20/06/2020
Os Problemas da Comunicação Não Verbal
O primeiro problema da chamada Comunicação Não Verbal começa com o nome, que na opinião de muitos especialistas não é apropriado. Eu partilho dessa opinião. Comunicação, na wikipédia está definida como um processo que envolve a troca de informações entre dois ou mais interlocutores por meio de signos e regras semióticas mutuamente entendíveis. Quando falamos em comunicação estamos a pressupor uma troca de mensagem entre duas ou mais pessoas. Porém, se vejo alguém ao longe e observo a sua silhueta, consigo perceber se aquela pessoa é idosa ou não, tem dificuldades motoras ou não, está tensa ou descontraída, emocionada, agitada ou serena, e não houve qualquer comunicação pela definição acima. É mais apropriado falar de linguagem corporal. Com efeito o nosso corpo transmite o tempo todo as nossas disposições, sentimentos e pensamentos.
O segundo problema, na minha opinião, é que graça no meio da Comunicação não Verbal, uma tendência comportamentalista de manipulação. Passo a explicar. Por exemplo quando alguém é ou está mais confiante tende a ocupar mais espaço entre os pés, com as pernas, com os braços, com o corpo na generalidade. Muitas pessoas advertem para que se queremos ser confiantes, então devemos adoptar essa postura. E isso é verdade e não o é, ao mesmo tempo. A resposta correta é depende. Se eu estou triste e tento sorrir ainda que sem motivo, a contração dos músculos do rosto estimulam um processo neurológico, que vai estimular a alegria. Se me sinto mais inseguro e adoptar durante 2 a 3 minutos uma posição chamada dominante, com as mãos na cintura, cotovelos para fora, pés afastados, ajuda muito no ganho de confiança, como muito bem explica e demonstra a psicóloga Amy Cuddy em um TED, onde se verificou até um aumento nos níveis de testosterona. Nestes casos eu faço um esforço para mudar o meu comportamento de dentro para fora, o esforço é comigo, é qualitativo, é um esforço para me aperfeiçoar. Outra coisa diferente é eu adoptar um sorriso para ter a empatia do meu interlocutor. Sorrir para ter a empatia do outro só vale se for sincero, autêntico. Um sorriso falso não gera empatia. E é aqui que o comportamentalismo se torna menos interessante, quando tem a proposta de manipular e mascarar a nossa comunicação com os outros. Se em uma apresentação adoptar uma posição dominante para passar a informação de confiança ao grupo, a linguagem corporal é feita de tantos mas tantos detalhes, que a menos que essa confiança seja autêntica e espontânea, o público vai perceber que é fake. E se é falsa, então gera reservas por precaução e tem o efeito oposto ao pretendido. O objetivo último da comunicação, talvez seja a empatia e a compaixão. E o primeiro degrau da geração de empatia, aquilo que lhe é mais valioso, é a autenticidade.
O terceiro problema, está relacionado com as análises de comunicação não verbal feitas sem ter em conta o conceito de elemento sistémico. Imagine que lhe é dito que quando há desejo sexual as pupilas se dilatam, o que é verdade. Isso não significa que sempre que conhece alguém e as pupilas estão dilatadas que exista desejo sexual. Pode ser um alteração por causa da luz da sala, por uma questão de doença (midríase), pode ser apenas mais interesse sem conotação sexual, mais foco e concentração e até alguém que fez mergulho sem o equipamento adequado ou tenha saído do oftalmologista. Ter em conta o elemento sistémico faz-me pensar na linguagem corporal como um todo e eliminar distorções sistémicas. Imagine que está a ver alguém a ser entrevistado na televisão sobre se cometeu um crime ou não, e observa indicadores de medo e apreensão no rosto da pessoa. Ela está a mentir. É culpado? Como diz o provérbio popular quem não deve não teme. Estamos perante um criminoso. Será? Parece-me óbvio que precisamos fazer uma avaliação com mais profundidade. Ao ter em conta o elemento sistémico temos de ponderar o efeito da exposição pública, o medo pode ser das câmeras e não dos fatos ocorridos, como é habitual em muitas pessoas, ficarem apreensivas ao serem entrevistadas. À parte do elemento sistémico mas suportado por ele, o medo do caso anterior pode ainda ser sobre qualquer outra razão, como a sua imagem própria, medo do que pensarão os familiares e a sociedade, medo de ser descoberto em que como está a encobrir o verdadeiro responsável pelo crime ou outra coisa qualquer e não o medo de ser descoberto por ter sido ele a ter cometido o crime. E por isso é necessário ter vários indicadores e uma visão global de toda a comunicação para poder concluir uma análise em linguagem corporal, e ainda mais se for em casos de julgamentos oficiais ou nos analises para os media.
O quarto problema são as falsas crenças muitas vezes instituídas. Por exemplo, que cruzar os braços é sinal de fecho ao outro, que coçar o nariz é um sinal de mentira, que olhar para a direita ao falar sobre algo é indicativo de mentira. Nenhum destes exemplos é representativo, bem pelo contrário. A grande maioria dos cruzes de braços não são de fecho, coçar o nariz pode ser indicativo de algo bem positivo e interessante e olhar para a direita na grande maioria dos casos não está relacionado com a não verdade. Outra falsa crença, é que sempre que se fala em comunicação não verbal, é referido o célebre estudo do Albert Mehrabian, em que 7% da nossa comunicação é transmitida por palavras, 38% pelo tom de voz e 55% pela linguagem corporal. Ele mesmo referiu no próprio estudo que aquelas percentagens apenas eram representativas quando as pessoas falavam daquilo que gostavam, ou não gostavam e não em outras circunstâncias. A linguagem corporal é muito importante mas a sua parte em uma mensagem vai depender muitas variáveis.