10/09/2026
Aconteceu.!
Estar entre mulheres é algo que guardo na memória desde o tempo em que sentar na calçada ainda era possível. Eram nessas rodas com minhas tias, minha avó, minha mãe e minhas amigas que a vida ia ganhando contorno, eramos chamadas de fofoqueiras e eu lembro de isso não incomodar ninguém, pelo contrário, elas as gostavam de ser conhecidas como aquelas que sabiam de tudo. Minha avó, a mais desbocada, jogava no lixo todo o pudor possível da época e falava de s**o e sa*****em com a mesma naturalidade com que dava uma uma dica do que comer. Foi nesse lugar que eu me criei, eu vim da calçada, da rua, das rodas, dessas mulheres que, todas as noites, se reuniam para falar da vida e que, de algum modo, voltavam para suas próprias vidas depois de boas conversas e boas gargalhadas. Depois dessa roda, vieram muitas outras e hoje eu ouso entender que estar entre mulheres me fez caminhar até aqui.
O Entre Nós nasceu desse desejo. Eu achava que estava inventando alguma coisa nova, que tola. Era, na verdade, uma continuação de algo que eu já sabia, mesmo antes de saber nomear: estar entre mulheres é disruptivo, é rebelde, porque fomos ensinadas a caber a ocupar o espaço que nos foi dado, a disputar umas com as outras, desconfiar. Pouco nos ensinaram sobre criar espaço juntas e poder ver, na prática, mulheres da minha família fazendo isso foi um privilégio.
Talvez eu tenha passado a vida inteira tentando reencontrar aquela calçada e foi assim que chegamos à Entre Nós. O que aconteceu ali nesses dois dias é difícil de explicar para quem não viveu, talvez algumas coisas só possam ser compreendidas por quem estava naquela casa, mas eu acredito que nomear também é uma forma de fazer existir e encontrar palavras seja uma maneira de tornar possível que isso aconteça outras tantas vezes.
Mulheres aceitaram, por dois dias, não saber exatamente quem seriam naquele lugar e isso é enorme, de uma coragem gigante, principalmente para mulheres que passam boa parte da vida tentando controlar, cuidar, dar conta. Elas foram, sem saber e isso, por si só, já dizia muita coisa.
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(Continua nos comentários)