10/19/2024
Já se passou um ano desde que vi pela primeira vez “Woman of the Hour (Mulher da Hora)”, a direção de Anna Kendrick, que estreou no Festival Internacional de Cinema de Toronto em 2023. E o filme ainda me assombra. Escrito por Ian McDonald, o filme é inspirado na história real de como o estuprador e assassino em série Rodney Alcala apareceu em “The Dating Game”, um show de televisão nacional em 1978, que é nada mais nada menos do que um show onde as moças bonitas escolhem com quais dos candidatos elas querem namorar.
Muito parecido com algo que acredito existir no Brasil sob o nome de Namoro na TV. Kendrick não apenas apresenta uma atuação tipicamente inteligente e corajosa como Sheryl, uma aspirante a atriz e uma das participantes do show que acabou escolhendo Rodney para namorar naquele dia fatídico, mas como diretora, ela também mostra uma grande curiosidade sobre o poder do olhar, tanto cinematográfico quanto humano.
“Você é linda”, diz Alcala à todas as suas vítimas, principalmente mulheres fragilizadas e muitas delas em busca de um relacionamento saudável que se sentem marginalizadas por uma sociedade machista misógina e austera quando se trata do universo feminino. Ele é fotógrafo. Ele conhece o poder do seu olhar, através da sua câmera.
Kendrick começa seu filme com uma vítima assassinada em 1977. A gente a ouve primeiro antes que sua imagem apareça na tela. A primeira imagem dela é enquadrada pelas lentes de Alcala. “Tente esquecer que há uma câmera aqui”, ele diz a ela. Kendrick então foca suas lentes no rosto de Alcala, os olhos azuis piscina do ator Daniel Zovatto disfarçados de empatia, a ferramenta que ele usa justamente para acalmar as mulheres com uma falsa sensação de segurança.
Quando ele muda para o modo predador, uma crueldade avassaladora toma conta de seus olhos. Kendrick segura o rosto, permitindo que a mudança aconteça diante de nossos olhos, colocando-nos diretamente na psique de suas vítimas.
Mais tarde no filme, depois do show e que ele também foi escolhido por ela como o melhor candidato para namorar, Alcala e Sheryl saem para beber. O clima não é legal. A experiência não é boa. A risada de Sheryl causa uma mudança e um desconforto no solteiro aparentemente charmoso.
Procurando relaxar o ambiente que estava f**ando tenso, ela se abre com ele e diz que não namora muito. Ele a questiona e acha uma ironia de ela participar de um programa de namoro. “Meu agente disse que isso me faria ser vista”, diz ela. “Você se sentiu vista?” ele pergunta. A câmera faz um close-up dos dois, enquadrando a conversa como um duelo. “Eu me senti olhada”, ela admite. “Como você se sente agora?”, ele insiste. “Tudo bem”, diz ela, apesar de seu visível desconforto. “Tudo bem”, ele responde zombeteiramente. Há uma pausa ameaçadora. Então ele continua: “Sabe, a maioria das pessoas não gosta de ser vista. Elas estão com medo. Porque você tem que estar confortável consigo mesmo para ser vista e notada. Você tem que parar de atuar."
Cada mulher no filme de Kendrick tem um momento em que faz o papel de uma mulher legal, para superar uma situação que começa a f**ar desconfortável. Sheryl tem que navegar por esse tipo de atuação muitas vezes ao longo do filme.
Tomemos, por exemplo, o momento em que o apresentador do game show Ed Burke (Tony Hale, minimizando e com um certo desprezo) entra no camarim de Sheryl jorrando um dilúvio de misoginia e racismo casuais antes de dizer a Sheryl para não assustar os solteiros com sua inteligência. Que ela deveria apenas fazer o papel de bobinha e sorrir, exatamente como ela fez em outra audição com dois outros homens que selecionavam um elenco, e debatem abertamente seu corpo, se ele era boa ou não para aparecer nua no papel.
Assim como ela faz ao rejeitar os avanços do vizinho e colega aspirante a ator Terry (Pete Holmes) enquanto bebem em um bar. Assim como Amy (Autumn Best, um foguete), uma adolescente fugitiva cuja fuga de Alcala acabou levando à sua prisão, também usa um sorriso e uma risada para sobreviver ao encontro violento com ele.
À medida que o game show termina, Sheryl pergunta se ela foi longe demais ao mudar as perguntas, efetivamente virando todo o empreendimento misógino de cabeça para baixo. Sua maquiadora garante que não. “Não importa as palavras que usem, a pergunta por trás permanece a mesma”, ela comenta. “Qual é a pergunta?” Sheryl questiona. “Qual de vocês vai me machucar?” a mulher responde.
Esta questão permanece no centro do filme de Kendrick, tal como acontece com a maioria das mulheres que vivem num mundo que muitas vezes não as protege da violência masculina. “Eu sabia que ele era arriscado, mas fo***se, todo mundo é arriscado”, diz uma das vítimas descrevendo seu ex-parceiro para Alcala enquanto ele a fotografa poucos minutos antes de assassiná-la violentamente.
O exame do filme sobre o poder de ser visto, e especif**amente de ser compreendido através do ato de ser visto, é mais ef**az em três momentos espelhados. Durante as filmagens do game show, uma mulher chamada Laura (Nicolette Robinson, que desempenha o papel quase que como um nervo exposto) está com seu namorado assistindo o show ao vivo no estúdio e tem uma reação visceral quando Alcala aparece no palco como um dos pretendentes ao namoro. Ela tem certeza de que ele é o cara que matou sua amiga em Malibu no ano anterior.
Ao sair às pressas do estúdio, ela derruba um monitor. Durante a comoção, as mulheres se olham, mas as luzes ofuscantes impedem Sheryl de receber a mensagem dos olhos de Laura. Depois do show ela acaba saindo com Alcala, e vão ao primeiro bar que encontram pela frente. Depois do primeiro drink, ele tenta pedir uma segunda rodada de bebidas. Sheryl cruza os olhos com a garçonete, balançando a cabeça com um desesperado “não”.
A mensagem é recebida e a mulher diz que já fecharam o serviço do bar. Perto do final do filme, Amy, presa no carro de Alcala, olha nos olhos de um homem em uma camioneta quando eles param em uma encruzilhada. Seus olhos transmitem um pedido urgente de socorro, mas o homem da camioneta olha através dela, e não para ela e segue seu caminho.
Existe uma linguagem universal nos olhares trocados entre mulheres, especialmente quando um homem perigoso está presente. Não conheço nenhuma mulher que não tenha passado por uma experiência como essa, embora, infelizmente, essas situações nem sempre terminem bem.
Enquanto assistia ao filme, lembrei-me do Almir, um velho amigo e consultor que morava no Rio de Janeiro quando um dia o convidei para ir à minha casa e preparei um jantar para ele. Ele me contou uma história sobre sua irmã ter passado por uma situação semelhante. Contou ele que neste bar onde sua irmã bebia com alguns amigos, ela percebeu que um a um dos amigos que estavam com ela foram saindo e deixando ela para trás. Ela estava preocupada e f**ando nervosa e nenhum deles captaram a mensagem que ela transmitia através do seu olhar. Segundo ele, ela saiu da situação antes que escurecesse demais, mas os limites foram ultrapassados quando finalmente ela ficou sozinha com um homem que fazia parte daquele grupo de amigos. Uma amiga voltou para resgatá-la, e ela chorava abraçada com essa amiga, dizendo que nunca se sentiu tão insegura e tão ameaçada em toda sua vida. Este é um sentimento que Kendrick conhece muito bem, já que ela usa todas as ferramentas cinematográf**as à sua disposição para expressá-lo.
É inevitável que sejam feitas comparações com o “Zodíaco” de David Fincher, e isso seria justo, pelo menos superficialmente. Kendrick fez um thriller ambientado nos anos 70 sobre um serial killer cujo reinado de terror durou uma década. O filme de Fincher é sobre homens cujas vidas se envolveram na tentativa de resolver o mistério de quem era o Zodíaco e o preço que essa obsessão teve em suas vidas.
O filme de Kendrick usa Alcala para criticar a sociedade que o capacitou. É sobre como a sociedade normaliza a violência contra as mulheres através do sexismo e da misoginia aparentemente inofensivos, o que acaba por abrir caminho para uma escalada de violência. A linguagem visual pode ser vista como uma crítica, até mesmo de “Zodíaco” e dos verdadeiros filmes policiais que ele gerou, que muitas vezes parecem deleitar-se em recriar esta violência.
Embora tenhamos vislumbres dos ataques brutais de Alcala, Kendrick os filma à distância ou em close-ups extremos, minimizando-os e obscurecendo-os. Ela cria tensão nessas cenas por meio de uma trilha sonora de ruídos ambientais, pássaros cantando ao vento, zumbido de luzes fluorescentes e tráfego nas ruas. Antes que a violência se torne cintilante ou exploradora, ela interrompe abruptamente, certif**ando-se de que nós estejamos cientes do nosso próprio voyeurismo, que ela tem o poder de negar.
Em vez disso, ela se detém nos momentos cotidianos de ameaça. As muitas vezes que os homens tocam o pescoço ou o cabelo de Sheryl sem sua permissão. A maneira como o namorado de Laura imediatamente duvida e depois questiona o que ela diz ter experimentado ao ver que aquele individuo ameaçador fez com sua amiga. E questiona se aquilo é ou não verdade.
A forma como os policiais f**am encantados com Alcala e o deixam ir, com uma risada e um sorriso.
No meio das filmagens de seu episódio de “The Dating Game”, a maquiadora diz a Sheryl: “Você deveria estar é se divertindo. Esse é o propósito do show. Diga o que quiser.
Não seria bom se a vida fosse tão simples e segura?
Este filme está na Netflix.
Belo filme. E adorei e recomendo.
Vale a pena ser visto.
Cheers,