11/07/2022
– O que queres ser quando fores grande?
– Pequeno outra vez.
Foi assim que conheci o Zambé, o p**o de quem hoje quero falar-vos. Miúdo traquina, uma cabeça linda, a vida toda no interior dos olhos quando me olhava, naquela sala daquele colégio, e quando me fazia crer que só não existia aquilo que não se imaginava. Com o Zambé aprendi a ser criança e estimo bem que não haja ensinamento mais valioso do que esse.
— O que queres ter quando fores grande?
— Um brilho nos olhos.
Ainda na última vez em que nos cruzámos ele lá estava, o mesmo olhar, a mesma vontade de descobrir tudo pela primeira vez, levava uma criança ao colo e eu percebi que só foi pai para ter uma desculpa para não crescer.
– Então o que fazes?
– Invento.
– O que inventaste hoje?
– Uma nova maneira de abraçar.
Ensinou-me logo ali aquele abraço, a rua toda imóvel a rir-se de nós, alguns olhares de escárnio, e o Zambé e eu aos saltos numa forma de abraço que ninguém entendia mas que sabia bem comó caraças. No final das contas, o que levamos da vida é aquilo que ninguém entende mas que sabe bem comó caraças.
– O que estás a fazer?
– A ensinar o meu filho a ler.
– Mas tem dois anos.
– Sim, mas ainda vai a tempo.
– E já sabe as letras?
– Quem precisa de saber as letras para saber ler?
E lá ficou ele, aquele sorriso insensato como só as pessoas livres conseguem ter, o seu Pechimperé, uma criança de dois anos, ao colo no meio do jardim público onde toda a gente pensava em contas, em crises, em coisas tão insignificantes como sobreviver, esquecidas de que o mais importante estava a acontecer e chamava-se vida, e já agora o sol que estava bem alto a brilhar. No final das contas, o que levamos da vida é ela acontecer e o sol bem alto a brilhar.
– O que lhe vais dar no Natal?
– Estava a pensar dar-lhe um beijo.
Com toda a seriedade do mundo, Zambé brincava, talvez estivesse nisso o segredo para a felicidade das crianças, há lá algo mais sério para uma criança do que brincar?
– Gostava de assistir ao meu funeral.
– Mas porquê?
– Seria a prova de que ainda estava vivo.
Zambé era, passe o pleonasmo, uma criança filósofa.
– Tens medo da morte?
– Não.
– Porquê?
– Quando ela chegar sei que não vai apanhar-me vivo.
E não apanhou.
__
A RARIDADE DAS COISAS BANAIS,
uma história incrível, que nos ensina a nunca nos sentirmos sozinhos.
Disponível em todos os hipermercados e livrarias.
Reserva de exemplares autografados e com dedicatória através de mensagem privada.
(imagem: Vanessa Rivera)