14/05/2026
Piquenas e micro empresas
(ao som de Petit Commerce de B. Vian)
Vendi pega-monstros, antenas de ET,
óculos espelhados, sem filtros uv.
Cedo murchou a rosa congelada
que estendi em vão à turba endividada.
Vendi cachecóis e pilhas de rádio;
deixei a rulote à beira do estádio.
Servi jola fresca e sandes de courato,
pobre fartura, vendida ao desbarato.
Caia o negócio em lenta agonia,
até que vi a luz da santa economia.
Rodo na maior, num cybertruck preto,
faço cacau em tudo o que me meto.
Tenho um rooftop no meio da avenida;
cheiro da melhor; gozo a louca vida.
Lá fora os chuis batem-me continência
vendo bazucas de grande potência.
Rockets e fuzis, obuses de morteiro,
tanques, minas e misseis de cruzeiro.
Drones à venda!
Venham reciclar os vossos metais,
na fábrica de brinquedos letais.
Crio emprego; restauro a confiança;
meto na ordem a má vizinhança.
Venha a família ao mega churrasco,
eu acendo o lume e dou o tabasco.
O seguro cobre uns palmos de terra;
matai-vos uns aos outros, ide em guerra.
Fui top seller de armas mortais;
era arrasador, tive sorte a mais.
Agora prosperam os crematórios
pico aqui e ali; janto nos velórios.
Ando bem à larga, na rua vazia,
sem arrependimentos, sem nostalgia.
Feitas as contas, faço bom rescaldo;
danço o regatone e canto bem alto:
Drones em saldo!