27/09/2026
A produtividade também se decide.
O desafio das microempresas portuguesas.
Portugal fala sobre produtividade há décadas.
Comparam-se salários, horas trabalhadas, investimento, tecnologia, qualificações e dimensão das empresas, e tudo isto é relevante, mas talvez estejamos a prestar atenção insuficiente a uma questão mais elementar: como são tomadas, todos os dias, milhares de pequenas decisões nas empresas portuguesas, nomeadamente nas micro e pequenas empresas a operar em Portugal?
A produtividade não nasce apenas de grandes investimentos, de inteligência artificial ou de máquinas mais eficientes.
Também nasce da capacidade de um empresário saber quanto ganha realmente em cada produto, antecipar uma dificuldade de tesouraria, distinguir entre faturação e rentabilidade, calcular corretamente um preço, avaliar um financiamento ou perceber se dispõe de reservas suficientes para enfrentar uma quebra inesperada da atividade.
Um problema estrutural da economia portuguesa:
A economia portuguesa enfrenta um problema persistente de produtividade, particularmente relevante num tecido empresarial dominado por empresas de pequena dimensão, e a diferença de desempenho entre empresas não pode, contudo, ser explicada apenas pela dimensão, pelo setor ou pelo acesso a capital e tecnologia.
Se duas microempresas, com dimensão semelhante e atuando no mesmo contexto económico, podem apresentar desempenhos muito diferentes, então a forma como são geridas também importa.
Ou seja: a qualidade da gestão, a capacidade de interpretar informação e a disciplina na tomada de decisão tornam-se, assim, parte do problema e, potencialmente, parte da solução.
O custo invisível das pequenas decisões:
É precisamente neste ponto que a problemática da produtividade se cruza com a investigação que desenvolvi no âmbito da minha dissertação de mestrado sobre as competências de gestão financeira dos microempresários.
A investigação partiu de uma questão essencial: quais competências financeiras são necessárias para que um microempresário tome melhores decisões?
Foram identificadas seis dimensões fundamentais: planeamento e controlo financeiro; preços, margens e rentabilidade; gestão de tesouraria e de liquidez; cumprimento fiscal e contributivo; financiamento e relação com entidades externas; e gestão de risco e resiliência.
Estas dimensões não constituem apenas categorias académicas, pois correspondem a decisões concretas: quanto devo cobrar? Qual é a minha margem? Tenho liquidez suficiente para os próximos três meses? Posso contratar mais uma pessoa? Devo recorrer a financiamento? Que financiamento devo escolher? Quanto me custa realmente? O que acontece se perder o meu cliente principal?
Isto é: decisões erradas, repetidas ao longo de meses ou anos, acumulam ineficiências e é aqui que começa uma parte da produtividade que raramente aparece nas grandes discussões macroeconómicas.
Do conhecimento financeiro à capacidade de decidir:
Os resultados da investigação realizada junto de microempresários reforçam esta leitura: no estudo quantitativo, verificou-se uma associação positiva moderada entre os conhecimentos financeiros declarados e o nível global de competências aplicadas (ρ = 0,435; p < 0,001).
Mais expressivo ainda: a maturidade demonstrada perante cenários práticos de decisão apresentou associação positiva moderada com o score global de competências (ρ = 0,487; p < 0,001).
Por outras palavras: conhecer é importante, mas saber aplicar o conhecimento a um problema concreto é determinante.
A investigação identificou também fragilidades específicas: o comportamento de comparar opções de financiamento antes de decidir apresentou uma média de apenas 2,81, com baixa frequência em 45,6% dos participantes.
Isto significa que uma decisão de financiamento inadequada pode aumentar os encargos, reduzir a liquidez e limitar o investimento futuro.
Multipliquemos pequenas decisões desta natureza por milhares de microempresas e compreendemos como uma questão microeconómica pode contribuir para um problema macroeconómico.
Um toolkit, não mais um manual:
É por esta razão que considero insuficiente limitar a resposta à ideia tradicional de “dar formação” aos empresários, pois o “microempresário” não necessita apenas de mais informação: necessita, sobretudo, de instrumentos que transformem informação em decisão.
É neste sentido que a investigação propõe a evolução para um modelo prático de desenvolvimento de competências, materializado num framework e num toolkit de gestão financeira, no qual o objetivo não é transformar um pequeno empresário num diretor financeiro; é permitir que, perante uma decisão concreta, disponha de ferramentas simples para diagnosticar a situação, interpretar informação financeira, comparar alternativas, decidir e, posteriormente, avaliar o resultado.
Perante uma necessidade de financiamento, por exemplo, o empresário deveria ser conduzido por um processo estruturado: identificar a necessidade, avaliar a capacidade de pagamento, comparar alternativas, calcular o custo efetivo, testar o impacto na tesouraria e analisar o risco.
O mesmo princípio pode aplicar-se a preços, margens, orçamento, impostos, tesouraria ou investimento.
Da formação aos resultados observáveis:
Há, porém, uma condição essencial: um toolkit desta natureza só terá verdadeiro interesse económico se produzir mudanças observáveis.
Não basta perguntar ao empresário se gostou da formação.
É necessário verificar se, após a intervenção, passou efetivamente a elaborar previsões de tesouraria, calcular margens antes de definir preços, comparar alternativas de financiamento, utilizar indicadores financeiros, antecipar obrigações fiscais, constituir reservas de liquidez e identificar riscos.
Dito de outro modo: o sucesso da formação não deve medir-se apenas pelo conhecimento transmitido, mas também pela melhoria da decisão produzida, e é precisamente aqui que um toolkit pode estabelecer uma ponte entre a investigação académica e a economia real.
Produtividade não significa trabalhar mais:
Existe um equívoco recorrente no debate sobre produtividade: associá-la simplesmente ao trabalho com mais horas ou à maior intensidade de trabalho.
Produtividade significa produzir mais valor com os recursos disponíveis, visto que uma empresa que trabalha dez horas para corrigir uma decisão que poderia ter sido tomada em cinco minutos não é mais produtiva por ter trabalhado mais.
Uma empresa que vende muito, mas desconhece as margens dos seus produtos, pode estar ocupadíssima e, simultaneamente, destruir valor.
Um empresário que trabalha doze horas por dia, sem orçamento, sem previsão de tesouraria nem informações de gestão, não tem, necessariamente, um problema de esforço.
Pode haver um problema no método…
Melhor gestão também é política de produtividade
Portugal necessita de investimento, inovação, digitalização, qualificação e de melhores instituições e empresas capazes de alcançar escala.
Verdade seja dita: nenhum toolkit financeiro resolverá, isoladamente, um problema estrutural desta dimensão, mas também não devemos desprezar milhares de pequenas melhorias, pois se uma microempresa melhorar preços, margens, tesouraria, financiamento e gestão do risco, utilizará potencialmente melhor os recursos de que dispõe.
Se milhares o fizerem, o impacto deixa de ser apenas empresarial, tornando-se económico.
A produtividade portuguesa constrói-se também neste nível quase invisível: na qualidade das decisões tomadas diariamente nas pequenas empresas.
Talvez, por esta razão, uma parte da resposta ao problema da produtividade não esteja apenas nas grandes reformas económicas, podendo estar numa folha de cálculo bem construída, num indicador compreendido a tempo, numa previsão de tesouraria atualizada, numa alternativa de financiamento comparada antes da assinatura ou num preço definido com conhecimento da verdadeira margem.
No fundo, trata-se de substituir progressivamente o “acho que” pelo “os números mostram que”, porque a produtividade não é trabalhar mais: é decidir melhor para gerar mais valor.