15/05/2026
Há um fenómeno curioso que observo há mais de 25 anos no mar e que nenhuma conferência de liderança conseguiu ainda explicar devidamente.
O momento exato em que um adulto altamente funcional leva uma onda na cabeça e deixa, finalmente, de representar.
Entram no mar assim.
Ombros junto às orelhas.
Mandíbula apertada como cofre emocional.
Cabeça cheia de notificações invisíveis que o corpo continua a processar mesmo quando o telemóvel já ficou em terra.
Trazem reuniões nos ombros.
Excel nos tendões.
E um maxilar contraído como quem ainda está a defender as cláusulas de mais um contrato.
Entram na água ainda vestidos da profissão.
E depois o oceano faz aquela coisa antiga que continua indiferente a cargos, relógios, estatuto e performance social.
Duas ou três ondas mal medidas.
Um trambolhão.
Uma prancha que foge.
O Norte que se perde por segundos.
E o ego, de repente, transformado em náufrago.
Ficam para ali.
Meio lavados.
Meio espremidos.
Como roupa cara esquecida demasiado tempo dentro da máquina de lavar.
E algures entre a espuma, o frio e o ridículo absoluto de falhar em frente a meia dúzia de desconhecidos… aparece o sorriso.
Aquele.
Não o sorriso social.
Não o profissional.
Não o sorriso educado de networking humano.
O outro.
O que aparece quando não há ninguém por perto para julgar.
O que aparece quando o corpo percebe antes da cabeça que afinal ainda consegue brincar.
O que aparece quando um adulto se esquece, por alguns segundos, da personagem que construiu para sobreviver.
É talvez por isso que algumas pessoas continuam a voltar ao mar mesmo quando o surf raramente faz sentido lógico.
Porque há coisas que o oceano desmonta em minutos e que anos de produtividade nunca conseguiram tocar.
👇 Se já sentiste isto no mar, conta-me nos comentários.
E se conheces alguém que precise urgentemente de parar de viver apenas em modo personagem… envia-lhe isto.