06/06/2024
Ele (o Mendigo) observava os caminhantes e dava risadas. Marco Polo se esforçava para entender, mas não sabia o que estava acontecendo. Falcão se divertia imaginando o que as pessoas estariam pensando naquele exato momento. Minutos depois, permitiu que o jovem entrasse na brincadeira.
Queria ensinar-lhe uma lição.
- Está vendo aquele sujeito apressado, apreensivo, de gravata torta. Olhe como ele torce o nariz e faz caretas. Deve estar pensando: "Eu não aguento mais meu chefe! Eu vou pedir
demissão e mandá-lo plantar batatas." Coitado! Ele é o melhor plantador de batatas dessa cidade.
Faz anos que repete a mesma coisa.
Marco Polo abriu um sorriso analítico. Pensou: "Sempre foram os normais que zombaram dos trejeitos dos marginalizados. Eles falam sozinhos, gesticulam, são curiosos. Não imaginava que
alguns deles vissem a sociedade organizada como um circo." Falcão (o Mendigo) chamou a atenção para outra pessoa.
- Está vendo aquela mulher toda embonecada, tentando equilibrar-se naquele salto enorme.
Olhe lá. Como ela anda torta. Quase caiu. Que coisa mais estranha. Nunca ninguém olhou para aqueles saltos, mas ela não desce deles. Deve estar pensando: "Quem será que está me
admirando?!"
Em seguida, perguntou ao jovem:
- Quem está admirando aquela mulher?
- Não sei - respondeu Marco Polo.
- Só nós, seu tonto! Ficou mais de uma hora sofrendo diante do espelho para dois tolos observá-la - respondeu, brincando. E completou:
- Se você não brincar com a vida, a vida brigará com você.
Marco Polo entendeu o recado e topou a brincadeira. Em seguida, chamou a atenção para um homem aparentemente muito famoso, devia ser um ator ou cantor. Estava rodeado por seguranças e era perseguido por alguns repórteres tentando entrevistá-lo. Agressivo, desdenhava dos jornalistas.
- Ele deve estar pensando: "Eu sou o herói desta cidade!"
Marco Polo não conseguiu dizer mais nada sobre o homem e percebeu que Falcão não apreciara sua frase.
- Você escolheu o personagem errado. Ele não tem graça nenhuma, vive em torno da fama, pisa nos outros. Morre todos os dias um pouco, mas se acha acima dos mortais. A mídia o produziu e a mídia o detesta.
Marco Polo, incomodado, perguntou-lhe:
- Quem eu deveria escolher?
- Você poderia escolher aquela jornalista tentando entrevistá-lo. Ela está bufando de raiva por dentro! Deve estar pensando: "Não acredito que ganho tão pouco para entrevistar um cara tão vazio."
Marco Polo parou para meditar nessas palavras. Falcão completou:
- Os jornalistas são profissionais interessantes. São como bactérias que criticam o sistema, mas dependem dele para sobreviver.
Extraído do livro "O Futuro da Humanidade" de Augusto Cury