09/09/2026
Tornámo-nos todos comerciais
Há qualquer coisa de curioso a acontecer nas redes sociais.
Já quase ninguém parece simplesmente partilhar alguma coisa.
Estamos todos, de alguma forma, a vendê-la.
E nem estou a falar de dinheiro.
Vendemos uma opinião como se fosse uma conclusão.
Uma experiência pessoal como se fosse um método.
Uma descoberta como se ninguém tivesse chegado lá antes.
Uma preferência como se fosse evidência.
Uma transformação individual como se fosse uma fórmula replicável.
Até a vulnerabilidade ganhou embalagem.
É preciso que seja “a minha verdade”, “o segredo”, “aquilo que ninguém te conta”, “a única coisa de que precisas”, “o método que mudou tudo”.
Talvez tenhamos aprendido a linguagem dos comerciais tão bem que deixámos de perceber quando estamos a usá-la.
O algoritmo também ajuda.
A dúvida tem pouca força de venda.
A nuance não cabe bem numa montra.
“Talvez” converte menos do que “é isto”.
“Comigo resultou” parece ter menos autoridade do que “isto funciona”.
E assim, pouco a pouco, deixámos de disputar apenas atenção.
Começámos a disputar razão.
Não queremos apenas mostrar o que fazemos. Queremos que aquilo que fazemos pareça especial.
Não queremos apenas contar o que descobrimos. Queremos ter descoberto primeiro.
Não queremos apenas contribuir. Queremos ser referência.
E talvez seja por isso que há tanto conteúdo e, paradoxalmente, às vezes tão pouca conversa.
Porque numa conversa posso mudar de ideias.
Numa montra, não.
A montra precisa de parecer segura daquilo que vende.
Talvez uma das formas mais bonitas de resistência contemporânea seja voltar a partilhar alguma coisa sem a obrigação de a transformar num produto.
Dizer “isto tocou-me” sem acrescentar “e vai mudar a tua vida”.
Dizer “foi assim comigo” sem transformar o caminho numa estrada obrigatória para os outros.
Ensinar sem prometer milagres.
Criar sem reivindicar exclusividade.
Saber muito sem precisar de parecer dono da verdade.
Talvez não precisemos de deixar de vender.
Talvez precisemos apenas de voltar a distinguir aquilo que queremos partilhar daquilo que precisamos de convencer.
Porque quando tudo é uma montra, até a verdade começa a parecer publicidade.
J..