09/08/2023
O Algarve, a Negra Mole e o “Invisível aos Olhos”
É imensamente prazeroso perceber que cada vez mais pessoas conhecem e sabem sobre a casta Negra Mole. Um prazer difícil de descrever, e que me faz até sentir orgulho se eu imaginar que pude em algum momento, contribuir em alguma pequena degustação, prova ou momento para esse conhecimento.
Uma casta que antes foi por muitos considerada o “refugo” ou a “mistura” que servia basicamente para fazer volume nos lotes Algarvios, reconhecida e apreciada por poucos e que hoje é batalhada para ser cultivada e adquirida pelas Adegas.
A Negra Mole, que depois de mais de 10 anos a viver no Algarve, mais de 5 anos a trabalhar na Única, faz sentir-me no direito de tratar como a “nossa” Negra Mole. A nossa querida Negra Mole.
Mas não é só ela! De forma alguma!
Temos cá nestas terras queridas do Reino dos Algarves também o “nosso” querido Crato Branco, o “nosso” Crato (Síria/ Roupeiro)! E peço já, desde agora as minhas sinceras desculpas a todos que nunca provaram os nossos últimos “Lagoa Reserva Branco Single Wineyard”, que não poderão sentir com o coração ao que estou a me referir quando escrevo “o nosso” querido Crato!
Mas, este texto não é apenas sobre a nossa querida Negra Mole, nosso querido e delicioso Crato (sim, sou suspeita!). É sobre a existência e a inexistência deles. É sobre a inexistência no futuro de todas as castas que não iremos chegar a descobrir como maravilhosamente se adaptaram ou teriam se adaptado neste Terroir Algarvio contra todas as expectativas, sem ninguém suspeitar quão bem iriam se adaptar e quão únicos iriam ser os seus néctares.
É antes, sobre tudo aquilo que desconhecemos que iremos desconhecer. É uma frase confusa, e não é pela confusão pt-br (desta vez). É porque o pensamento é assustador…
Porquê há o Negra Mole hoje no Algarve?
Em grande parte, e não só, mas repito: em grande parte, porque existe uma Adega Cooperativa. Não estou a falar apenas sobre a Única, não estou a “vender o peixe”. Nem sequer estou a falar apenas sobre a Negra Mole, mas a Negra Mole é um excelente exemplo.
Estou a dizer que as tendências vêm e vão. Que os interesses são passageiros. Um território, não. Hoje podem existir imensos interessados em Negra Mole, amanhã, não sabemos. Mas, sabemos que se houver um monopólio interessado em comprar apenas castas A, B, C e D, as castas F, G e H irão pouco a pouco, desaparecer. E quem é que compra aquilo que ninguém mais quer? As Cooperativas. E é assim que ao longo tempo se preservam as vinhas que durante anos, “ninguém quis”.
E não, as Cooperativas não compram porque são “boazinhas” (aqui é mesmo pt-br!). Compram porque são obrigadas por seus Estatutos a comprar. E assim, como Cooperativa, acabam por possuir uma função muito além daquilo que “os olhos vêem”. Atuam, indirectamente, como reguladores de mercado, além de preservar origens e tudo aquilo que deixa de ser tendência ou de estar “na moda”.
E a Cooperativa que temos no Algarve, falhou, cometeu erros, poderia ter feito mais e ter feito melhor, sem dúvida. Mas, e é por experiência própria que posso falar que muito têm feito nos últimos 5 anos (que sobre estes posso falar por experiência própria), para cumprir com o papel que lhe cabe, e não tem faltado com seus compromissos ou promessas. Para isso, tem inclusive contado com parcerias fundamentais, que se não houvessem, talvez já não houvesse Cooperativa alguma no Algarve. Verdade seja dita, há mais que pode ser feito e contamos que assim seja por tudo que se coloca em causa.
Sabemos que se hoje alguém nos oferece 10 euros por 1 kg de alfarroba, e no próximo ano 10 euros por 1 kg de alfarroba, e no próximo faz o mesmo e a seguir também, quando já não tivermos outros clientes para vendermos nossas alfarrobas porque temos aquele que nos compra cada kg por 10 euros, chegará o ano que cada kg de alfarroba teremos que vender por 1 euro porque só existe ele a comprar (e assim pode determinar o preço a pagar).
Eu sou uma grande apreciadora do Arinto que temos no Algarve. Não sou a única. Também sou grande apreciadora (diria mesmo que é a minha casta preferida) da Tinta Francisca (existente em quantidades mínimas mais ao Norte do País). Nunca vi Tinta Francisca no Algarve. Não sei se algum dia alguém irá tentar tal façanha… coisa que talvez, só mesmo um agricultor muito peculiar, por amor e por experimentação, poderia fazer. E não acredito que houvesse mercado para compra – mas claro, a Cooperativa compraria. Teria que comprar (se o agricultor fosse sócio da Adega, obviamente).
E talvez, daqui a 5 ou 10 anos aparecesse alguém a dizer: “- Olhem lá a qualidade dos vinhos de Tinta Francisca no Algarve! Sim senhor, que valente pomada!”. E assim, talvez, outros mais produzissem. E assim, talvez, mais agricultura sustentável haveria. E maior variedade. E maior diversificação económica de actividades. E maior valorização e consciência sobre o papel (invisível) das Cooperativas. E quem sabe até, não seriam necessárias Pandemias para aprendermos que não podemos depender apenas do Turismo. E quem sabe ainda, iríamos valorizar aquilo que “é nosso” antes de precisarmos perder.
Dizia o Principezinho (Aintoine de Saint-Exupéry) que “o essencial é invisível aos olhos”. Dizia o José Saramago que é preciso se ter olhos de ver.
Eu, que sou de fora de cá, que me apossei do “nós de cá” por herança genética, por amor e afinidade com as gentes, tradições e terras, só posso repetir o que eles já diziam… “Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara.” – José Saramago.
Ana Clara Farto Agapito, membro efectivo da Ordem dos Biólogos de Portugal sob o N.º 4143
Lagoa, 25 de Julho de 2023