, Oswaldo Garcia, Valberto Ferreira da Hora, entre outros, que mais tarde também fizeram parte desta história, e eu sabia que não teríamos sucesso, se não tivéssemos uma equipe unida, de ponta e todos eles eram de ponta, apenas desmotivados pelo momento trágico que passava o curso naquele momento.
Minha segunda providência era o de ocupar alguns espaços vagos no corpo docente, em cadeiras inexistentes, com pessoas de alto nível técnico e com o mesmo foco que eu tinha, ou seja, fazer o melhor para a sobrevivência do curso, um ícone como formação de profissionais para o campo da mobilidade. Assim, com um convite sem muito a oferecer, trouxe para o time, meus grandes companheiros de outras jornadas, profissionais do mais alto nível, atuantes e respeitados na indústria, cada um no seu campo de atuação, como Rubens Okazaki, Ricardo Bock e a presença voluntária de Paulo Roberto dos Santos, em aulas spot de Design de Veículos.
Enfim as aulas começaram, as grades de matérias foram acertadas, mas faltava ainda alguma coisa para dar sustentabilidade e impulso à tudo aquilo que estávamos construindo e aí, tive a ideia que, somadas à outras ideias do grupo, possibilitou o nascimento da “Expo Mec-Aut / FEI”, que nada mais era do que a apresentação de um projeto de formatura, realizado ao longo do curso, onde cada professor seria o orientador de cada parte do veículo, como freios, suspensão, carroceria e etc., e esse projeto final, de um veículo completo num nível acadêmico, para cada grupo de quatro alunos em média, seria apresentado e avaliado não pelos professores, mas sim por uma plateia seleta, composta por profissionais convidados da própria indústria automobilística.
No final do primeiro ano, ou seja, metade de 1988, os projetos da primeira turma ficaram prontos e aí veio a grande pergunta: Será que os profissionais convidados irão aceitar a apoiar este evento? Só fazendo convites para ver o que irá acontecer e aí, sem nenhuma ajuda financeira da instituição, com um rateio entre os professores das despesas de um pequeno coquetel, onde os petit fours foram preparados por alguns professores e alunos do semestre posterior serviram como garçons, faltava então a presença da plateia julgadora que iria realizar a avaliação, dando notas para os projetos de formatura da primeira turma.
Fizemos um convide audacioso para um grande número de gerentes, diretores e até para o presidente da Ford naquela época, Sr. Luiz Carlos de Mello e para a minha surpresa, inesperadamente todos aceitaram o convite, realizaram as avaliações, elogiaram os projetos e as apresentações dos alunos e o evento foi um verdadeiro sucesso. Graças a presença destas figuras ilustres, vários jornais noticiaram o evento e o transformaram num verdadeiro acontecimento.
Já para a segunda turma, em função do sucesso da primeira, além dos profissionais da Ford, também participaram os profissionais da GMB e daí pra frente, a cada ano, novas industrias, outras montadoras e dezenas de autopeças também fizeram questão de participar, tornando o evento cada vez mais importante. Assim, dinheiro para os eventos começou a aparecer, investimentos para o aprimoramento das aulas também surgiram, equipamentos foram adquiridos e o nível do curso cresceu vertiginosamente. A cada semestre novas notícias surgiam e a conclusão é que aquele curso que estava condenado ao fim por falta de alunos, tornou-se grande novamente, vivo até hoje.
Deste modo, o curso de Engenharia Mecânica Automobilística da FEI – Faculdade de Engenharia Industrial de SBC, voltou a ser importante novamente, bastante procurado, respeitado e fornecendo a cada semestre, um grupo competente de profissionais da mobilidade, assumindo postos importantes na indústria automotiva nacional.
Com isso, quando encontro um engenheiro formado pela FEI em Engenharia Automobilística depois de 1988, vem à minha cabeça que aquele profissional simplesmente não existiria se eu não tivesse tido a coragem e ao mesmo tempo a falta de juízo, ao aceitar aquela missão dada a mim, na noite daquela sexta-feira.
Quero também fazer um agradecimento especial a todos aqueles que comigo, vivenciaram e ajudaram a construir aquele momento histórico que está registrado, pois também foi contado no livro “Mecânica Automobilística 40 anos”, publicado pela UniFEI, em novembro de 2003.