17/07/2024
Recuperei o filme “Mother Nature”, para partilhar com a Kendall Sneed, que estava a terminar o estágio na Clara Como Água, como mote para refletirmos sobre qual o discurso mais eficaz para alterar comportamentos em prol do desenvolvimento sustentável.
Recordo-me da primeira vez que vi o vídeo e de ter pensado: claro, que ideia esta de acharmos que somos “a última coca-cola do deserto”! Lembro-me também de questionar a relevância do impacto do homem no equilíbrio do ecossistema terrestre, para o bem (salvar o planeta) ou para o mal (dar cabo dele). Seremos assim tão importantes?!
Foi preciso estudar e ler um pouco mais sobre o tema para perceber que de facto somos, como diz Yuval Noah Harari no seu Sapiens, o maior predador terrestre. O nosso crescimento exponencial, a par do modelo de desenvolvimento que adotámos, tornou-nos de facto uma ameaça para o planeta.
São muitos os desafios que nos são colocados neste momento. Entre eles, se ainda vamos a tempo de manter o equilíbrio ecológico que conhecemos e no qual a vida acontece. E aqui entra a questão da urgência.
Será o papel da comunicação demonstrar a urgência e com isso mobilizar à ação? Vejamos a mensagem deste filme, uma iniciativa “Nature Is Speaking” da Conservation International que nos diz, na voz de Julia Roberts, que a Mãe Natureza existe há 4.5 biliões de anos, 22,500 vezes mais tempo que os humanos para explicar que, na verdade, não precisa das pessoas.
Perguntei à Kedall: O que nos pode mobilizar mais, uma mensagem que mostra que o poder regenerativo da natureza, pode eliminar a nossa espécie? ou uma mensagem que coloca o poder nos humanos de manter o equilíbrio no qual a vida se desenrola no planeta?
Confesso que é uma questão que me acompanha há uns anos, como profissional que acredita que a é a melhor ferramenta para para mobilizar públicos, desde que assente numa boa .
O desígnio da prosperidade em equilíbrio com a natureza é um por si só mobilizador. No entanto, como bem sublinhava Kendall na nossa conversa, a este desígnio estão associadas muitas regras, alterações de hábitos de produção e consumo, mudanças de estilo de vida ... que podem (e devem estar) a ser percecionados como um retrocesso.
Entendo por isso que os discursos centrados no “temos que fazer diferente”, “temos que olhar para o que estamos a deixar como legado” muitas vezes associados a julgamentos, podem não surtir os resultados que pretendemos.
Conforme dados partilhados por Filipe Santos, Dean na Católica Lisbon na abertura do encontro do Yunus Social Innovation Center, no passado dia 5, as várias gerações que nos trouxeram até aqui, foram responsáveis por: em “50 anos multiplicarmos por 10 o crescimento económico e social”; ou
termos hoje um “acumulado de 100 triliões de dólares de capital financeiro e produtivo que pode ser aplicado onde for mais preciso”
Demonizar estas gerações também pode não ser a melhor solução.
A Kendall trouxe a esta conversa valores, que são para mim essenciais. E vou copiar a frase que deixou escrita no seu trabalho final de estágio para que a ideia não se perca numa tradução simples:
Relearning the ethics of care is essential to this transformation. By cultivating a mindset of responsibility and empathy, we empower individuals to make impactful changes. Everybody is capable of changing the world in some corner of the planet, no matter how small their actions may seem. (…) Only by fostering a deeper sense of empathy for our Earth and making conscious choices can we hope to build a sustainable future.
É preciso desenvolver e promover a ética do cuidar e a mentalidade da responsabilidade e da empatia. Por oposição a discursos envoltos em julgamentos.
A responsabilidade empodera-nos, pois permite reconhecer que temos o poder de transformar. A empatia garante que a ação transformadora se faz em profunda ligação com o outro e com a natureza.
A comunicação para a sustentabilidade deve estar ao serviço da promoção da ética do cuidar, sem julgamentos ou atribuição de culpas, contribuindo para o reconhecimento de que todos somos beneficiários desta ação conjunta. Que não se tratará de perder benefícios, qualidade de vida, mas sim ganhar mais vida.
A Kendall terminou o seu estágio a semana passada e antes de partir, referiu que quando chegou a Portugal e lancei o desafio de pesquisar sobre os temas da , propósito, , ... não imaginava a viagem que iria começar a fazer pela sustentabilidade.
Recordo uma das suas primeiras observações: “nos EUA não nos ocorre pôr a roupa a secar ao sol e ao vento. Todos temos máquinas de secar. A conveniência está em primeiro lugar na decisão de consumo.” Falou da simplicidade da solução vento e sol, como algo romântico. E atribuiu a este hábito tão simples, que percebeu ser comum em Portugal, um bom motivo para gerar a reflexão sobre consumo.
A comunicação deve demonstrar de forma , que existem benefícios muito concretos para cada um de nós, de estender a roupa no estendal e tornar este novo hábito como algo apetecível. Este e tantos outros que nos permitem uma vida mais conectada com a natureza.
Eu posso dizer-vos que através do seu olhar, passei a apreciar a tarefa de estender a roupa no estendal. Irei sempre lembrar-me da Kendall nesses momentos.
Obrigada, Kendall.
Obrigada Lisbon